Presidenciais dão vitória à estabilidade, mas aquecem disputa à direita
António José Seguro não fará de Belém um contrapoder a São Bento e defenderá estabilidade. Ventura reclama liderança da direita.

“A primeira sondagem dava 6%”, lembrou António José Seguro a caminho da sede de campanha, já o resultado se avolumava. Antes ainda do Presidente-eleito bater o recorde de número de votos, Montenegro veio exigir “cooperação e colaboração”. Seguro disse no final da noite que não seria por ele que a legislatura não iria até ao fim. André Ventura poderá vir a desafiar a estabilidade. O líder do Chega agarrou-se à percentagem de votos superior à AD para reclamar a liderança da direita e dizer que “cedo ou tarde, Portugal vai mesmo mudar”.
Seguro conseguiu um resultado histórico. Os 3,48 milhões de votos amealhados com 20 freguesias por apurar — vão às urnas no próximo domingo — superam em 22.960 votos o resultado conseguido por Mário Soares na reeleição em 1991. Em percentagem, o fundador do PS mantém a supremacia, com 70,4%, contra 66,8% de Seguro.
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O candidato apoiado pelo PS conseguiu mais 1.727.589 de votos do que na primeira volta, quase duplicando a votação, conquistando muito eleitorado nos candidatos do centro e da direita que não passaram à segunda volta. Um sinal de que Seguro foi beneficiado pela rejeição da maioria do eleitorado em relação a André Ventura. Uma dinâmica diferente da que levou Soares ao seu resultado histórico de 1991, quando concorreu quase sem oposição, contra Basílio Horta, Carlos Carvalhas e Carlos Marques.
A votação expressiva dá ao novo presidente uma força política que terá impacto na relação entre São Bento e Belém. Luís Montenegro entrou cedo em cena para afirmar que espera “cooperação e colaboração” do novo Presidente, o primeiro socialista desde que Jorge Sampaio deixou o cargo em 2006.
“Estou certo, pelo que conheço de António José Seguro, que não será difícil estabelecermos uma relação de cooperação entre o Governo e a Presidência”, disse o primeiro-ministro, que espera agora “três anos e meio sem eleições nacionais” para permitir a execução do programa do Governo.
No discurso de vitória a partir das Caldas da Rainha, o Presidente-eleito correspondeu. “Abre-se um novo ciclo de três anos sem eleições nacionais”, disse Seguro, depois de prometer “lealdade e cooperação institucional” a Belém, reafirmando o que dissera na campanha. “Jamais serei um contrapoder, mas serei um presidente exigente“, afirmou. Essa exigência ficou patente logo no início do discurso, quando disse que não aceitaria burocracias que impeçam a chegada dos apoios às vítimas do mau tempo. “Os 2,5 mil milhões têm de chegar agora”.
O primeiro líder político a falar na noite eleitoral foi José Luís Carneiro, procurando capitalizar um resultado que as sondagens já pré-anunciavam que seria robusto. “É a vitória de um socialista de sempre, mas sobretudo de um Presidente de todos para todos”, disse o líder do PS, reconhecendo que a obra eleitoral de Seguro era uma conquista “pessoal”.
O candidato apoiado pelo PS reafirmou a “natureza independente” da sua candidatura, apesar não ir entregar o cartão do partido, que tem um “valor simbólico”. “Sou livre, vivo sem amarras”, disse.

“Cedo ou tarde, Portugal vai mesmo mudar”
André Ventura também cresceu, conquistando mais 402.738 votos do que na primeira volta, mas o ambiente na sede de campanha no Hotel Marriot foi entre o morno e o frio.
O líder do Chega agarrou-se à ‘vitória’ possível da noite: uma percentagem de votos superior à da Aliança Democrática nas legislativas de maio. Numa eleição presidencial disputada a dois, Ventura teve 33,18%, acima dos 31,8% da AD.
Com 1,73 milhões de votos, ficou, no entanto, aquém dos mais de dois milhões conseguidos pela coligação liderada por Luís Montenegro nas últimas legislativas. Ventura perdeu também os dois distritos onde tinha ganho na primeira volta: Madeira e Faro.
Superámos a percentagem da AD nas últimas legislativa, é justo dizer que não tendo vencido estas eleições presidenciais, os portugueses nos colocaram no cainho para governar Portugal.
“Mesmo não vencendo, este partido, esta força, teve o melhor resultado da sua história”, sublinhou o presidente do Chega no seu discurso. “Superámos a percentagem da AD nas últimas legislativas. É justo dizer que não tendo vencido estas eleições presidenciais, os portugueses nos colocaram no caminho para governar Portugal”.
André Ventura não esconde a vontade de chegar rápido ao poder. “Lideramos o espaço da direita em Portugal e vamos em breve liderar este país” e “mais mês ou menos mês, cedo ou tarde, Portugal vai mesmo mudar”, forma tiradas da noite. No caso de uma moção de censura, só mesmo o PS poderá travar eleições antecipadas.
A abstenção cresceu para 49,89%, ficando ligeiramente acima dos 47,74% da primeira volta, mas abaixo do que se chegou a temer devido ao impacto do mau tempo. Já os votos em branco tiveram uma subida expressiva para 3,17%, impulsionada por eleitores que não quiseram escolher nenhum dos candidatos.
Nada capaz de tirar força ao resultado conseguido por António José Seguro, que tomará posse a 9 de março. Até lá terá um gabinete próprio no Palácio de Queluz para preparar o arranque da sua Presidência, que terá um estilo diferente de Marcelo Rebelo de Sousa. “A palavra do Presidente terá peso e consequência. Não falarei por tudo e por nada”.
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