A emoção como risco de mercado

  • Pedro Barata
  • 15 Dezembro 2025

Num mercado guiado por pânicos e euforias, a gestão emocional é tão crítica como a análise financeira. Muitas vezes, o verdadeiro risco não está nos preços, mas nas decisões que as emoções provocam.

Investir nos mercados financeiros vai muito além da simples análise de números, gráficos ou indicadores económicos. Na realidade, os comportamentos, as atitudes e sobretudo as emoções, desempenham um papel determinante no resultado final de qualquer investimento.

A experiência demonstra que muitos investidores não falham por falta de conhecimento técnico, mas porque permitem que as emoções assumam o controlo no momento da decisão. Por isso, qualquer processo de investimento robusto deve começar com um exercício de autoconhecimento.

Importa perceber como se reage perante um pico de volatilidade ou num momento de euforia. É essa resposta emocional que define, de uma forma muito mais fiel do que qualquer questionário formal, o verdadeiro perfil de risco de um investidor. Ser conservador, moderado ou arrojado não é uma etiqueta, é o reflexo da tolerância à incerteza e à possibilidade de perda. Só a partir desta clareza é possível estabelecer objetivos realistas capazes de sustentar uma estratégia robusta e coerente.

Períodos de forte valorização tendem a alimentar a convicção de que as tendências positivas se manterão e, nesse contexto, a possibilidade de perdas é frequentemente minimizada.

Porém, a consolidação dessa estratégia é, ainda assim, apenas o primeiro passo. O maior desafio surge na capacidade de a cumprir quando o ambiente de mercado se torna adverso. Ser racional num ambiente emocional tende a ser muito desafiante. Sentimentos como o medo, a euforia ou a comparação com os outros surgem recorrentemente e nessa altura o investimento torna-se num teste permanente à capacidade de os controlar.

Howard Marks sintetiza bem esta realidade no seu livro “The most important thing” ao observar que os mercados se comportam, muitas vezes, como se fossem concursos de popularidade, em que os fluxos de investimento acompanham, quase instintivamente, aquele que parece ser o sentimento dominante.

Períodos de forte valorização tendem a alimentar a convicção de que as tendências positivas se manterão e, nesse contexto, a possibilidade de perdas é frequentemente minimizada. A ideia de que “se todos participarem, não haverá um risco significativo” torna-se sedutora, dando origem a comportamentos pouco prudentes e a expectativas que dificilmente se manterão no longo prazo.

Também aqui a experiência tem demonstrado que quanto mais convicta estiver a multidão, maior é a probabilidade de ela estar errada. Afinal, se todos estivessem certos, não existiria uma recompensa no final.

A euforia leva ao excesso de tomada de risco, o medo provoca decisões precipitadas e a comparação com os outros gera insatisfação.

Do outro lado do espetro está o medo que se manifesta com particular intensidade perante uma correção abrupta. A queda acentuada dos preços desencadeia decisões orientadas quase exclusivamente pela necessidade imediata de preservar capital.

Porém, na grande maioria das situações, esta reação instintiva de vender rapidamente para “evitar maiores perdas” não só destrói valor, como impede o aproveitamento de oportunidades que surgem quando o mercado transaciona a níveis mais atractivos.

Esta é uma particularidade curiosa dos mercados: os investidores tendem a afastar-se quando os preços descem, apesar de ser nesse momento que, teoricamente, o valor relativo aumenta. Nestes momentos, conseguir distinguir desvalorizações motivadas por movimentos estruturais ou meras oscilações conjunturais assume um papel relevante. No primeiro caso, é sensato reavaliar. No segundo, manter a disciplina e seguir o plano traçado tende a ser a decisão mais acertada.

Assim sendo, o que pode ser feito para neutralizar estas emoções? Infelizmente, não há uma receita única, mas há práticas que podem ser aplicadas e que reduzem significativamente o seu impacto.

  • Automatizar regras de compra e venda é uma delas. Desta forma, limita-se a interferência emocional perante as oscilações bruscas do mercado.
  • Alargar o horizonte temporal do investimento é outra. As emoções intensificam-se no curto prazo, onde cada movimento parece dramático, mas a volatilidade tende a diluir-se ao longo do tempo permitindo uma leitura mais serena e acertada dos mercados.

A psicologia comportamental mostra que o ser humano não é racional por natureza, tornando estas medidas particularmente relevantes. Como tende a reagir por instinto, o maior desafio do investidor passa por gerir a própria mente.

Dominar as emoções não garante retornos extraordinários, mas protege o investidor de erros evitáveis e, no mundo dos investimentos, evitar grandes erros é muitas vezes o passo mais importante.

A euforia leva ao excesso de tomada de risco, o medo provoca decisões precipitadas e a comparação com os outros gera insatisfação. Aplicar práticas estruturadas ajuda, portanto, a contrariar estas tendências naturais e a investir de forma mais consistente.

Reconhecer estas fragilidades não deve ser entendido como uma limitação, mas como um ponto de partida para investir de forma mais consciente. A chave está em criar mecanismos que permitam antecipar reações emocionais e reduzir a probabilidade de decisões impulsivas.

Quanto mais preparado estiver um investidor para lidar com a incerteza, maior será a consistência do seu processo de tomada de decisão e é essa consistência, mais do que qualquer previsão, que tende a determinar o sucesso a longo prazo.

Em última análise, podemos dizer que investir não é apenas uma atividade financeira, é também um exercício de maturidade emocional. A capacidade de manter a serenidade quando o mercado oscila, de questionar a euforia coletiva e de agir apenas quando a análise o justifica é aquilo que distingue um investidor disciplinado de um especulador reativo.

Dominar as emoções não garante retornos extraordinários, mas protege o investidor de erros evitáveis e, no mundo dos investimentos, evitar grandes erros é muitas vezes o passo mais importante para alcançar resultados sólidos e sustentáveis.

  • Pedro Barata
  • Economista

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