Uma conferência, muito mais do que uma conferência. O que é que o Web Summit tem?

Quatro anos depois da estreia em Lisboa, o Web Summit prepara a primeira de dez edições garantidas na cidade de Lisboa. Segredos do sucesso do maior evento de tecnologia e empreendedorismo do mundo.

Oito de novembro de 2018. Poucos minutos antes de Paddy Cosgrave se despedir de Lisboa – “até para o ano” – já caía nos emails dos quase 70 mil assistentes o convite para comprarem bilhete para a edição de 2019, 365 dias antes do evento. Durante um ano, o contacto ali começado torna-se uma constante: bilhetes early bird, oradores-estrela, cabeças de cartaz, guia para não perder pitada. Contagem decrescente para o evento, mais nomes de mulheres, nomes de empreendedores de fintech, robôs.

Notícias, notícias e mais notícias: entre os dias que antecederam o evento e o último dia do Web Summit, em 2018, a conferência atraiu a atenção de órgãos de comunicação de mais de 110 países e levou à publicação de 8.195 artigos sobre o assunto, de acordo com a Cision. Os Estados Unidos foram responsáveis por cerca de um terço de todas as peças – 2.769 artigos – sendo o país estrangeiro que deu mais destaque ao que se passava em Lisboa durante esse período.

Criado em 2009, em Dublin, para uma plateia que reuniu cerca de quatro centenas de pessoas, o evento foi crescendo em dimensão e em notoriedade. Pelo caminho alargou a equipa, a área de influência, os nomes dos patrocinadores e dos cabeças de cartaz e, claro, o país onde se realiza. Em 2015, a organização anunciou a mudança para Lisboa, um acordo que foi assinado por três anos – com mais dois de opção – mas que, em 2018, foi prolongado por mais uma década. Ficar com o Web Summit em Lisboa até 2028 foi, pois, tanto um exercício de paciência e resiliência na negociação como um investimento para a cidade e para todo o país.

“Ganhámos!”. Foi assim que Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa, anunciou oficialmente a 3 de outubro de 2018 que o Web Summit ficava em Lisboa. Depois de meses de negociações, Lisboa venceu a concorrência, que contava com cidades como Madrid, Berlim, Valência, Londres e Paris. Com a equipa de Paddy Cosgrave, Portugal acordou pagar 11 milhões de euros por ano para manter o evento em Portugal. O valor do investimento é repartido entre o Fundo de Desenvolvimento Turístico lisboeta e o Ministério da Economia. Além do valor de investimento anual, a autarquia lisboeta anunciou também investir no complexo da FIL, primeiro de “forma temporária e depois definitiva”, adiantou Medina. A ideia era que o espaço de exposição da FIL ficasse com o dobro da capacidade expositora e, terá sido esta alteração que ajudou a organização a decidir por Portugal, em detrimento de cidades como Madrid, Valência e Londres. “Este investimento vai permitir fazer crescer o Web Summit para 100 mil participantes, ou mais”, dizia Fernando Medina na altura.

Este investimento vai permitir fazer crescer o Web Summit para 100 mil participantes, ou mais.

Fernando Medina

Presidente da câmara de Lisboa

É também esta ampliação que tem feito correr mais tinta durante os últimos meses. Em maio, o jornal Público noticiava que a câmara de Lisboa teria de pagar uma indemnização à Connected Intelligent Limited, empresa dona do Web Summit, se o recinto da Feira Internacional de Lisboa (FIL) não tivesse, até outubro deste ano, mais 13 mil metros quadrados (que ampliariam aos atuais 41 metros quadrados) do que na edição do ano passado. A publicação citava o acordo, assinado entre o Estado, a câmara de Lisboa, o Turismo de Portugal, a Associação de Turismo de Lisboa, a Aicep, o Iapmei e a empresa irlandesa, mas não referia valores da indemnização.

Entretanto foi noticiado pela agência Lusa que a autarquia lisboeta iria discutir numa reunião que decorreu a 17 de outubro à porta fechada, alterações ao acordo para a realização da Web Summit, entre as quais o pagamento de mais 4,7 milhões de euros e o adiamento da expansão da FIL para 2022. Este acordo “prevê a expansão da área expositiva para 90 mil metros quadrados, no total, e um faseamento que permita o crescimento do evento enquanto isto não ocorrer”, tendo sido agora acordado com a organização “uma adenda ao contrato inicial que prevê, uma vez que ainda decorrem negociações para a expansão”, um adiamento desta expansão, inicialmente prevista para 2021, para 2022, explica fonte oficial da Câmara de Lisboa numa resposta escrita enviada à Lusa.

Paddy Cosgrave, CEO do Web Summit, e António Costa, primeiro ministro de Portugal. Seb Daly/Web Summit via Sportsfile

Com um impacto estimado pelo Governo do Web Summit na economia do país de 300 milhões de euros, anualmente, o evento tornou-se, desde o primeiro ano, uma montra de Portugal no mundo. Lisboa também deu um forte impulso aos resultados da Web Summit. Depois da passagem de Dublin para a capital portuguesa ter levado os lucros a dispararem 16 vezes, no segundo ano o evento revelou-se ainda mais rentável. A empresa de Paddy Cosgrave ganhou 3,1 milhões de euros em 2017, de acordo com dados obtidos pelo ECO. De um lucro 128 mil euros em 2015, a empresa irlandesa que organiza o evento de empreendedorismo, a Manders Terrace Limited, passou para um resultado líquido de 2,05 milhões na estreia do Web Summit em Lisboa. E cresceram mais 51% em 2017, beneficiando do aumento das receitas que se aproximaram dos 29 milhões de euros (26 milhões em 2016). A puxar pelo volume de negócio esteve o aumento do número de visitantes no segundo de três anos que, inicialmente, a Web Summit iria realizar-se em Portugal. No âmbito desse acordo, a empresa de Paddy Cosgrave recebeu também uma comissão que ajudou a puxar pelas receitas, impulsionando os lucros num ano em que os gastos também cresceram de nove para 12 milhões.

Para ajudar a organizar e avaliar o Web Summit, o Governo anunciou, a 15 de outubro, a criação do “Grupo de trabalho Web Summit Portugal 2019-2028”, que integrará membros de vários ministérios e entidades públicas como o Turismo de Portugal, a Aicep e a Startup Portugal. Esta grupo “tem como missão assegurar a preparação, organização e coordenação do Web Summit, em cada ano do período de 2019 a 2028, e em particular assegurar a articulação entre as várias entidades relevantes no sentido de propiciar o sucesso de cada edição”, lê-se no despacho. Adicionalmente, após o encerramento de cada edição do Web Summit, o grupo de trabalho terá de apresentar “um relatório intercalar, e findo o seu mandato em 31 de março de 2029, um relatório final, ambos sobre a atividade desenvolvida e os resultados alcançados”.

No palco central, no dia 8 de novembro de 2018, Marcelo festejava os feitos – “Conseguimos”, dizia o Presidente da República – mas deixava três desafios. “Como vamos ter o Web Summit por mais dez anos, temos de pensar no que queremos fazer. Proponho, como primeiro desafio, que todos os anos façamos melhor e diferente. Temos de criar aqui uma plataforma e não só um evento temporário de quatro dias”, alertou o Presidente da República. O Chefe de Estado sublinhou, em segundo lugar, o papel que cada um dos 70 mil participantes do maior evento de tecnologia e empreendedorismo do mundo tem na sociedade que integra.

"Como vamos ter o Web Summit por mais dez anos, temos de pensar no que queremos fazer.”

Marcelo Rebelo de Sousa

Presidente da República

“Cheguei agora de uma reunião com refugiados: não devemos esquecer-nos do resto da sociedade. Não devemos deixar ninguém para trás. A educação digital é uma coisa importante”, disse. E, em terceiro lugar e, de acordo com Marcelo, o desafio “mais complicado e importante”, passa por reforçar o digital como plataforma para o exercício da liberdade. “O digital é sobre liberdade, diálogo e tolerância. No resto do mundo vemos modelos de fechamento. O desafio é usar a tecnologia para a paz, para a tolerância. Essa é a mudança. Porque esta onda que está a atravessar o mundo é o oposto à revolução tecnológica. Temos de lutar pelos valores dos princípios da liberdade, para a paz. Essa é a mensagem. Têm de levar essa mensagem para o mundo, não guardem essa mensagem só para vocês. Ajudem a criar um melhor mundo”, disse o Presidente da República.

E Paddy Cosgrave parece ter ouvido bem os conselhos: a abrir o palco principal nesta edição estará Edward Snowden, o whistleblower que desafiou o sistema de segurança dos serviços secretos norte-americanos, em direto a partir de Moscovo, na Rússia. De acordo com a organização do evento, Snowden falará, pela primeira vez, sobre a forma como ajudou a construir o sistema de segurança e sobre as razões que o levaram a revelar informação confidencial. A tecnologia a mudar a forma como vemos o mundo.

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