“Saturação de Lisboa é gigantesca oportunidade para o aeroporto Sá Carneiro”

Sem querer “roubar nada” a Lisboa, presidente da Câmara do Porto antevê ganhos com “limitações” na Portela. Aposta da TAP na infraestrutura nortenha é “opção empresarial inteligente" dos novos donos.

Entusiasmado com a análise que o Governo e a ANA estão a fazer à expansão do aeroporto Francisco Sá Carneiro, o presidente da Câmara do Porto antecipa que a infraestrutura nortenha vai deixar de ser “uma espécie de aeroporto secundário face ao de Lisboa”. Pedro Duarte “não quer competir nem roubar nada” à capital, mas o Humberto Delgado tem “limitações” e “se o próprio tráfego do país está a crescer, é preciso encontrar alternativas”.

O anúncio feito pela TAP de novas rotas e de um investimento de 20 milhões num hub de manutenção com 200 empregos em Pedras Rubras é o mais recente sinal de que o Norte está a começar a fazer as pazes com a companhia aérea. Qualquer que seja o vencedor da privatização, o autarca portuense acredita que vá apostar no Sá Carneiro, uma vez que “mesmo do ponto de vista de negócio da companhia é uma boa decisão”.

Um dos temas que vai exigir negociação com o Estado Central e entendimentos entre os municípios da região Norte é a expansão do Aeroporto Francisco Sá Carneiro. Está já a olhar para esse dossiê?

Há um lado preventivo ou defensivo que é o de evitar os problemas que são conhecidos no Aeroporto de Lisboa porque, de facto, as taxas de crescimento têm sido muito significativas. Em 2025 atingiu 17 milhões de passageiros, o que era impensável há uns anos. Portanto, temos essa perspetiva de prevenir e antecipar problemas, o que aí vem. Mas há um outro lado mais positivo, se quisermos, que é a forma como podemos potenciar ainda mais o aeroporto Sá Carneiro como sendo um hub de todo o Noroeste Peninsular para poder, do ponto de vista económico, ser uma alavanca para toda a região.

De que forma?

Aí estamos a querer ser bastante ambiciosos. Tenho a obrigação de elogiar a abertura que encontrei no ministro Miguel Pinto Luz e no Governo para perceber a oportunidade que aqui temos. E também da concessionária e da própria TAP, que também está a olhar para o aeroporto de maneira diferente. Os sinais que temos tido nas últimas semanas, desde que assumi funções e agarrei o dossiê, são muito positivos. Julgo que no curto prazo vamos ter mais novidades a esse respeito porque o Governo já anunciou esta vontade de promover com a área metropolitana, com os diferentes parceiros e operadores, um grupo de trabalho para podermos concretizar um plano de expansão que será ambicioso para o aeroporto Sá Carneiro.

O Francisco Sá Carneiro pode ser visto como um aeroporto que está, pelo menos, ao nível do de Lisboa. E estou a medir as palavras.

Pode dar já alguns exemplos?

Temos o exemplo da TAP, que já anunciou quatro novas rotas e até ao verão vai anunciar ainda mais, e que terá um hub de manutenção no aeroporto do Porto que prevê 200 postos de trabalho altamente qualificados e vai trazer para esta região uma dinâmica diferente. Vai servir as aeronaves da TAP, mas também vender serviços a outras companhias e foi identificado que o Porto tinha estas características importantes e há procura para esse efeito. Este aeroporto pode ser, de facto, muitíssimo relevante nos próximos anos. Não podemos esquecer que há um aeroporto em Lisboa profundamente saturado e que até haver um novo há um hiato de anos ainda muito significativo.

Ora, esta é uma gigantesca oportunidade para o aeroporto Francisco Sá Carneiro. É por isso que provavelmente este aeroporto vai deixar de ser aquilo que infelizmente foi nos últimos anos: uma espécie de aeroporto secundário face ao de Lisboa. Mesmo em termos nacionais pode ser visto como um aeroporto que está, pelo menos, ao nível do de Lisboa. E estou a medir as palavras.

Em que aspeto?

Por exemplo, ao nível dos passageiros que alberga. Temos de ser ambiciosos e achar que vamos ter mais rotas, mais frequência de voos. Está já previsto pela própria ANA um modelo em que o número de voos máximo por hora, atualmente previsto, vai ser alargado através de algumas alterações técnicas, que não precisam necessariamente do alargamento físico da pista. Isso vai ser feito desde já e vamos poder ter cada vez mais voos, mais rotas a virem para o Porto e, portanto, termos uma dinâmica completamente diferente. Isto já no curto prazo, só com algumas melhorias técnicas.

Pedro Duarte, presidente da Câmara Municipal do Porto, em entrevista ao ECORicardo Castelo/ECO

O Norte está a começar a fazer as pazes com a TAP depois da intensa convulsão quando foram retiradas rotas daqui?

Perentoriamente, sim. Já tive mais do que uma reunião com a TAP, tenho trabalhado com eles de forma intensa, e sinto que há na atual administração da TAP uma mudança muito significativa do ponto de vista estratégico. Está a olhar para o Porto com a relevância que acho que deve olhar.

Mas a TAP está em processo de privatização. Acredita que os novos acionistas manterão essa estratégia e a aposta num segundo hub no Sá Carneiro?

Não tenho condições para adivinhar, mas espero que sim. E acho que a opção estratégica é uma opção inteligente do ponto de vista empresarial. Independentemente de outras lógicas que possam existir, é uma boa opção empresarial do ponto de vista estratégico para a TAP. Mesmo do ponto de vista de negócio da companhia é uma boa decisão e, portanto, espero que seja mantida.

Aposta da TAP no Porto é uma opção inteligente do ponto de vista empresarial para os novos acionistas.

Parte dessa aposta terá de vir do desvio de algum tráfego da TAP que está atualmente em Lisboa.

Eventualmente. Porque há limitações em Lisboa, não é? Mas não quero competir nem quero roubar nada a Lisboa. Nem isso seria, se calhar, muito racional nem lógico. Mas Lisboa tem limitações e se o próprio tráfego do país está a crescer, é preciso encontrar alternativas. Com o novo aeroporto de Lisboa, se calhar o cenário poderia ser outro, mas ainda estamos muito longe desse tempo.

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