Mulheres continuam a gastar mais horas em trabalho doméstico não pago do que os homens
Mulheres continuam a ser penalizadas na divisão do tempo: gastam mais tempo do que os homens no trabalho doméstico não pago, mas menos no trabalho remunerado.
Os tempos mudaram, a igualdade de género ganhou um lugar na agenda e as estatísticas até mostram progressos, mas as mulheres continuam a ser penalizadas na divisão do tempo. Elas continuam a gastar mais tempo do que eles em trabalho doméstico não pago, e a dedicar menos tempo ao trabalho remunerado, prejudicando, assim, as suas perspetivas salariais e de carreira.
Este cenário é descrito na nova análise divulgada pelo Observatório Género, Trabalho e Poder do ISEG, na véspera do Dia Internacional da Educação.
Mostra que, apesar dos “assinaláveis progressos registados ao nível da igualdade formal nas últimas décadas, subsistem desigualdades significativas na distribuição do tempo entre trabalho remunerado, trabalho doméstico não remunerado e lazer“.
Em concreto, num dia útil típico, as mulheres despendem, em média, 64% do seu tempo em trabalho remunerado. Já os homens dedicam 67% do seu tempo.
Em contrapartida, elas gastam, em média, 20% do seu tempo em trabalho doméstico não remunerado, o que compara com a média masculina de 13%.
“Consequentemente, sobra-lhes [às mulheres] menos tempo para se envolverem em atividades filantrópicas ou para dedicarem tempo a hobbies, como desporto, lazer ou deslocações, sendo a diferença entre 12% para as mulheres e 15% para os homens”, destaca o observatório.

Até aos fins de semana, as diferenças de género na distribuição do tempo são visíveis. De acordo com a nova análise, a maior parte do dia de fim de semana dos homens é dedicada a atividades de lazer, desporto e hobbies, representando, em média, cerca de 42% do seu tempo.
Já elas, no mesmo período, despendem a maior parte do dia em tarefas domésticas e outras atividades não remuneradas, também com uma média de cerca de 42%.

“Além disso, observa-se que os homens continuam a dedicar uma percentagem média superior do seu tempo ao trabalho remunerado durante os fins de semana (24%) em comparação com as mulheres (17%)”, é observado.
“Um dado interessante é que, tanto nos dias úteis como aos fins de semana, os homens tendem a investir mais tempo do que as mulheres em trabalho filantrópico ou voluntário não remunerado”, é acrescentado.
Perante estes dados, Maria João Coelho Guedes, investigadora do ISEG, sublinha que “a divisão do tempo continua a penalizar as mulheres“. “Ao trabalharem menos horas no trabalho remunerado, ganham menos, tornam‑se menos visíveis e são potencialmente menos consideradas para promoções. Quanto ao trabalho não remunerado, este permanece invisível e não valorizado”, declara.
Ao trabalharem menos horas no trabalho remunerado, ganham menos, tornam‑se menos visíveis e são potencialmente menos consideradas para promoções.
A especialista alerta também que esta divisão desigual do tempo, além de persistente, é transversal a todas as mulheres trabalhadoras.
“Ou seja, o padrão de menos horas pagas e mais horas não pagas verifica‑se entre mulheres no topo da hierarquia, em posições intermédias e em funções menos qualificadas; Entre profissionais de recursos humanos ou de outras áreas; Entre mulheres com mais ou menos estudos; casadas ou não; com filhos e filhas ou sem descendência“, enumera.
“A todas cabe, de forma generalizada, enfrentar o peso mais intenso da dupla jornada, o que limita o tempo para lazer e impacta negativamente o seu bem‑estar“, afirma a investigadora.
O peso da maternidade na jornada da igualdade

A nova análise do Observatório Género, Trabalho e Poder mostra também o impacto da parentalidade na desigualdade de género no que diz respeito à divisão do trabalho.
Enquanto as mulheres sem filhos dedicam, em média, 66% do seu tempo a atividade remuneradas, entre as mulheres com filhos essa média encolhe para 64%.
Em contraste, entre os homens, passa-se o inverso. Os que não têm filhos dedicam 64% do tempo a trabalho remunerado, enquanto os que os têm gastam 68% das suas horas.
“Este resultado sugere que a maternidade pode reduzir a dedicação feminina ao trabalho remunerado, enquanto a paternidade não exerce o mesmo efeito“, realça o observatório.

Outro dado confirma a “sobrecarga feminina“: nos dias úteis, as mulheres com filhos gastam, em média, 22% do seu tempo em trabalho doméstico não remunerado. As que não têm filhos gastam 16%.
A média entre os homens? Somente 14% do tempo, e isso independentemente de terem ou não filhos.
“Quanto ao lazer, os homens dispõem de mais tempo em todos os cenários, reforçando a persistência da desigualdade na gestão do tempo”, explica o observatório.
“O acréscimo de responsabilidades [associado à parentalidade] recai de forma desproporcional sobre as mulheres, não porque disponham de mais tempo, mas porque continuam a ser vistas socialmente como as principais responsáveis por estes cuidados“, explica a investigador Maria João Coelho Guedes.
Espera‑se que sejam ‘boas’ mães, esposas, filhas e profissionais, sempre presentes e disponíveis. No entanto, essa expectativa tem um preço elevado, quer na carreira, quer na saúde física e mental.
“Espera‑se que sejam ‘boas’ mães, esposas, filhas e profissionais, sempre presentes e disponíveis. No entanto, essa expectativa tem um preço elevado, quer na carreira, quer na saúde física e mental“, alerta a especialista.
Maria João Coelho Guedes nota também que, apesar das melhorias em matéria de licenças parentais, “que são hoje partilháveis”, continua a ser, sobretudo, as mulheres que usufruem da licença e “enfrentam a correspondente interrupção da carreira, com atrasos na progressão profissional”.
“Por outro lado, é raro que os homens interrompam as suas carreiras para cuidar dos filhos ou de familiares, e muitas vezes nem a licença parental obrigatória é gozada na totalidade”, acrescenta a investigadora, que indica que, mesmo após a primeira infância, muitas mulheres acabam por procurar empregos com horários mais flexíveis ou em regime de part‑time, frequentemente em setores de menor remuneração.
Existe ainda a expectativa social de que, após o nascimento dos filhos, os homens demonstrem um compromisso profissional reforçado. A lógica tradicional permanece: a mulher cuida e o homem ganha o pão.
“Os homens, pelo contrário, tendem a manter, ou até a aumentar, as horas de trabalho, procurando compensar financeiramente o aumento das despesas. Existe ainda a expectativa social de que, após o nascimento dos filhos, os homens demonstrem um compromisso profissional reforçado. A lógica tradicional permanece: a mulher cuida e o homem ganha o pão“, atira.
“Assim, a parentalidade traduz‑se numa penalização evidente para as mães, mas muito menor (quando não inexistente) para os pais”, salienta a investigadora.
Como aliviar sobrecarga das mulheres?

Em reação aos dados já descritos, o Observatório Género, Trabalho e Poder deixa também algumas recomendações, frisando que é “essencial implementar medidas organizacionais que incentivem a partilha equilibrada das responsabilidades domésticas, tais como horários de trabalho mais flexíveis, promover modelos de trabalho híbrido ou remoto que favoreçam a partilha de tarefas domésticas, licenças parentais partilhadas e serviços de apoio à família acessíveis e de qualidade, tanto para crianças como para idosos e pessoas dependentes”.
Mas, atenção, mesmo o teletrabalho e a flexibilidade encerram riscos. Confrontada, a já mencionada investigadora fala mesmo numa faca de dois gumes.
“Por um lado, o trabalho híbrido e flexível facilita a conciliação entre a vida profissional e familiar, permitindo às mulheres uma gestão mais autónoma e ajustada do seu tempo. Contudo, por outro lado, estes modelos podem reproduzir, ou até intensificar, as desigualdades de género sempre que a presença física continue a ser interpretada como sinónimo de compromisso, empenho ou produtividade”, reconhece.
É essencial que a cultura de flexibilidade e o trabalho a partir de casa não se transformem em mais um elemento penalizador para as mulheres, aumentando ainda mais a carga que já recai sobre elas
Maria João Coelho Guedes alerta, por isso, que “é essencial que a cultura de flexibilidade e o trabalho a partir de casa não se transformem em mais um elemento penalizador para as mulheres, aumentando ainda mais a carga que já recai sobre elas”.
“A fronteira entre o trabalho e a vida pessoal torna-se facilmente difusa, levando muitas mulheres a desempenharem simultaneamente tarefas domésticas enquanto trabalham. Esta sobreposição constante de papéis aumenta o cansaço, exige maior esforço mental, concentração e capacidade de gestão, intensificando o stress e a sensação de estar ‘sempre presente’ em ambas as esferas”, detalha.
Por outro lado, o observatório recomenda o investimento em campanhas de sensibilização para desconstruir estereótipos de género associados ao trabalho doméstico, bem como reforçar e melhorar os conteúdos sobre igualdade de género nos currículos escolares desde a infância, “promovendo mudanças de mentalidade duradouras desde as primeiras etapas do desenvolvimento”.
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