Apagão: APREN alerta que mais centrais de arranque autónomo não garantem maior segurança

  • Lusa
  • 3 Fevereiro 2026

O "'black start' não é quanto mais melhor", uma vez que a existência de mais centrais com esta função "aumenta a complexidade" do processo de reposição de energia.

O presidente da Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN) alertou que o aumento do número de centrais com capacidade de arranque autónomo (‘black start’) pode tornar a reposição do sistema mais complexa e não garantir maior segurança após apagões.

Em audição no parlamento, no âmbito do Grupo de Trabalho sobre o apagão de 28 de abril 2025, questionado sobre as medidas técnicas adotadas após o colapso do sistema elétrico, Pedro Amaral Jorge defendeu que o “‘black start’ não é quanto mais melhor”, uma vez que a existência de mais centrais com esta função “aumenta a complexidade” do processo de reposição de energia. Segundo o responsável, recuperação do sistema exige uma sincronização rigorosa entre unidades de produção e redes, alertando para que “não é certo que mais ‘black start’ resolva o problema do sistema”. “Posso ter uma queda do sistema quando estou a tentar recuperar”, se o processo não for cuidadosamente coordenado, alertou.

Na sequência do incidente, foram ativadas centrais com capacidade autónoma de arranque – Castelo de Bode e Tapada do Outeiro. E a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) determinou à REN – Redes Energéticas Nacionais a contratação de mais duas centrais com essa capacidade — Baixo Sabor e Alqueva, estando já em funcionamento desde o início deste ano.

O presidente da APREN salientou ainda que Portugal conseguiu repor o sistema em cerca de 16 horas, abaixo das primeiras previsões de 72 horas. “Tivemos sorte” na recuperação, apesar das dificuldades nas comunicações e da incerteza inicial quanto ao comportamento da rede, acrescentou. No mesmo contexto, Pedro Amaral Jorge voltou a afastar a ideia de que soluções baseadas em produção inflexível aumentem a segurança do sistema, defendendo que a flexibilidade é um fator crítico.

A esse propósito, afirmou que a energia nuclear “é aquilo que é não flexível” e sublinhou que, apesar de Espanha dispor de capacidade nuclear, esta fonte energética “não fez nada para resolver esse problema” no dia do apagão. Segundo o responsável, a experiência ibérica demonstra que a resiliência do sistema elétrico depende mais da flexibilidade operacional, da gestão das redes e da coordenação entre operadores do que do aumento do número de centrais ou da aposta em tecnologias rígidas do ponto de vista da operação.

O grupo de peritos da Rede Europeia de Operadores de Transporte de Eletricidade (ENTSO-E) apontou como causa mais provável um aumento de tensão em cascata — observados no sul de Espanha na fase final do incidente — seguido de desligamentos súbitos de produção, sobretudo renovável, que conduziram à separação elétrica da Península Ibérica em relação ao sistema continental, com perda de sincronismo e colapso da frequência e tensão. O relatório final sobre o apagão elétrico será publicado neste primeiro trimestre de 2026.

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