“Soberania digital tem várias camadas e talento é uma delas”

  • Lusa
  • 14:37

O líderl da área de tecnologia da KPMG Portugal afirma, em entrevista à Lusa, que a soberania digital tem várias camadas, sendo um talento uma delas. Rui Gonçalves aponta caminhos.

ECO Fast
  • A soberania digital é um tema central em Portugal, com Rui Gonçalves da KPMG a destacar a necessidade de um modelo para reter talento e garantir autonomia.
  • A Europa enfrenta desafios na soberania digital, especialmente na produção de chips e na capacidade de computação, onde Portugal ainda depende de soluções externas.
  • A criação de hubs de operações em Portugal pode aumentar a independência em projetos de IA, permitindo uma retenção de valor e talento local.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

A soberania digital tem várias camadas, sendo um talento uma delas, afirma responsável pela área de consultoria de tecnologia da KPMG, Rui Gonçalves, em entrevista à Lusa, defendendo que o país deve criar um modelo para o reter.

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O tema da soberania digital tem estado na ordem do dia, nomeadamente com a aceleração da inteligência artificial (IA), com a União Europeia a defender medidas para o seu reforço. “A soberania não é só ter um modelo“, passa também “pela capacidade de poder escolhê-los“, aponta Rui Gonçalves. Contudo, há outros níveis, “nomeadamente a gestão do controlo dos dados e a capacidade de operar sobre pressão política, que é onde se pode jogar o jogo da soberania europeia”, refere o responsável que integra o ‘Global AI Council’ [conselho global de IA] do grupo.

O jogo europeu pode-se ganhar na camada de aplicação, pode-se ganhar na camada de utilização dos dados setoriais, no ‘open source’ [código aberto] e, eventualmente, no ‘compute’ partilhado, ou seja, na capacidade de computação partilhada, mas dificilmente a curto prazo, na corrida dos mil milhões e triliões de GPU [unidades de processamento gráfico] que a Europa já perdeu e que se nós vamos então a nível mais capilar de países como Portugal (…) é utópico pensar nisso“, prossegue.

Para o gestor, o que faz sentido trabalhar é nas camadas da soberania. “A soberania tem várias camadas, tem os ‘chips’, tem a capacidade de computação, tem os modelos, tem os dados, tem as aplicações e tem o talento“, elenca. Por exemplo, “a Europa, e Portugal em concreto, nos chips e na capacidade de computação de fronteira, que é onde estão as dependências estruturais, dificilmente teremos alguma capacidade de ser soberanos e independentes“, salienta Rui Gonçalves.

A Europa tem a francesa Mistral, criada em 2023 e que desenvolve modelos de linguagem de grande escala (LLM) concorrentes do ChatGPT. A Mistral, que é aquilo que “mais se aproxima” do modelo de fronteira [mais avançado], “não está difundida, nem tem a capacidade que tem a Anthropic de se posicionar”, refere. Contudo, “há mecanismos que permitem minimizar o risco de dependência”, diz, recordando que o talento é uma camada de soberania.

Continuamos a formar talento de classe mundial, e muito do nosso talento sai de Portugal por causa do acesso ao primeiro ‘layer’ [camada] de soberania, que é a capacidade de computação e a possibilidade de trabalhar em projetos de fronteira“, enfatiza Rui Gonçalves.

Agora, “se nós trouxermos para Portugal os modelos de trabalho à distância mais tradicionais, que são aqueles de retenção de competências baseados apenas na extração do valor dessas competências, onde se utiliza uma obra barata, isso vai-nos tornar totalmente dependentes”, adverte.

Por exemplo, “veja o que está a acontecer na Índia com muitas empresas tecnológicas, agora com a massificação da capacidade de desenvolver software com IA”. Muitas destas empresas “estão a perder negócios” porque, no final do dia, “era só mão de obra barata”, diz.

Agora, “se nós conseguirmos fazer em Portugal um modelo diferente, transformando-o”, que é o que “nós na prática até estamos a fazer na KPMG e outras consultoras também”, tal seria diferente. “Não é só o ‘nearshores’ [estratégia em que uma empresa subcontrata num país próximo] de competências mais baratas, mas é a retenção de valor com base em delivery hubs [centro de operações], onde temos acesso a projetos globais a partir de Lisboa“, acrescenta.

Isso “permite-nos criar alguma autonomia” e um “maior nível de independência dos projetos internacionais, porque no final do dia muito do valor que está a ser criado é através das pessoas que estão em Portugal”, argumenta Rui Gonçalves. O centro de engenharia de duas das maiores iniciativas da KPMG Global relacionadas com IA “são em Portugal, estão na minha equipa”, conta.

Outro exemplo é que “o ‘design authority’ na nossa fábrica de IA global é uma equipa portuguesa, isso dá-nos algum nível de soberania”, sublinha. Depois, “há outras camadas da inteligência artificial, além da capacidade e dos GPU, que nos podem dar algum nível de autonomia e de independência“, como é o caso da ‘cloud’ [nuvem] soberana.

O Governo português lançou o tema, “onde já define alguns critérios muito interessantes para o caso de um momento para o outro perder acesso a modelos e a serviços de alguns ‘hyperscalers'”, [grandes empresas que fornecem serviços de ‘cloud’ e infraestrutura de dados em escala].

Segundo o responsável, a curto prazo as empresas têm de se preparar para situações como o que aconteceu com o Fable, da Anthropic, que foi temporariamente suspenso globalmente em junho.

Ou seja, a eventualidade de um dia para o outro ficarem sem acesso a um modelo de IA, aos seus dados que estão na ‘cloud’ e com isso serem impactadas nos seus negócios.

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