Poupar e tentar pôr a render. É o que as famílias estão a fazer com o dinheiro na pandemia

As famílias aproveitaram a pandemia para pôr a render os bens que tinham em casa e colmatar a perda de rendimentos. O medo da crise levou a amealhar esse dinheiro ou a arriscar nos investimentos.

A pandemia afetou os empregos e os rendimentos e deixou as famílias com menos dinheiro. Com medo de que o pior ainda esteja para vir, os portugueses estão a poupar como há muito não faziam, mas também a procurar formas de fazer mais dinheiro: as penhoras e vendas em segunda mão já estão em níveis pré-pandemia, enquanto a bolsa tem sido uma forma de tentar pôr o dinheiro a render. E há ainda quem tente a sorte nas apostas.

“Claro que a situação laboral veio trazer mais dificuldades às pessoas. O desemprego, as perdas de rendimento por lay-off e outras são mais que motivos para que cada um se sinta com constrangimentos e recorra a empréstimos”, diz Maria Luísa Borges, administradora da Companhia União de Crédito Popular (CUCP) e vice-presidente da Associação de Prestamistas de Portugal (APP).

Tal como aconteceu com todos os outros setores, também os prestamistas foram obrigados a parar. A atividade de empréstimos assente no penhor teve uma perda de 50% no mês de abril, tanto em valor como em número de penhores, quando comparada com o 1.º trimestre de 2020. Já as vendas na ourivesaria — ouro, joias e prata em segunda mão — não existiram desde a segunda quinzena de março até ao fim de abril.

Com o desconfinamento, a partir de maio, a atividade foi retomando o curso normal e os penhores começaram a fazer a retoma. “Mas, sabe, a população ainda não percebeu que recorrer aos prestamistas é uma segurança. Os bens são sempre dos clientes enquanto pagam os juros”, defende Maria Luísa Borges, clarificando que a taxa de juro em vigor até final do ano é de 1,112% ao mês (mais 0,04% de imposto de selo).

Com a subida do ouro, a apetência pela compra de ouro é abrupta. E, proliferam as casas de compra onde são pagos preços grama baixos. Num momento de aflição as pessoas ficam depenadas.

Maria Luísa Borges

Associação de Prestamistas de Portugal (APP)

Não só pela conotação associada às lojas de penhores, mas também pelo apelo da valorização nos mercados internacionais, o ouro foi o metal precioso que os portugueses procuraram nas gavetas de casa para conseguirem aumentar a liquidez. “A ourivesaria começou a dar sinais de melhoria”, aponta a responsável do setor. Alerta, no entanto, para os diferentes preços praticados, nalguns casos sem correspondência ao valor do grama.

“Com a subida do ouro, a apetência pela compra de ouro é abrupta. E proliferam as casas de compra onde são pagos preços por grama baixos. Num momento de aflição, as pessoas ficam depenadas“, remata. Concorrência à parte, a vice-presidente da APP lembra ainda que, mesmo com o impulso dado pelo ouro à recuperação das casas de penhores, o negócio ainda está a ser afetado pela pandemia. “Na atividade prestamista, o online ainda não existe”.

Vendas online já recuperaram para níveis pré-Covid

Se as lojas de penhores tiveram de fechar, quem precisava de fazer vender bens para conseguir dinheiro virou-se para as opções online. “Nas primeiras semanas de confinamento, o número de transações baixou drasticamente. Em algumas categorias, como a de ‘empregos’, mais de 70%”, conta Sebastiaan Lemmens, CEO do OLX Portugal.

“No entanto, duas semanas depois, os números começaram a aumentar novamente e, a meio de abril, chegámos a atingir valores nunca vistos até então (mesmo considerando a realidade pré-Covid)”. O recorde foi batido em termos de clientes a vender e a comprar artigos em abril e, no mês seguinte, as receitas da empresa já tinham recuperado a níveis pré-pandemia. É que além dos utilizadores que procuraram rentabilizar bens para colmatar a perda de rendimentos, houve quem procurasse opções em segunda mão (ou seja, mais baratas) para suprir novas necessidades relacionadas com o teletrabalho e telescola ou para se entreterem enquanto estavam fechadas em casa.

O perfil dos nossos clientes não se alterou particularmente. Em termos de produtos, sentimos que tivemos um aumento sazonal acima do esperado em alguns artigos: casas com piscina, piscinas, bicicletas, autocaravanas, PS4, etc..

Sebastiaan Lemmens

OLX Portugal

O crescimento homólogo é mesmo superior a 10% em segmentos como “Bens”, “Imóveis” e “Carros” que estão acima dos valores de 2019. Do lado quem compra, “o perfil dos nossos clientes não se alterou particularmente”, diz Lemmens, sublinhando que “em termos de produtos, sentimos que tivemos um aumento sazonal acima do esperado em alguns artigos: casas com piscina, piscinas, bicicletas, autocaravanas, PS4, etc.”.

Já do lado de quem vende, houve uma adaptação ao confinamento. “Neste período tornou-se muito claro para nós uma transição do negócio offline para o online no OLX, com vendas porta a porta sem sair de casa, e é algo em que estamos a investir diariamente para que continue a crescer no futuro”, acrescenta.

No CustoJusto.pt, o número de utilizadores, de anúncios e volume de vendas também já recuperou para níveis comparáveis aos do ano passado, após uma quebra de 50% nos principais indicadores no primeiro mês do confinamento. A recuperação começou depois da Páscoa, com o contributo de categorias como “‘Informática’, em que assistimos a uma procura fora do normal na semana a seguir à Páscoa”, mas também de “Desporto e Lazer” (bicicletas, livros, etc.) e “Animais”.

Em maio e junho, já estávamos acima de 2019, com o contributo destas categorias. As categorias mais importantes, como ‘Imobiliário’ e ‘Veículos’, demoraram mais tempo a recuperar“, revela o diretor-geral Pedro Furtado. “Só depois do período de emergência é que assistimos a uma recuperação destas categorias, ou seja, a partir de meados de maio. No ‘Imobiliário’, por exemplo, esse mês já foi o melhor do ano em termos de visitas, mas com um crescimento residual”.

As medidas de confinamento impostas para conter o vírus proibiram as famílias de consumir grande parte do que é a sua despesa normal, levando a poupanças forçadas. O súbito surto causou incerteza quanto aos rendimentos futuros.

Maarten Dossche e Stylianos Zlatanos

Banco Central Europeu

Há sete anos que não se poupava tanto

As várias plataformas revelam que a procura se focou essencialmente em bens que as famílias usaram para melhorar a vivência durante a pandemia. Apesar dessa tendência, o consumo privado afundou nos últimos meses, o que — associado a uma quebra nas despesas habituais dos agregados — levou a “poupanças forçadas”, como explica uma análise recente do Banco Central Europeu (BCE). Em Portugal, a taxa de poupança aumentou para 10,6% no segundo trimestre do ano (mais 3,1 pontos percentuais face ao primeiro trimestre), para o valor mais elevado em sete anos.

“O aumento na poupança das famílias é potencialmente explicado por dois fatores proeminentes. Primeiro, as medidas de confinamento impostas para conter o vírus proibiram as famílias de consumir grande parte do que é a sua despesa normal, levando a poupanças forçadas ou, por outras palavras, involuntárias. Segundo, o súbito surto causou incerteza quanto aos rendimentos futuros e, em particular, ao risco de aumento do desemprego, levam a poupanças preventivas”, indica o BCE.

E onde está esse dinheiro? Primeiro, o dinheiro à ordem nas contas bancárias disparou desde o início da pandemia, aproximando-se de 71.103 milhões de euros no final de julho (mais 8.400 milhões do que no fim do ano passado). Mas nem só de depósitos se fazem as aplicações dos portugueses: tanto do lado mais conservador como mais arriscado, os portugueses estão também a investir mais.

As aplicações em certificados de Aforro e em certificados do Tesouro têm vindo a aumentar nos últimos meses. Só em agosto, os aforradores em Portugal aplicaram 128 milhões de euros nestes dois tipos de produtos de investimento do Estado. No caso dos certificados do Tesouro, o montante subiu mesmo para o valor mais elevado de sempre e, no dos certificado de Aforro, para máximos de 2016.

Enquanto as pessoas estiveram confinadas, tiveram mais tempo. As apostas desportivas pararam, mas a bolsa não fechou. Quem achava que o mercado estava demasiado caro, viu agora uma oportunidade de entrar.

Steven Santos

BiG – Banco de Investimento Global

Além de produtores mais conservadores de dívida pública, também a bolsa captou mais investidores. Quando o surto se espalhou além da Ásia, ainda em março, as bolsas mundiais perderam 11 biliões de euros de capitalização devido à pior queda mensal desde a crise do subprime.

Após o sell-off, os investidores aproveitaram as ações a desconto para investir (ou aumentar exposições) e tentar recuperar das perdas: as negociações em day-trading na Euronext Lisbon dispararam 223,8%. Apesar da forte procura, a bolsa nacional continua negativa no total do ano, tal como a generalidade das praças europeias, enquanto Wall Street já recuperou até níveis pré-pandemia.

“Quem achava que o mercado estava demasiado caro, viu uma oportunidade de entrar. Além disso, há a consciencialização que nada paga retornos portanto, para ter rendimento, tem de haver maior exposição ao risco”, explica Steven Santos, head of trading platforms and brokerage do BiG – Banco de Investimento Global sobre o reforço do investimento em ações desde o início da pandemia. Enquanto as pessoas estiveram confinadas, tiveram mais tempo. As apostas desportivas pararam, mas a bolsa não fechou“.

Efetivamente, o cancelamento de praticamente todos os eventos desportivos levou o mercado de apostas desportivas em Portugal a sofrer uma quebra de 80%. Ainda assim, muitos encontraram opções para tentar a sorte: foram apostados 1.109,9 milhões de euros nos primeiros três meses de 2020, principalmente em jogos de fortuna e azar. Este é o valor mais elevado de sempre, representando uma subida de 50% face ao mesmo período do ano passado.

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