A mobilidade de amanhã
A mobilidade do futuro terá que cobrir e satisfazer as necessidades e exigências de toda uma variedade e exigências e estilos de vida, desde os ecológicos, aos inovadores, aos low cost.
O individualismo é hoje claramente uma tendência da nossa sociedade e um dos fatores chaves que impulsiona a transformação social e económica. A busca incessante pela individualização é o que faz nascer formas diversificadas de ver a vida, de estar na vida, moldando os nossos hábitos de consumo. Essa individualização só acontece por termos liberdade de escolha e, com ela, uma cada vez maior exigência de mobilidade. A mobilidade individual resulta precisamente da necessidade de decidir autonomamente quando, como e para onde vamos. E isso vai ditar o futuro da mobilidade. As longas esperas na paragem do autocarro, a procura de um táxi que teima em não chegar ou a espera pela conexão que nos vai levar ao próximo destino serão situações obsoletas em 2040.
A mobilidade do futuro terá que cobrir e satisfazer as necessidades e exigências de toda uma variedade e exigências e estilos de vida (desde os ecológicos, aos inovadores, aos passageiros de alta frequência, aos low cost). No entanto, para além da evidente questão ambiental (carros elétricos ou a hidrogénio), dois vetores vão garantidamente estar presentes na mobilidade de amanhã.
O primeiro, é a mobilidade partilhada. As novas gerações têm hábitos de partilha, que nasceram on line, e que se vão estender à mobilidade que perspetivam de forma colaborativa. Always on and conected é a chave para controlar o acesso à mobilidade multi-modal. E a chave é precisamente essa: ter acesso. Ser dono de um carro já não é hoje visto como um privilégio, mas sim como um fardo ou fonte de despesas. Muito mais importante é ter acesso – nacional, internacional ou global -, à mobilidade que eu quero. O car sharing é, pois, visto pelo mercado como uma solução inevitável, seja através de operadores profissionais, seja no peer-to-peer, gerido através de uma plataforma on line. Diz-se que o impacto do car sharing na mobilidade será equivalente ao do Airbnb no imobiliário. E quanto mais essas plataformas se profissionalizarem, mais as pessoas prescindirão de ter sempre o mesmo carro parqueado à porta de casa. Vão ter um carro à sua medida, quando e como quiserem, atingindo o apogeu com a automação dos veículos. É só chamar… E esta realidade aplica-se quer ao setor privado quer público, pois o transporte público massificado vai ter que dar lugar ao transporte público individualizado. A ligação do transporte público (local) e do individual é a fundação da mobilidade de amanhã. Vai buscar-nos “onde estivermos”.
Esta transformação do paradigma da mobilidade vai criar desafios a todos os players do mercado, desde os juristas, pois terão que estabelecer regras claras de repartição da responsabilidade, até aos próprios fabricantes dos carros que vão ter que aderir às plataformas para escoar o seu produto.
O outro vetor é a mobilidade digital. A troca permanente, ininterrupta e inteligente de dados entre os utilizadores das estradas (peões, motoristas, ciclistas ou passageiros), os próprios veículos (veículos autónomos) e as infra-estruturas, vão elevar-nos para um novo patamar da mobilidade, permitindo criar um sistema de auto-regulação do planeamento do tráfego e das disponibilidades on demand, que permitirão fazer a transição perfeita de um meio de transporte para o outro, via “internet of things”. Fundamental, porém, é a confiança na proteção de dados. Quem detém a informação e com que finalidade são questões cruciais cujo controlo e proteção têm que estar assegurados como requisito mínimo para se entrar no mercado da mobilidade.
*Rita Cruz é sócia da CCA Law Firm.
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