A IA vai roubar-nos o emprego?

  • João Guerra de Sousa
  • 8 Abril 2026

Não são os trabalhadores manuais que enfrentam o maior risco. São os profissionais qualificados, mais velhos, mais bem pagos e com maior escolaridade.

A 5 de março de 2026, a Anthropic publicou aquele que é, provavelmente, o estudo mais rigoroso e transparente até à data sobre o impacto real da inteligência artificial no mercado de trabalho.

O estudo, intitulado “Labor market impacts of AI: A new measure and early evidence”, da autoria dos economistas Maxim Massenkoff e Peter McCrory, introduz uma métrica inédita – a exposição observada (observed exposure), que combina a capacidade teórica dos modelos de linguagem com dados reais de utilização do Claude em contexto profissional. Não se trata apenas de especulação: é efetivamente uma medição baseada em milhões de interações reais.

O fosso entre o que a IA pode fazer e o que realmente faz

A conclusão mais surpreendente é esta: a IA está muito longe de atingir o seu potencial teórico. Na categoria de profissões ligadas à informática e matemática, os modelos de linguagem são teoricamente capazes de executar 94% das tarefas. Contudo, na prática, o Claude cobre apenas 33% dessas mesmas tarefas em contexto profissional. Nas funções administrativas, a capacidade teórica ronda os 90%, mas a utilização real é uma fração desse valor.

Este desfasamento deve-se a limitações técnicas dos modelos, a constrangimentos legais, à necessidade de verificação humana e à lentidão natural da adoção tecnológica. Mas, e este é o ponto crucial, trata-se de um fosso temporário. À medida que as capacidades avançam e a adoção se aprofunda, a utilização real tenderá a aproximar-se da capacidade teórica.

Quem são os trabalhadores mais expostos?

O estudo identifica as profissões com maior exposição observada, e o perfil dos trabalhadores mais vulneráveis contraria a narrativa dominante:

Fonte: Anthropic – “Quem são os trabalhadores mais expostos à IA”

Não são os trabalhadores manuais que enfrentam o maior risco. São os profissionais qualificados, mais velhos, mais bem pagos e com maior escolaridade – advogados, analistas, programadores, contabilistas – que se encontram na linha da frente desta transformação.

Ainda não há uma crise de desemprego. Mas há sinais de alerta

O estudo conclui que não existe, até à data, um aumento sistemático do desemprego entre os trabalhadores mais expostos à IA desde o lançamento do ChatGPT no final de 2022. As taxas de desemprego dos grupos mais e menos expostos têm evoluído de forma semelhante.

No entanto, há um sinal que merece atenção: entre os jovens trabalhadores (22 a 25 anos), a taxa de entrada em novas funções nas profissões mais expostas registou uma queda de aproximadamente 14% no período pós-ChatGPT. Não se trata de despedimentos em massa, mas de um abrandamento na contratação. Um fenómeno que outros estudos, nomeadamente o de Brynjolfsson et al. (2025) com dados da ADP, também identificaram, reportando quedas de 6% a 16% no emprego jovem em profissões expostas.

Este dado é particularmente relevante porque sugere que o impacto da IA no emprego pode não se manifestar através de despedimentos visíveis, mas sim através de portas que deixam de se abrir para quem está a entrar no mercado de trabalho.

O que isto significa para profissionais e organizações

Este estudo da Anthropic dá-nos três lições fundamentais para quem lidera equipas, gere carreiras ou define políticas:

  1. A transformação é gradual, não instantânea. O fosso entre capacidade teórica e utilização real dá-nos uma janela de adaptação, mas essa janela está a fechar-se.
  2. Os mais vulneráveis não são quem esperávamos. A narrativa de que a IA substitui trabalho manual está ultrapassada. São os profissionais do conhecimento que enfrentam a maior pressão, e as organizações precisam de repensar os seus modelos de desenvolvimento de talento em conformidade.
  3. O indicador mais importante pode não ser o desemprego, mas sim a contratação. Se os jovens qualificados estão a ter mais dificuldade em entrar nas profissões expostas, isso pode sinalizar uma reconfiguração silenciosa do mercado de trabalho que as estatísticas tradicionais ainda não captam.

A questão já não é se a IA vai transformar o mercado de trabalho. É quando, como e quem terá a capacidade de se adaptar.

Fonte: Massenkoff, M. e McCrory, P. (2026). “Labor market impacts of AI: A new measure and early evidence.” Anthropic Research. Disponível em: anthropic.com/research/labor-market-impacts

  • João Guerra de Sousa
  • Director of Strategy and Digital at GCiMedia Group

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