A campanha mais louca e imprevisível de sempre
Talvez no domingo à noite todos tentemos fazer de conta que isto foi apenas mais uma campanha atípica. Não foi. Foi a confirmação de que o país político deixou de responder aos mesmos estímulos.
Entrados na última semana da campanha presidencial mais louca de sempre, o andar da carruagem continua o mesmo. Como aqui tenho dito há alguns meses, temos uma disputa a cinco. Não arrisco fazer apostas sobre o que nos espera no dia 18 e, nesta altura, todas as campanhas se preocupam com o facto de haver apenas duas vagas.
Com o eleitorado de Ventura relativamente estável e a estratégia de voto útil à esquerda, de Seguro, a funcionar, talvez esta seja a parelha mais provável para as três semanas que se seguem. Contudo, a tracking poll tem sido tremendamente simpática para a candidatura de Cotrim de Figueiredo, que com o enfraquecimento de Marques Mendes e o apelo ao voto dos eleitores da AD, mantém tudo em aberto.
Se hoje o desfecho é imprevisível, basta recuar a janeiro de 2020, antes da pandemia, há apenas seis anos, para perceber que o país político é irreconhecível. Fazendo uso da ordenação publicada no dia 12 pela tracking poll da CNN, em primeiro lugar vemos um homem politicamente morto, derrotado pelo incontestável António Costa há apenas seis anos. Da área política do PS poderiam surgir vários nomes, Seguro não era equacionável.
Em segundo e terceiro lugares surgem dois deputados únicos, eleitos há apenas uns meses com pouco mais de 1% dos votos. Se Ventura, em 2021, iria começar a dar provas da sua força, Cotrim, em 2025, ainda era menosprezado eleitoralmente por boa parte da comunicação social. Em quarto lugar surge um vice-almirante desconhecido de todos, aliás a maioria dos portugueses nem devia saber o que é um vice-almirante.
Em apenas quinto lugar surge o que, na altura, e certamente desde 2016, era o mais forte candidato a suceder o estilo e a presidência de Marcelo Rebelo de Sousa. Em sexto, em empate técnico com o eterno protocandidato Vieira, surge a líder do terceiro maior partido, Catarina Martins, acabada de conquistar mais de quinhentos mil votos e dezanove deputados. Em sétimo, António Filipe, histórico do histórico PCP a fazer pior que o histórico desaire de Edgar Silva.
A política dá muitas voltas, mas as voltas dadas em apenas seis anos são admiráveis. O país político hoje é outro, quase diametralmente oposto e em renovação. Se há uns meses, a esquerda se preocupava com o facto de poder não ter representante na segunda volta, hoje o centro-direita deve reconhecer que se não unir votos em Cotrim corre exatamente o mesmo risco.
Num país em constante mutação política, onde os agentes tão rapidamente surgem como podem desaparecer, o Presidente da República é, enquanto fiel da balança, essencial. As constantes dissoluções do passado parecem ter servido como catalisadoras deste movimento político veloz e ruidoso de transformação. Não precisamos, por isso, de um Presidente que exalte a estabilidade como valor político em si, porque não tem resultado. Precisamos de alguém que pela sua ação, exemplo e palavras não seja um fator de instabilidade, não crie incentivos políticos perversos e lembre o país que o caminho deve ser pelas reformas e pelo crescimento económico.
É já domingo que os portugueses são chamados a eleger o sexto Presidente universalmente eleito. Até lá fica a faltar uma semana de sondagens contraditórias, uma tracking poll que marca a agenda diária e influencia perceções, no fundo um empate inquietante. Até lá talvez nos espere uma semana de difamações, campanha suja e insinuações na lama. A incerteza joga a favor disso. Fica a questão: será que no fim vamos conseguir ignorar o que aconteceu? Desta vez, não vai ser fácil.
Talvez no domingo à noite todos tentemos fazer de conta que isto foi apenas mais uma campanha atípica. Não foi. Foi a confirmação de que o país político deixou de responder aos mesmos estímulos, às mesmas figuras e às mesmas promessas. Quem sair vencedor herdará um sistema instável, volátil e um país dividido. A política portuguesa mudou. A única dúvida é quem ainda não percebeu.
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