Depois dos carros, Bolt vai “vender” bilhetes de autocarro, comboio e metro em 2026

Diretor-geral da Bolt em Portugal rejeita, em entrevista ao ECO, que haja problemas de segurança no setor TVDE, mas adianta que gostaria que gravação (imagem e áudio) fosse obrigatória nas viagens.

Imagine que está em Lisboa e quer ir ao Porto. Primeiro, tem de encontrar forma de chegar à estação ferroviária. Depois, tem de comprar o bilhete de comboio. E, chegado à Invicta, tem ainda de encontrar maneira de chegar ao centro. Preferia que todos esses passos estivessem concentrados numa única app? É isso que a Bolt está a preparar, com os primeiros projetos-pilotos já previstos para o primeiro semestre de 2026, avança ao ECO o diretor-geral do braço português dessa plataforma.

Mário de Morais adianta que o primeiro piloto deverá passar por uma integração com a rede de autocarros ou comboios, sendo as cidades de Lisboa e Porto as “preferenciais” para esse teste. “Porque também podemos provar às pessoas que resulta”, salienta.

Por outro lado, o diretor-geral rejeita que haja problemas de segurança no setor TVDE, mas adianta que a Bolt, depois de ter investido 100 milhões de euros nessa área, gostaria de chegar a um “nível extra“: tornar obrigatória a gravação (áudio e imagem) em todas as viagens.

Já sobre a revisão da lei do setor, Mário de Morais deixa elogios à legislação atual, embora admita “pequenos ajustes”. Mas descarta o fim do teto da tarifa dinâmica. “Acho que se pode retirar, mas acho que o impacto real é muito pequeno“, afirma. “Não acho que por haver 70 mil pessoas num local se deva pôr dez vezes o preço“, acrescenta.

Esta é uma de duas partes da entrevista de Mário de Morais ao ECO. Na outra parte (que pode ler e ver aqui), o responsável reflete sobre o impacto da imigração no setor TVDE, mas também sobre o tempo médio de espera suportado pelos utilizadores que chamam um carro através desta plataforma.

Há uma procura cada vez maior. As pessoas habituaram-se a usar o TVDE como complemento aos transportes públicos, no seu dia-a-dia, nas saídas à noite, e quando não podem levar o carro.

A Bolt chegou a Portugal em 2018. Sete anos depois, o que é que mudou no mercado?

O mercado cresceu muito por dois fatores. Por um lado, há uma procura cada vez maior. As pessoas habituaram-se a usar o TVDE como complemento aos transportes públicos, no seu dia-a-dia, nas saídas à noite, e quando não podem levar o carro. Por outro lado, as cidades acomodaram esta oferta do TVDE muito bem e o mercado explodiu. O mercado está a crescer a dois dígitos desde 2018, tirando os anos da Covid-19. Temos um mercado que realmente serve a última milha, em todo o país. Passou de um mercado de nicho e de luxo de transporte privado para o que é suposto ser, que é um complemento à mobilidade.

Descreve um mercado em forte crescimento, mas quais os maiores desafios que a Bolt enfrenta hoje?

São, essencialmente, dois. Primeiro, fechar este ciclo de complementaridade com os transportes. Imagine que vai ter de ir daqui até ao Estádio das Antas, vai poder pedir tudo na aplicação, que lhe compra logo o bilhete de comboio ou de autocarro. Portanto, tudo numa aplicação de forma simples. Segundo, é conseguir fazer o caminho que as gerações mais jovens já fizeram, que é o carro privado tem muitas utilidades, mas vir para o meio das cidades não é uma delas. Esta evangelização da melhor forma de transporte e das cidades serem para as pessoas é o segundo grande desafio.

Mário de Morais, diretor-geral da Bolt Portugal, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Essa ideia de ter acesso a todos os transportes (incluindo públicos) numa mesma app é um projeto da Bolt? Têm isso planeado a que prazo?

É um projeto nosso, diria, para este ciclo político das câmaras municipais. Portanto, para os próximos quatro anos. Hoje, já temos micromobilidade, TVDE, e aluguer de carros para viagens mais longas. Já fazemos tudo o que é privado. No próximo ano, vamos começar a ter novidades sobre estas ligações a transportes massivos.

Começando com alguma área geográfica em específico? Lisboa, por exemplo, pela sua dimensão?

Lisboa e Porto serão sempre preferenciais, porque também podemos provar às pessoas que resulta, e é onde os transportes públicos também têm mais desenvolvimento. Queremos aliar-nos como complemento, e não como um substituto.

É uma lei de 2018, convém ser atualizada, mas a base da lei é muito boa. Aliás, é das melhores leis europeias.

Estava a ser pensada numa revisão da lei TVDE. Entretanto, Governo caiu e o processo ficou pelo caminho. Acha que essa revisão, agora com um novo Governo, deveria avançar?

Acho que há sempre ajustes a fazer. É uma lei de 2018, convém ser atualizada, mas a base da lei é muito boa. Aliás, é das melhores leis europeias, porque prevê as figuras que tem de prever – a plataforma, o operador e o motorista – de uma forma clara, prevê limites ao aumento de preços (a tarifa dinâmica), prevê todo um conjunto de questões de segurança e prevê seguros e requisitos legais. O setor em Portugal é bem regulado. Claro que há pequenos ajustes que podem trazer vantagens.

Por exemplo?

Pôr publicidade nos carros do TVDE. É um complemento ao rendimento, não faz mal a ninguém e até identifica. Ajuda muito. Também a questão da partilha de dados com as plataformas. Hoje, partilhamos os nossos dados com o IMT, porque queremos, mas isto não é obrigatório. Qualquer plataforma que estivesse no país poderia recusar partilhar. Não é correto e é muito fácil pôr na lei.

Falou na tarifa dinâmica. Hoje há um teto. Há partidos que defendem que seja retirado, o que a Uber apoia. E a Bolt?

Acho que se pode retirar, mas acho que o impacto real é muito pequeno. A tarifa dinâmica joga com a oferta e procura em pico. O teto hoje é dobrar o preço, e isso parece-me já um encargo acrescido para a mesma viagem. É rara a situação em que temos de aplicar uma tarifa dinâmica de duas vezes. Não acho que por haver 70 mil pessoas num local se deva pôr dez vezes o preço. É um bocado um contrassenso. Na realidade, caindo ou não o teto, não altera a dinâmica da plataforma.

O argumento é que, com preços maiores, mais motoristas seriam atraídos para dar resposta a esses grandes eventos?

Não vamos ter milhares de pessoas a tirarem uma formação para estarem disponíveis só para trabalhar algumas horas. Percebo a atração por discutir este tópico, mas o impacto real dele é muito diminuído.

Mário de Morais, diretor-geral da Bolt Portugal, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Falou na questão da segurança. Disse que já há uma boa base em termos de segurança. Mas ainda parece haver a ideia de que este setor tem alguns problemas a este nível. Rejeita-a?

Rejeito completamente. Os poucos casos que apareceram já há muitos meses nem eram portugueses, nem eram de agora. Também fizemos o nosso trabalho. Fizemos um investimento europeu de 100 milhões em segurança, em sensibilização e em ferramentas de produto. Hoje, se for numa viagem em Bolt, numa autoestrada à noite e o carro parar – que é um comportamento anormal da viagem – o cliente e o motorista vão receber uma chamada a perguntar se está tudo bem. Se ninguém responder, é feita uma chamada às autoridades. Investimos muito em garantir que as pessoas se sentem confortáveis. Há um nível extra a que gostávamos de chegar um dia, que é a gravação em viagem. Tem de vir dos reguladores essa imposição, porque são os operadores que têm os carros e têm de ter estas câmaras.

Gravação de imagem e som?

Imagem e som. Obrigatória em todas as viagens, algo que possamos ver efetivamente o que aconteceu, como dissuasor, não como resolução de problemas. Com todas estas funcionalidades que fomos lançando, dissuadiu-se e já não há casos de segurança. Não ouço falar de um caso destes há muitos, muitos meses, o que me deixa feliz. Não existem, porque quem tinha más intenções percebe que já há muitas ferramentas de controlo das aplicações e, portanto, não vai fazer ali esse tipo de comportamento.

Sobre a gravação de vídeo, havendo essa vontade da Bolt, o que é que está a travar, neste momento, esta ferramenta extra de segurança?

Estamos a trabalhar com a Comissão Nacional de Proteção de Dados, e tem de haver também uma concordância sobre o que seria a gravação, onde é que ficaria armazenada, quem é que era responsável, junto dos reguladores do setor, IMT e AMT. No limite, na legislação, poderia estar ou não esta opção. Acho que falta um entendimento de todas estas entidades, que são muitas, sobre o que é que deverá ser o futuro desta mobilidade partilhada.

Não tem um prazo em mente para esta nova ferramenta de segurança?

Não, não temos um prazo em mente. Temos muita vontade que, no decorrer de 2026, se possa chegar a alguma conclusão para, depois, se começar a implementar.

Vai ter uma um preço da viagem chave na mão. Saio daqui e quero apanhar um autocarro para o Porto, pago uma vez na aplicação e vou ter o carro aqui à porta, o meu bilhete de autocarro, por exemplo, e, depois, no Porto, do terminal de autocarros até ao meu destino.

Sobre 2026, que novidades têm aí na calha?

Depois da nossa grande vitória de 2025, que foi lançar nos Açores, é completar os últimos espaços, que são algumas ilhas nos Açores. E a tal integração que falava ao início com redes de transportes públicos.

Essa integração acontecerá logo no primeiro trimestre? Consegue avançar mais alguns detalhes?

Queremos que, no primeiro semestre, já existam alguns pilotos em relação a esta integração, e que possamos começar a testar não só nas cidades, mas na conexão entre cidades. Acho que é onde há muito valor acrescentado em ligar com transportes públicos.

Estão a pensar numa ligação a autocarros, comboios, …

Autocarros, comboios, metros.

E o primeiro piloto já terá todos esses meios?

O primeiro piloto deverá ser com autocarros ou comboios, que fazem essa ligação mais de longo curso. Hoje, o nosso sistema de transportes, a nível de massas, vai onde tem de ir. Precisamos de o complementar com este tipo de produtos.

De forma clara, um utilizador poderá comprar um bilhete de autocarro na Bolt como hoje pede um carro.

Como hoje pede um carro. Aliás, compra tudo. Vai ter uma chave na mão do preço da viagem, e da própria viagem. Saio daqui e quero apanhar um autocarro para o Porto, pago uma vez na aplicação e vou ter o carro aqui à porta, o meu bilhete de autocarro, por exemplo, e, depois, no Porto, do terminal de autocarros até ao meu destino.

Mário de Morais, diretor-geral da Bolt Portugal, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Para terminar, a Bolt sempre está a planear avançar com o IPO este ano?

Não temos novidades sobre a IPO ainda. Estamos a fazer o caminho que temos de fazer, que é sermos uma empresa que cresce mais dois dígitos sempre. Ser uma empresa sustentável, não só a nível ambiental, mas a nível financeiro. Não há novidades ainda sobre a IPO e vamos esperar por mais novidades. Há uma série de desafios, vamos ver como é que evoluem.

Em relação à Bolt em Portugal, julgo que, neste momento, têm 150 pessoas convosco. Há planos para recrutar mais no próximo ano e crescer a operação?

Temos 160 pessoas no escritório de Portugal e vamos continuar a crescer. As operações continuam a crescer. Vamos terminar o ano como líderes de mercado. Tudo faz com que precisemos de mais talento e Portugal, felizmente, tem muito talento que quer trabalhar neste tipo de empresas dinâmicas.

Tem um número em mente quanto ao recrutamento?

Por ano, contratamos várias dezenas de pessoas. É a tendência. Não temos um número fechado, porque é muito dinâmico, e isto são negócios que dependem muito do dinamismo, mas diria que vamos contratar algumas dezenas de pessoas em Portugal.

Veja a entrevista na íntegra abaixo:

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