Queda da prestação da casa chega a mais de 30% das famílias em fevereiro
Fevereiro divide famílias com crédito à habitação. Se uns celebram quedas na prestação (contratos com Euribor a 3 e 12 meses), outros enfrentam subidas (6 meses), e todos estão em alerta até ao verão.
A entrada em fevereiro reserva boas e más notícias para as famílias com crédito à habitação: enquanto os mutuários com contratos indexados às Euribor a 3 e 12 meses revistos no próximo mês vão sentir uma queda da prestação da casa, as famílias com contratos indexados à Euribor a 6 meses vão ter uma subida da prestação.
Segundo cálculos do ECO, esta divisão de tendências marca um momento singular no comportamento dos indexantes e reflete a persistência da Euribor a 6 meses acima da fasquia dos 2,1% ao longo de praticamente todo o mês de janeiro. A resistência deste prazo intermédio, um dos mais populares entre os portugueses, confirma que a trajetória de alívio que se verificou ao longo de grande parte de 2024 e 2025 nos contratos indexados à Euribor a 6 meses está definitivamente encerrada para este segmento de mutuários.
Porém, nos contratos indexados à Euribor a 3 e 12 meses, que agregam cerca de 30% do stock do crédito à habitação, segundos dados do Banco de Portugal, fevereiro ainda representará uma folga no orçamento dos mutuários com estes contratos e cujas taxas sejam revistas no próximo mês.
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Para um empréstimo de referência de 150 mil euros, a 30 anos e com um spread de 1%, indexado à Euribor a 6 meses, a revisão das taxas de juro em fevereiro vai traduzir-se num agravamento de 1,03% ou de 6,58 euros, para uma prestação de 643,47 euros a partir de 1 de fevereiro, face aos 636,89 euros que vigoraram nos últimos seis meses. Trata-se da terceira subida mensal consecutiva nos contratos indexados à Euribor a 6 meses, confirmando que este indexante rompeu definitivamente com o ciclo de alívio que beneficiou as famílias durante quase dois anos.
Esta subida justifica-se pelo comportamento da taxa no mercado interbancário durante o mês de janeiro. A Euribor a 6 meses continuou a desenhar uma tendência de subida este mês, mantendo-se acima da fasquia dos 2,1% desde o arranque do ano. O resultado é uma taxa média de 2,1361% até esta quinta-feira, que compara com uma taxa média de 2,0844% em agosto do ano passado (taxa que serviu de referência para o cálculo da prestação da casa ao longo dos últimos seis meses) e que, na altura, ainda refletia um movimento de queda.
No caso dos contratos indexados à Euribor a 3 meses revistos em fevereiro, a realidade será ligeiramente diferente. Utilizando o mesmo exemplo de um crédito de 150 mil euros, a 30 anos, com um spread de 1%, a revisão das taxas vai traduzir-se numa queda de 0,08% ou de 51 cêntimos da prestação do crédito, com a prestação a passar para 634,69 euros a partir de 1 de fevereiro, face aos 635,20 euros que pagou nos últimos três meses.
Os investidores não antecipam que as taxas Euribor baixem significativamente da barreira psicológica dos 2%. As taxas podem inclusive mesmo registar subidas mais expressivas a partir do verão.
Esta ligeira descida decorre do comportamento da Euribor a 3 meses ao longo de janeiro. A taxa manteve-se sempre abaixo da fasquia dos 2,04% durante o mês, apresentando uma taxa média de 2,0282% (que servirá de referência para o cálculo da prestação da casa nos próximos três meses) até quinta-feira, quando em novembro (mês que serviu de referência para o cálculo da prestação do crédito nos últimos três meses) tinha-se fixado em 2,0417%.
Apesar da descida, o alívio é praticamente residual e contrasta com os ganhos mais robustos verificados em meses anteriores. Trata-se da primeira correção mensal dos contratos indexados à Euribor a 3 meses desde setembro, mas a poupança é demasiado modesta para representar um verdadeiro alívio no orçamento familiar.
Para as famílias com contratos indexados à Euribor a 12 meses revistos em fevereiro, o cenário é de maior alívio. No caso do mesmo crédito de 150 mil euros a 30 anos, com um spread de 1%, a prestação da casa vai cair 3,43% para 652,48 euros, depois de nos últimos 12 meses ter-se fixado nos 675,68 euros. É a 22.ª revisão mensal consecutiva de descida nos contratos indexados à Euribor a 12 meses, confirmando que este prazo mais longo continua a refletir de forma mais consistente o efeito dos cortes nas taxas diretoras do Banco Central Europeu (BCE) realizados ao longo de 2024 e 2025.
Esta descida resulta do prolongamento da tendência de queda deste indexante iniciada em meados de dezembro. A Euribor a 12 meses atingiu uma taxa média de 2,2461% em janeiro até quinta-feira, quando há um ano (mês que serviu de referência para o cálculo da prestação do crédito nos últimos 12 meses) tinha-se fixado em 2,5252%.
Estabilização prolongada das taxas
Se o cenário de fevereiro já aponta para um agravamento numa grande fatia dos contratos de crédito à habitação, as perspetivas de médio prazo não são animadoras para quem aguardava um regresso a taxas muito mais baixas.
Segundo os contratos forward sobre as Euribor a 3 e 6 meses — vistos como uma antecipação pelo mercado do movimento futuro das taxas de juro –, é expectável que as taxas de juro se mantenham nos níveis atuais até ao verão para depois iniciarem uma tendência de subida.
Os investidores não antecipam que as taxas Euribor baixem significativamente da barreira psicológica dos 2%. Pelo contrário, a leitura atual do mercado sugere que as taxas podem mesmo registar subidas mais expressivas a partir do verão, colocando um ponto final definitivo no ciclo de alívio que as famílias portuguesas experienciaram durante os últimos dois anos.
Esta expectativa é reforçada pelas previsões de estabilidade da política monetária do BCE ao longo de 2026. Na última reunião de dezembro de 2025, o banco central manteve pela quarta vez consecutiva a taxa de juro de referência nos 2%, e a presidente Christine Lagarde reiterou que “continuamos num bom lugar” no que às taxas de juro diz respeito.
A próxima reunião de política monetária do BCE realiza-se a 4 e 5 de fevereiro, em Frankfurt, mas os analistas não antecipam alterações nas taxas diretoras. Cerca de 80% dos economistas contactados em dezembro para um inquérito da Reuters consideravam que as taxas devem permanecer inalteradas até meados deste ano, e 75% admitiam mesmo que não haverá mexidas durante todo o próximo ano.
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