A arte de conhecer o cliente e gerir as suas expectativas

Firmas de advogados de várias dimensões apostam cada vez numa abordagem mais personalizada aos clientes. Através de diferentes técnicas, não são só os clientes que beneficiam, mas também o negócio.

“Essencial” e “fundamental”. É assim que os escritórios de advogados, independentemente da sua dimensão, encaram os clientes e o conhecimento que devem ter dos mesmos. Através de diferentes técnicas e medidas, as firmas munem-se de ferramentas possibilitando um atendimento personalizado e até mais tecnológico aos clientes. No final, não são só os clientes que beneficiam, mas também o próprio negócio.

Na NLP, uma boutique com seis advogados, a relação advogado-cliente, “produtiva” e “duradoura”, tem de assentar em “confiança” e “respeito mútuos” e, como em qualquer relação, a proximidade demora tempo a conquistar: “é importante estar atento desde o início, fortalecer as bases e não descurar os sinais”.

“Do lado do advogado, isso é dificilmente possível sem um conhecimento profundo do cliente, sob várias perspetivas: mais genericamente, conhecendo o setor em que opera, a sua dimensão, o seu posicionamento e a sua personalidade institucional – a forma como deseja ser publicamente percecionado, as suas prioridades”, explica a sócia fundadora Sara Nazaré.

No que toca à operacionalização, a advogada considera ser fundamental conhecer bem os interlocutores, a sua organização e estrutura interna, as suas preferências e expectativas.

Também na Pares, um escritório com cerca de 55 advogados, a importância de conhecer os clientes prende-se, acima de tudo, com a personalização do serviço, a construção de confiança, a prevenção de riscos, a eficiência na resolução de problemas, a fidelização do cliente e o compliance e ética.

“Conhecer os clientes no setor da advocacia vai além de uma simples formalidade. É uma prática essencial para a entrega de um serviço jurídico de qualidade, ético e alinhado aos interesses de cada cliente”, sublinham os sócios Myriam Ouaki e Pedro Albano.

Já para um escritório de grande dimensão, como a Abreu Advogados que integra cerca de 375 colaboradores, os clientes também são fundamentais para o desenvolvimento do negócio. “Compreender o nosso cliente, as suas necessidades, desafios e preocupações é essencial para podermos apresentar um serviço mais completo, tailor-made e direcionado para o sucesso”, nota Guilherme Zuzarte, diretor de Business Development.

No escritório liderado por Inês Sequeira Mendes, através de equipas multidisciplinares e especializadas, apostam em conhecer “profundamente” o negócio e a especificidade do setor do cliente. “A vantagem de trabalhar num modelo de sociedade dá-nos a possibilidade de realizar um verdadeiro trabalho de equipa entre várias áreas, com uma partilha muito grande de conhecimento técnico, setorial e jurisdicional”, acrescenta.

“Um conhecimento profundo dos nossos clientes e das suas preocupações contribuem para o desenvolvimento profissional dos nossos advogados, garantindo que estão mais atentos para antecipar necessidades e criar soluções inovadoras, procurando, mais do que ser apenas um assistente jurídico, funcionarem como verdadeiros advisors e parceiros de negócios”, revela o diretor de Business Development.

As ferramentas para um melhor serviço

Da análise de perfil e contexto de cliente a departamentos especializados, a abordagem que os escritórios têm com os clientes de forma a compreender os seus desafios é diferente. Ainda assim, o fim é o mesmo: prestar o melhor serviço possível.

Na Pares tudo começa com a realização de reuniões iniciais “aprofundadas”, onde o escritório explora o histórico do cliente, as suas expectativas, o contexto pessoal e empresarial, os objetivos e até mesmo os valores que podem influenciar a decisão estratégica. “As informações obtidas nessas primeiras consultas ajudam-nos a personalizar a abordagem jurídica, escolhendo estratégias que não apenas atendam à legislação, mas também ao estilo e às necessidades do cliente”, explicam.

A firma faz ainda uma análise do perfil e do contexto do cliente, como a situação financeira, familiar, empresarial ou qualquer outro fator relevante. Na abordagem com o cliente, optam por comunicações e feedbacks constantes e ainda elaboram documentos personalizados e fazem uma análise de riscos e oportunidades.

Pares Advogados

“Oferecemos aconselhamento jurídico que leve em consideração o contexto global do cliente, incluindo a perspetiva pessoal, financeira e até social do mesmo. Isso significa que, além de apresentarmos soluções jurídicas tradicionais, frequentemente propomos opções alternativas, como mediação, arbitragem ou acordos extrajudiciais, sempre que possível”, revelam Myriam Ouaki e Pedro Albano

Na NLP o ponto de partida baseia-se num canal de comunicação “direto”, “franco” e “próximo”. “Grande parte da comunicação passa por fazer as perguntas certas, estar muito atento às respostas e organizar e trabalhar internamente a informação recolhida”, avança Sara Nazaré.

Assim, quando são abordados por potenciais clientes, a boutique organiza equipas de forma “eficiente”, consoante o tamanho, senioridade envolvida e às especiais competências dos advogados alocados. Após esta triagem, definem os procedimentos de trabalho, de organização e de reporte alinhados com o conhecimento que têm do cliente e dos seus desafios.

De forma a construir e manter uma forte relação com os clientes, a NLP aposta numa estratégia de genuidade e atenção. “Os clientes são pessoas, com as suas idiossincrasias como qualquer um. Alguns dão-se mais a conhecer pessoalmente, outros menos. Estando atentos, percebemos os seus limites e, sendo genuínos, conseguimos estabelecer uma ligação que chega por vezes a ultrapassar a de cariz estritamente profissional, partilhando alguns detalhes e episódios pessoais, o que sedimenta muito a relação”, sublinha a sócia fundadora.

Escritório da NLPHugo Amaral/ECO

Por outro lado, na Abreu Advogados a abordagem aos clientes é feita em colaboração com o departamento de Knowledge Management, cuja missão passa por apresentar um trabalho “rigoroso” e “inovador” na identificação de tendências e no acompanhamento e preparação de soluções e práticas que contribuam para responder aos desafios colocados pelos clientes.

“O Instituto de Conhecimento, centro de conhecimento incubado dentro da sociedade, é responsável pela promoção de variadas iniciativas internas e externas que contribuem para o desenvolvimento dos nossos profissionais, para além de promoverem a discussão de temáticas inovadoras e que irão marcar o panorama jurídico atual e futuro, como a tecnologia, sustentabilidade ou normativas europeias”, explica Guilherme Zuzarte.

Segundo o diretor de Business Development da Abreu, a firma aplica uma estratégia de “escuta ativa” e de “relação de proximidade com os clientes”, procurando assim compreender na totalidade o negócio, a estratégia, os desafios específicos ou preocupações do setor. “Com o apoio de todos os departamentos dentro da Abreu, estamos atentos aos novos enquadramentos regulatórios que afetam o mercado, assumindo a proatividade de informar os nossos clientes sobre quais são as oportunidades e riscos que poderão advir dos novos regulamentos”, acrescenta.

Da priorização de necessidades à gestão de expectativas

No que toca à identificação e priorização das necessidades dos clientes, os escritórios contactados pela Advocatus garantem: a solução é a comunicação e o escutar. “A chave é o comprometimento em ouvir e entender o cliente, além de manter flexibilidade e criatividade para adaptar as estratégias conforme necessário”, revelam os sócios da Pares.

Também Guilherme Zuzarte acredita que a identificação das necessidades dos clientes é um processo “contínuo” e que vai sendo aperfeiçoado ao longo do tempo. “É necessário termos sempre uma escuta ativa e um acompanhamento regular em todas as fases de contacto com o cliente, alinhando as suas expectativas e necessidades com o trabalho que é desenvolvido”, assume, sublinhando que esta responsabilidade não é apenas adstrita aos advogados, mas antes alargada a todas as equipas envolvidas com o cliente.

No que concerne às expectativas, também a comunicação é a “chave mestra”. “Se garantirmos uma comunicação eficaz e mantendo-nos atentos aos sinais – positivos ou negativos –, a satisfação dos clientes consegue ser em geral percecionada. De vez em quando, é bom fazer as perguntas necessárias diretamente e garantir o alinhamento das expectativas do cliente”, assume Sara Nazaré.

Instalações da Abreu AdvogadosDora António

Por exemplo, na Abreu Advogados, após cada etapa do processo ou do assunto, são feitos contactos “diretos” e “próximos” com os clientes, utilizando a “escuta ativa” para entender se o caminho escolhido está a corresponder ao esperado e se existem pontos de melhoria que podem desenvolver ao longo do processo.

“Mais do que apenas a recolha de dados e o resultado do processo, a satisfação dos nossos clientes passa por promover momentos de diálogo aberto e sincero ao longo de todo o serviço jurídico. Acreditamos profundamente que a relação com o nosso cliente é chave em todo o processo e, mais do que o conhecimento técnico e jurídico, é necessário o desenvolvimento de soft skills e uma proximidade às preocupações do cliente, de forma que as suas expectativas sejam atingidas ou mesmo ultrapassadas em todos os processos”, defende Guilherme Zuzarte

Tecnologia têm um papel fundamental

O uso de tecnologia e ferramentas de inteligência artificial (IA) está cada vez mais a enraizar-se nas empresas e as sociedades de advogados não são exceção. Também na arte de conhecer e servir os clientes as firmas começam a adotar novos mecanismos, mais digitais, para servir as necessidades e impulsionar o negócio.

“A tecnologia desempenha um papel cada vez mais importante na ajuda aos advogados para servir melhor os clientes. Com o avanço das ferramentas digitais e das inovações tecnológicas, os escritórios de advocacia podem otimizar processos, personalizar serviços e melhorar a experiência do cliente de diversas formas”, assumem os sócios da Pares Myriam Ouaki e Pedro Albano.

Entre as principais vantagens elencadas pelos advogados está a melhoria da comunicação e interação com os clientes, a melhoria da gestão de informações e dados do cliente, a melhoria da análise de dados para antecipação de necessidade, a automatização de tarefas repetitivas e o acesso a informações e jurisprudência em tempo real.

A Abreu Advogados, que foi a primeira firma em Portugal a aplicar, de forma transversal, a plataforma de inteligência artificial da Microsoft, o Copilot, lançou recentemente o A: Conhecimento. Esta ferramenta é um portal “inovador” de IA, ligado à base de conhecimento de Knowledge Management. O objetivo é melhorar a “eficiência” e proporcionar um acesso “mais fácil” e “rápido” às informações e aos recursos necessários para o trabalho diário da firma.

Apostamos de forma muito clara na capacitação interna e externa de temas inovadores e ligados à sustentabilidade, com o apoio do nosso Instituto de Conhecimento. A realização de iniciativas como o Lisbon, Law and Tech ou a Sustainability School são opções claras da importância que a tecnologia assume em toda a nossa atuação”, assume o diretor de Business Development.

À Advocatus, Guilherme Zuzarte assegura que a Abreu utiliza diariamente ferramentas de IA corporativas, sempre com a devida segurança e confidencialidade da informação. Assim, conseguem ajudar os advogados nas diversas tarefas, tais como pesquisa, traduções, revisão de textos e documentos e processamento de grandes quantidades de informação.

“A utilização destas novas plataformas é importante para acelerar a execução de determinadas tarefas e melhorar a eficiência do tempo despendido em diferentes projetos, permitindo reduzir o esforço e o custo associado a estas tarefas”, acrescenta.

Na NLP, uma boutique especializada em propriedade intelectual, o uso de tecnologia e ferramentas de IA também faz parte do seu dia-a-dia. “Queremos, ao mesmo tempo que servimos os nossos clientes, ajudar a promover o sistema de propriedade intelectual em Portugal. Por isso, a educação para a propriedade intelectual é um dos nossos pilares para 2025. Iremos lançar nos próximos meses um projeto desafiante que inclui o uso de ferramentas de inteligência artificial, com um parceiro muito alinhado com o nosso propósito e os nossos valores”, conclui.

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