Recursos minerais da Gronelândia -- mais do que o petróleo -- revelam potencial, mas existem muitas incógnitas quanto ao valor económico que se pode extrair desta ilha, que capta a atenção de Trump.
A Gronelândia é a maior ilha do mundo e encontra-se quase inteiramente coberta por gelo, devido à proximidade com o Ártico. Apesar de remoto, este território autónomo da Dinamarca tem ganho centralidade no mapa geopolítico, desde que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, demonstrou interesse em anexá-la ao seu território. Palavras que ganham peso ao serem proferidas pouco tempo depois de Washington capturar o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e tomar o controlo do país latino “indefinidamente”.
Além de argumentos relacionados com a localização “estratégica” da ilha e de uma eventual apropriação por parte da Rússia ou da China, uma das principais riquezas da ilha está abaixo da superfície: os depósitos minerais e de petróleo. É consensual que estes possuem um potencial económico relevante, mas ainda existem muitos pontos de interrogação à viabilidade da exploração. Conheça melhor o valor que a Gronelândia encerra.
“As Matérias-Primas Críticas (MPC), que são materiais com grande importância económica para a indústria e cujo abastecimento apresenta um elevado risco de interrupção, são essenciais para a sociedade, pois constituem elementos fundamentais para a nossa economia verde e digital”, começa por reconhecer o Relatório do Potencial de Recursos de Matérias-primas Críticas na Gronelândia, elaborado pelo investigador português na área de geologia económica, Diogo Rosa, a par de três outros investigadores, Per Kalvig, Henrik Stendal e Jakob Keiding, em 2023.
O território da Gronelândia “é único, no sentido em que a maior parte dos países já foram muito explorados. O que havia para encontrar, já foi encontrado, e os recursos minerais são esgotáveis. À medida que as zonas mais fáceis são exploradas, as pessoas têm que procurar sítios mais remotos. É o que está a acontecer”, explica Diogo Rosa, em declarações ao ECO/Capital Verde.
Há 14 anos que o geólogo português se dedica a recolher conhecimento sobre os recursos da Gronelândia, através de prospeção mineira, desde que trabalha para a entidade de investigação Serviços Geológicos da Dinamarca e Gronelândia (GEUS), a qual está debaixo da alçada do ministério da Energia, Clima e Utilities da Dinamarca.
Na última análise feita pela Comissão Europeia de quais são os materiais críticos para o Velho Continente, que data de 2023, foram identificados um total de 34. Estes são escolhidos de acordo com o respetivo risco de fornecimento e importância económica, pelo que a lista é dinâmica. A Gronelândia, de acordo com o relatório do GEUS, possui um “potencial elevado” para a extração oito destes materiais críticos.
O potencial engloba tanto os recursos conhecidos (depósitos ou jazigos minerais) como os recursos desconhecidos, que estão por descobrir. Enquanto os recursos conhecidos foram identificados e quantificados em campo, ou seja, foram estudados com sondagens e amostragem por forma serem definidas as suas dimensões, tonelagem e concentração de metal de interesse económico, os recursos desconhecidos são estimados tendo em conta o contexto geológico conhecido e a distribuição de determinada matéria-prima em terrenos análogos ou comparáveis, sobre os quais exista um maior conhecimento.

Entre as oito matérias-primas com potencial elevado que a Gronelândia possui, e que a Europa considera críticos, estão as terras raras leves e pesadas, que são utilizadas nos ecrãs dos telemóveis, computadores e televisões, mas também para os chamados imans permanentes, que integram motores de veículos elétricos e podem servir como componentes de turbinas eólicas. O tântalo também é útil ao fabrico de telemóveis. A grafite é igualmente usada em baterias de elétricos. Já o nióbio, de acordo com o investigador, integra a composição do aço. Os minerais do grupo da platina (MPG), além de servirem a indústria da joalharia, são “muito importantes” como catalisadores nos veículos a combustão.
Num levantamento feito pelo ECO/Capital Verde a partir do relatório, ilustrado na tabela acima, deteta-se que a Gronelândia possui quase 30 depósitos de matérias-primas críticas para a União Europeia, e a respetiva dimensão vai de “muito pequena” a “muito grande”. Destes, quase todos estão no estado inexplorado. No caso das terras raras, por exemplo, o relatório dá conta de cinco depósitos inexplorados de “muito grande” dimensão. No caso emblemático do lítio, é apontado um depósito “grande”.
O relatório indica que os recursos da Gronelândia podem ser comparados àqueles que existem em regiões mineiras bem estabelecidas, como a Austrália, o Canadá e a Escandinávia. Tanto o Canadá como a Escandinávia “eram territórios contíguos com a Gronelândia antes do Oceano Atlântico abrir” devido a movimentos tectónicos, e “sabemos que Canadá, Suécia, Finlândia, são países que têm um significativo potencial mineiro”, observa o investigador.
Em jeito de conclusão, o relatório do GEUS, considera que “a Gronelândia deve ser considerada como detendo ainda um potencial muito significativo para a existência de depósitos por descobrir”, e reconhece que a base de conhecimento para a maioria das matérias-primas críticas no território “permanece limitada, faltando dados e informações essenciais”, pelo que recomenda estudos subsequentes.
Materiais críticos, há; extraí-los é que não é tão fácil
Não há bela sem senão. Apesar do potencial, a atividade mineira na Gronelândia, até ao momento, ocorreu em áreas mais limitadas ou a uma escala “relativamente modesta”. “Tal deve-se em parte ao facto de a Gronelândia enfrentar desafios específicos, como as duras e remotas condições do Ártico, a falta de infraestruturas e os elevados custos operacionais, que têm, em certa medida, dificultado o desenvolvimento de projetos mineiros”, alertam os autores do relatório.
A Gronelândia é um país muito pouco povoado, portanto, tem muito pouca infraestrutura, tem poucas estradas, não tem ferrovia, descreve Rosa. O investigador tem visitado a ilha dinamarquesa todos os anos, mas durante o verão, a única altura do ano em que é possível fazer exploração, dado o recuo do gelo. “Eu quando vou lá [às zonas mineiras] não ando de carro, é de helicóptero, que custa 2 ou 3 mil euros por hora. A ordem de grandeza dos investimentos é logo outra”, ilustra. 80% do território da Gronelândia está coberto de gelo, e nele vivem apenas 56.600 habitantes, dos quais mais de 19.000 na capital, Nuuk.
Eu quando vou lá [às zonas mineiras] não ando de carro, é de helicóptero, que custa 2 ou 3 mil euros por hora. A ordem de grandeza dos investimentos é logo outra.
Olhando por exemplo ao caso das terras raras, Diogo Rosa explica que uma das grandes dificuldades é “separá-las umas das outras”, já que estamos a falar de 17 elementos químicos, mas a indústria precisa deles separados. E não existe, atualmente, um processo industrial que permita obter as terras raras a partir dos minerais que se encontram na ilha gelada. Na China, a composição dos minerais de onde se extraem as terras raras é outra, e os métodos usados servem aquela composição em específico. “É preciso desenvolver essa tecnologia. Obviamente, vai demorar tempo e vai custar dinheiro”, remata.
Num artigo de opinião no Financial Times, intitulado “A Gronelândia não é o tesouro mineiro que todos pensam”, Kathryn Goodenough, geóloga principal do British Geological Survey e especialista na geologia dos elementos de terras raras, é citada para indicar que, até ao momento, “nenhuma empresa foi bem-sucedida a abrir uma mina de terras raras na região”.
Além disso, alguns depósitos de terras raras podem estar associados a elementos radioativos, como o urânio, assinala Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista Zero. “Este tema tem sido central no debate político e regulatório na Gronelândia, incluindo decisões que dificultam ou bloqueiam projetos quando os níveis de urânio excedem determinados limiares, bem como disputas legais e controvérsia pública em torno de projetos emblemáticos”, relata.
A isto soma-se a importância económica e cultural de atividades como as pescas e, nalguns contextos, o turismo, que dependem fortemente da qualidade ambiental dos fiordes e zonas costeiras.
Todas estas condicionantes têm de ser pesadas quando uma empresa quer perceber a viabilidade económica de fazer uma exploração mineira neste território. Há que ter também em conta o que pede a economia global em cada momento, a rapidez com que se estão a esgotar os recursos noutras localizações, assim como o facto de uma mina demorar entre 10 a 20 anos a abrir, acrescenta o geólogo. O relatório, sublinha Diogo Rosa, identifica os recursos, não as reservas: as reservas são recursos, mas dos quais se sabe que se pode extrair lucro. “É preciso ainda fazer esse trabalho”.
No final de contas, “não há uma quantificação económica global fiável”, porque a maioria dos depósitos não está em fase de exploração, não existem reservas comprovadas nem estudos completos de viabilidade económica, assinala Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa.
Gronelândia aberta à exploração mineira e com esperança na viabilidade económica
“A Gronelândia está aberta a negócios e à indústria extrativa. Qualquer empresa pode pedir uma licença”, seja dinamarquesa ou dos Estados Unidos. Aliás, “a Gronelândia não tem que ser território norte-americano, ou estadunidense, para os americanos poderem lá investir”, sublinha o investigador português. Na visão do geólogo, “o governo tem apostado consistentemente na indústria”, e é nesse pressuposto que Diogo Rosa, assim como os colegas do GEUS, trabalham: “Fazemos os nossos estudos para melhorar o conhecimento e diminuir o risco das empresas mineiras, porque as empresas mineiras não vão para um sítio se não houver mapas geológicos, se não houver dados”.
De acordo com a Reuters, a Gronelândia emitiu, em dezembro passado, uma licença de exploração por 30 anos à GreenRoc Mining, para explorar o depósito de grafite de Amitsoq. Foi a terceira licença concedida nesse ano. “A licença de exploração é o resultado de esforços políticos focados em tornar a Gronelândia mais atrativa para investimentos responsáveis, tendo simultaneamente em conta, de forma séria, as preocupações das pessoas e do ambiente”, afirmou, na altura, a ministra dos Recursos Minerais, Naaja Nathanielsen.
Os depósitos da Gronelândia poderão tornar-se economicamente mais viáveis no futuro.
Ainda assim, o relatório conclui que “as condições desafiantes não têm necessariamente de constituir um fator limitativo para as operações mineiras na Gronelândia, uma vez que as receitas de projetos bem fundamentados deverão ser mais do que suficientes para compensar estes custos relativamente mais elevados”. Isto, tendo também em conta que a elevada procura futura por estas matérias-primas críticas “muito provavelmente conduzirá a um aumento dos preços”. Assim, “os depósitos da Gronelândia poderão tornar-se economicamente mais viáveis no futuro”.
Barris de petróleo há poucos e viabilidade económica é incógnita
Aquando da captura de Maduro e da tomada de controlo da Venezuela, Donald Trump assumiu que os Estados Unidos iriam tomar conta da exploração naquele território, através das empresas norte-americanas. Por seu lado, o território gronelandês também encerra o seu potencial de ouro negro. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), num relatório que reúne dados relativos a 2023, estima que o subsolo do nordeste da Gronelândia poderá conter 7.8 billion barris de petróleo e cerca de 2,58 biliões de metros cúbicos de gás na Província da Gronelândia Ocidental e Leste do Canadá.
Olhando às quantidades de ‘ouro negro’, trata-se de uma quantidade “reduzida”, representando menos de 3% das reservas da Venezuela ou da Arábia Saudita, sendo que o país latino tem as maiores reservas a nível mundial, afirma o economista sénior do Banco Carregosa, Paulo Rosa. Realça que são identificados “apenas recursos potenciais, sem viabilidade económica demonstrada”.
Os Estados Unidos, em oposição, dispõem de reservas comprovadas à volta dos 45 a 50 mil milhões de barris e são o maior produtor mundial de petróleo, com uma produção de crude próxima dos 14 milhões de barris por dia. Se considerada a produção total de líquidos petrolíferos (petróleo bruto, condensados e líquidos de gás natural), a produção dos EUA é de cerca de 20 milhões de barris por dia, reforçando a significativa diferença face à Gronelândia, evidencia o Banco Carregosa.
Se o petróleo gronelandês é “leve ou pesado”, “doce ou ácido”, também não se sabe – as características são incertas, indica Paulo Rosa, o que “constitui um fator adicional de risco económico”. Petróleos mais pesados ou com maior teor de enxofre (essencialmente mais ácidos) implicam custos acrescidos de produção, transporte e refinação.
Mesmo no cenário mais otimista, o potencial petrolífero da Gronelândia é claramente marginal quando comparado com países de referência, tanto em termos de reservas como de produção.
Considerando as estimativas mais otimistas, e um preço de 60 dólares por barril de petróleo, o valor bruto teórico seria na ordem dos 480 mil milhões de dólares, o que “não incorpora os custos significativamente elevados de exploração de petróleo no ártico”, calcula o economista do Banco Carregosa.
Em 2021, a Reuters contava que a Gronelândia decidiu suspender a estratégia de prospeção de petróleo e deixar de conceder licenças de exploração. A exploração petrolífera na ilha decorria desde a década de 1970, envolvendo grandes empresas como a Shell, a Chevron, a ExxonMobil e a Eni, mas a maioria das perfurações não teve sucesso, recorda a agência de notícias britânica. Nesse ano, restavam apenas quatro licenças ativas de exploração e produção, as quais expiravam em 2027 e 2028, mas o território chegou a ter 20 licenças ativas, entre 2002 e 2014. Na altura da suspensão, a ministra da tutela justificou-a considerando que as consequências ambientais da exploração e extração de petróleo “são demasiado graves”, mas também por falta de viabilidade económica.
O presidente da associação ambientalista Zero, Francisco Ferreira, realça que a exploração de recursos naturais considerados estratégicos como o petróleo e determinadas matérias-primas críticas tende a concentrar custos ambientais e sociais nos territórios de extração, enquanto os benefícios económicos e o consumo se distribuem por cadeias globais.
Ambientalmente, a exploração de hidrocarbonetos no Ártico envolve riscos elevados, desde o gelo marinho à inexistência de infraestrutura de resposta rápida em caso de derrame de petróleo. “No frágil ecossistema da Gronelândia, onde a existência de vida não é fácil, um eventual derrame teria impactos ambientais duradouros, difíceis de mitigar eficazmente, tendo em conta que o ciclo de recuperação da vida seria muito mais longo”, pontua Paulo Rosa, para depois concluir: “Mesmo no cenário mais otimista, o potencial petrolífero da Gronelândia é claramente marginal quando comparado com países de referência, tanto em termos de reservas como de produção”.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Gronelândia. Uma ilha inexplorada com potencial económico difícil de ‘descongelar’
{{ noCommentsLabel }}