Editorial

A falta que a Educação faz

Fernando Alexandre tem a obrigação de ser claro, mas a forma como as suas declarações sobre as residências estudantis e os mais pobres foram usadas diz-nos muito sobre os media e a política.

Fernando Alexandre é um dos três melhores ministros (*) deste Governo, é politicamente independente e tem uma formação académica sólida e uma estrutura moral acima de qualquer dúvida. Esta última condição deveria ter sido suficiente para qualquer jornalista ou político medianamente informado — e de boa fé — concluir que o ministro da Educação não associou em nenhum momento a condição social de alunos a uma propensão particular para a destruição de equipamentos públicos. Mas não foi, e entre mau jornalismo e populismo político, criou-se um caso típico para incendiar as redes sociais, que agradeceram a oportunidade.

O ministro da Educação apresentou esta terça-feira uma proposta de revisão de regulamento das bolsas de estudo do ensino superior e, neste contexto, fez uma reflexão que merece discussão: “Nós temos que manter as famílias de todos os rendimentos a terem como prioridade o Serviço Nacional de Saúde e a Escola Pública. Quando isso deixa de acontecer, conduz muitas vezes a uma deterioração dos serviços“. Neste quadro, defendeu que as residências públicas devem ter alunos de vários estratos sociais, caso contrário, dando prioridade aos bolseiros oriundos de famílias desfavorecidas, vão degradar-se mais rapidamente.

A razão, implícita nesta afirmação e explícita quando se ouve toda a intervenção de Fernando Alexandre, é que estas famílias não têm poder reivindicativo nem força eleitoral e por isso o Estado, os decisores políticos, deixam aquelas infraestruturas ao abandono, em degradação.

Sim, Fernando Alexandre é economista de formação, professor de profissão, mas um político em exercício de funções, e por isso tem a obrigação de comunicar de forma clara. Fê-lo de forma trapalhona, explicou-se mal, mas não é o único responsável, nem sequer o maior. Os jornalistas que, ouvindo todo o discurso, fizeram de uma frase um título, contribuíram para a desinformação. E os políticos que, em cima disso, se apressaram a fazer comentários mais ou menos populistas, contribuíram para a ‘fake news’. Carlos Pereira, deputado do PS, foi a correr para o X para escrever o seguinte: “Dizer que [Fernando Alexandre] é um pedante social miserável é capaz de ser pouco, mas, pelo menos, com um PM decente deixaria de ser ministro até ao fim do dia !”. Já terá pedido desculpa?

As redes sociais agradeceram o ‘trabalho’ jornalístico, incompetente ou de má-fé, e a demagogia de políticos, um video devidamente editado com uma frase solta e sem qualquer enquadramento ou contexto foi partilhado milhares de vezes, provavelmente centenas de milhar de vezes, o rastilho propagou-se à velocidade da luz. A responsabilidade não é das redes sociais, é de quem as alimenta por ato ou omissão.

Ironicamente, Fernando Alexandre tinha apresentado uma proposta para acabar com a estigmatização dos alunos que, sem condições sociais, acabam no melhor dos cenários a recorrer a uma residência estudantil por falta de alternativa. Era uma proposta que, ao promover a liberdade de escolha, a concorrência, a integração social, promovia também as condições para uma mobilidade social que se perdeu nos últimos 25 anos, prejudicando precisamente os mais vulneráveis.

O ministro tinha defendido que o Estado deveria atribuir o mesmo valor para alojamento a todos os estudantes deslocados numa mesma cidade, bolseiros ou não bolseiros. E caberia aos alunos escolher, com esse apoio público, se preferiam a residência ou uma solução no mercado privado. Quem não aceitou a proposta? Os reitores que preferem não ter concorrência, e perceberam que acabariam em muitos casos, especialmente fora de Lisboa e Porto, a terem as residências vazias… Ouve-se a discussão sobre o folclore, não se ouve uma palavra sobre a substância. A falta que a Educação faz.

* Escolham, caros leitores, os outros dois.

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