Euronext mira empresas de Defesa para cotarem em bolsa

O grupo Euronext quer transformar a Defesa e o aeroespacial em novas histórias de bolsa, e Lisboa não quer ficar de fora, acenando com um crescimento de 33% do volume de negociação no último ano.

A Euronext quer aproveitar a nova onda de investimento em defesa e no setor aeroespacial na Europa para trazer mais empresas do setor para as suas bolsas, e Lisboa não quer ficar na margem.

Numa apresentação feita esta quinta-feira aos jornalistas, Isabel Ucha, CEO da Euronext Lisboa, disse que a praça portuguesa tem “estado a trabalhar com o ecossistema português para que possam beneficiar destas iniciativas”, num esforço para ligar o mercado de capitais nacional a uma prioridade estratégica que está a ganhar escala com o reforço dos orçamentos europeus.

Para esse efeito, o grupo Euronext desenhou uma estratégia assente em várias valências, como seja a criação de um rótulo europeu de obrigações de Defesa “que facilita a canalização de capital privado para projetos de Defesa e de Autonomia Geoestratégica na Europa” e a promoção do IPOready Defence, “o maior programa pré-IPO da Europa para apoiar empreendedores na compreensão e preparação para IPO e direcionado pela primeira vez ao setor Aeroespacial e Defesa.”

Esse movimento acontece num mercado onde a base de investidores em Portugal continua a ganhar peso, sobretudo do lado do retalho, com os pequenos investidores a representarem já 18% do volume de negociação do mercado de ações da Euronext Lisboa. “O que é relevante é haver diversidade. Uma taxa de 18% de participação do retalho não é demasiado elevado”, afirmou Isabel Ucha, comparando com Itália, onde “é de 25% e é um mercado dinâmico e eficiente”.

Apoiamos com grande ênfase as Contas de Poupança e Investimento, mas também todo o programa de literacia financeira, de literacia de investimento, de literacia de mercado, da Comissão Europeia.

Isabel Ucha

Presidente da Euronext Lisboa

Para a líder da praça portuguesa, a leitura é positiva. “Vimos como bastante positivo este peso dos pequenos investidores porque aumenta a liquidez, a dinâmica” do mercado, e a presença de ordens de menor dimensão tende a “facilitar” a execução no mercado, diz. “Haver ordens mais pequenas também permite concretizar mais negócios”, referiu Isabel Ucha, sublinhando a ideia de que a liquidez gerada pelo retalho pode, por arrasto, tornar a praça mais interessante para investidores profissionais.

A responsável pela Euronext Lisboa enquadrou ainda este tema com as iniciativas de poupança e capacitação do investidor, numa altura em que Bruxelas tem vindo a insistir na mobilização da poupança privada para financiar a economia europeia. “Apoiamos com grande ênfase as Contas de Poupança e Investimento, mas também todo o programa de literacia financeira, de literacia de investimento, de literacia de mercado, da Comissão Europeia”, referiu Isabel Ucha, apontando para uma agenda que combina incentivo ao investimento com maior conhecimento sobre produtos e riscos.

Recorde-se que, esta quarta-feira, Luís Laginha, presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), anunciou que irá apresentar junto do Governo uma proposta para tornar as Contas de Poupança e Investimento numa realidade.

No roteiro da Euronext para este ano mantém-se também a aposta em instrumentos como opções sobre ações portuguesas e futuros sobre taxas de juro que, historicamente, tiveram pouca expressão na praça portuguesa, mas onde o grupo quer acelerar, ainda que sem prometer volumes comparáveis aos maiores centros europeus.

Não temos uma tradição de participação dos investidores de retalho em derivados, mas começamos a ver alguma. Não esperamos atingir um volume igual ao da bolsa de Amesterdão que tem grande tradição, mas é nossa expectativa que aumente.

Isabel Ucha

CEO da Euronext Lisboa

Isabel Ucha destacou que as opções sobre os quatro títulos portugueses, que arrancaram depois do verão, “negociaram 3.500 contratos entre agosto e dezembro”, um sinal, segundo a CEO da Euronext Lisboa, de que há procura, ainda que embrionária.

Questionada diretamente sobre quem será o cliente destes produtos num mercado onde 18% é retalho (e onde muitos investidores tendem a evitar derivados), Isabel Ucha reconheceu limites e apontou para uma evolução gradual. “Em Portugal não temos uma tradição de participação dos investidores de retalho em derivados, mas começamos a ver alguma. Não esperamos atingir um volume igual ao da bolsa de Amesterdão que tem grande tradição, mas é nossa expectativa que aumente.”

Quanto a fatores específicos que podem influenciar o volume de negociação diário do mercado acionista da praça nacional, que aumentou 33% face a 2024 para 162 milhões de euros, Isabel Ucha admitiu que existe impacto do investimento associado aos vistos Gold, embora sem detalhar os números.

“Sabemos que os vistos Gold têm influência no mercado, mas não conseguimos ter uma percentagem”, por a Euronext Lisboa só ter os dados dos intermediários financeiros, refere. Contudo, Isabel Ucha salienta que estes investidores continuam a ter “algum relevo no investimento nas empresas cotadas” na praça nacional.

Num momento em que a Euronext quer “puxar” novas histórias — incluindo a Defesa — para os seus mercados, a evolução da base de investidores em Portugal e o alargamento (prudente) do leque de produtos surgem como peças centrais para dar mais profundidade à bolsa de Lisboa.

Porém, os dados mais recentes e o que se vislumbra no horizonte espelham grandes desafios para a equipa de Isabel Ucha. Não só é esperado que a bolsa nacional possa perder mais uma empresa com a saída em breve da Martifier, como três das quatro empresas que passaram a ser listadas no mercado secundário da Euronext — Euronext Access Lisbon – são Sociedades de Investimento e Gestão Imobiliária com muito pouco (ou mesmo nulo) volume de negociação.

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