Abstenção elevada na segunda volta pode favorecer Ventura e fragilizar Seguro
A segunda volta das presidenciais deverá registar menor participação devido ao mau tempo, ao desgaste eleitoral e à perceção de vitória anunciada de Seguro.
- A participação eleitoral na segunda volta das presidenciais em Portugal deverá descer, o que pode afetar a legitimidade do próximo Presidente.
- A primeira volta das eleições teve uma taxa de abstenção de 43,66%, a mais baixa em 20 anos, mas ainda inferior a eleições legislativas anteriores.
- Uma elevada abstenção poderá beneficiar André Ventura, enquanto a provável vitória de António José Seguro pode ser vista como menos legítima devido à desmobilização do eleitorado.
A participação eleitoral deverá cair na segunda volta das presidenciais, marcada para este domingo, e pode diminuir a legitimidade política do próximo Presidente da República, apesar de não colocar em causa o vencedor esperado, segundo anteciparam todas as sondagens. O consenso entre politólogos é claro: A perceção de vitória antecipada de António José Seguro, as depressões Kristin e Leonardo e o desgaste eleitoral criam um cenário de desmobilização. As câmaras de Alcácer do Sal, Arruda dos Vinhos e da Golegã já pediram para adiar as eleições para 15 de fevereiro, devido ao mau tempo.
António José Seguro liderou a primeira volta das eleições presidenciais em Portugal realizadas a 18 de janeiro, obtendo 31,12% dos votos, segundo os dados oficiais divulgados pela Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna e pela Comissão Nacional de Eleições (CNE). André Ventura ficou em segundo lugar com 23,52%, o que garante a ambos um lugar na segunda volta marcada para 8 de fevereiro.
Num dos escrutínios mais competitivos das últimas décadas — com 11 candidatos em competição — nenhum concorrente conseguiu a maioria absoluta necessária para evitar a segunda volta, refletindo a fragmentação crescente do eleitorado e a volatilidade do sistema político português. Luís Marques Mendes sofreu uma pesada derrota ao ficar em quinto lugar, atrás de Henrique Gouveia e Melo e de João Cotrim de Figueiredo, candidato apoiado pela Iniciativa Liberal (IL).
A primeira volta das eleições de 2026 foram as presidenciais com menor taxa de abstenção dos últimos 20 anos, com 43,66%, de acordo com os dados da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna. Ainda assim, estes valores não chegam para superar a abstenção das últimas legislativas, em 2024 e 2025, em que os valores se situaram nos 40,16% e 41,77%, respetivamente.
As últimas presidenciais que registaram valores tão baixos como os da primeira volta foram as de 2006, quando Aníbal Cavaco Silva conseguiu reunir 50,56% dos votos, contra os 20,72% de Manuel Alegre e os 14,34% de Mário Soares. Na altura, a abstenção foi de 38,48%, num universo de 8.835.237 eleitores inscritos.
Espera-se agora uma desmobilização na segunda volta das presidenciais. Bruno Ferreira Costa, professor de Ciência Política da Universidade da Beira Interior, considera que “há uma conjugação perfeita para termos um valor mais baixo de participação eleitoral”. O académico explica que “perante um cenário em que o resultado não é incerto, regista-se a possibilidade de desmobilização do eleitorado” e acrescenta que também “o facto de um número significativo de eleitores não se identificar com os dois candidatos pode resultar num afastamento do ato eleitoral”.
O politólogo sublinha ainda o peso do contexto externo: “a campanha passou para segundo plano em termos mediáticos e o tempo previsto pode desmobilizar parte significativa do eleitorado”.
A campanha passou para segundo plano em termos mediáticos e o tempo previsto pode desmobilizar parte significativa do eleitorado.
Também Sílvia Mangerona antecipa menos votantes. A politóloga refere que o “comboio de tempestades” e o estado de calamidade “retiram o foco dos cidadãos nas eleições” e podem até diminuir a participação “por contestação e revolta”. Soma-se a isso a expectativa de um desfecho previsível: “a perceção de vencedor anunciado pode desmotivar a ida às urnas e aumentar a abstenção”.
Marco Lisi, do departamento de Estudos Políticos da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa, identifica o mesmo padrão. “Haverá muitos eleitores que acham que já está decidido o resultado e não vale a pena votar”, afirma, acrescentando que parte dos votantes da primeira volta “não tem nenhum candidato que o represente” e pode ficar em casa. Os constrangimentos provocados pela tempestade serão “mais um obstáculo para as pessoas saírem de casa e irem votar”.
Haverá muitos eleitores que acham que já está decidido o resultado e não vale a pena votar.
André Azevedo Alves, professor da Universidade Católica Portuguesa, sublinha os obstáculos práticos: “Os efeitos do mau tempo podem certamente prejudicar a participação eleitoral, em especial nas zonas mais afetadas.”
Ventura beneficiado, Seguro penalizado
O impacto da abstenção deverá refletir-se sobretudo na margem de vitória. Bruno Ferreira Costa conclui que “um menor nível de participação pode acabar por beneficiar André Ventura” porque o seu eleitorado “assume-se como mais fiel e comprometido”, enquanto a transferência de votos favorece Seguro — e esses eleitores são os mais suscetíveis de desmobilizar.
Também André Azevedo Alves segue a mesma linha: “Ambos os candidatos perderão certamente votos com uma maior abstenção, mas considerando as taxas de rejeição dos dois candidatos e que o eleitorado potencial de Ventura será menor mas mais mobilizado do que o de Seguro, uma abstenção mais elevada tenderá a favorecer Ventura.”
Ambos os candidatos perderão certamente votos com uma maior abstenção, mas considerando as taxas de rejeição dos dois candidatos e que o eleitorado potencial de Ventura será menor mas mais mobilizado do que o de Seguro, uma abstenção mais elevada tenderá a favorecer Ventura.
Marco Lisi concorda: “vai beneficiar o candidato André Ventura”, já que os seus apoiantes “vão confirmar o voto”, ao passo que eleitores de esquerda radical ou de centro-direita moderado podem não votar ou optar por voto branco ou nulo. O resultado deverá traduzir-se numa “menor margem de distância entre os dois candidatos”.
Para Sílvia Mangerona, o efeito será sobretudo institucional: “A vitória de Seguro não deverá estar em causa, mas um cenário de abstenção elevada irá impactar mais na legitimidade do mandato”. E conclui: “uma maioria com participação acima dos 50% tem mais força do que uma vitória com baixa participação eleitoral”.
Brancos e nulos em alta
Quanto aos votos não válidos, a maioria dos politólogos admite crescimento, sobretudo dos votos em branco. Bruno Ferreira Costa fala num possível valor histórico: “Será uma forma do eleitorado demonstrar a insatisfação perante estas duas alternativas.” André Azevedo Alves também prevê uma subida: “É expectável que os votos nulos e brancos subam como expressão de insatisfação com as duas opções. Em especial no espaço de centro-direita, é bastante possível que haja um número significativo de eleitores que rejeitam simultaneamente Ventura e Seguro.”
A vitória de Seguro não deverá estar em causa, mas um cenário de abstenção elevada irá impactar mais na legitimidade do mandato.
Já Marco Lisi admite um aumento mais moderado: “É normal que os votos brancos possam aumentar, mas não deve ser muito significativo.”
Sílvia Mangerona distingue os significados: “Os votos nulos têm implícita uma mensagem de contestação ao sistema político; os votos em branco podem revelar ausência de um candidato desejado.”
O consenso entre especialistas é claro: a segunda volta deverá ter menor mobilização eleitoral, menor diferença entre candidatos e um vencedor politicamente condicionado pelo nível de participação.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Abstenção elevada na segunda volta pode favorecer Ventura e fragilizar Seguro
{{ noCommentsLabel }}