A nossa Bravura?
Vendo a imensidão do volume de água que hoje a Bravura nos apresenta, é difícil de acreditar que, em 2022 e 2023, os volumes armazenados desceram para valores próximos de 10% da capacidade total.
Hoje venho falar-vos de uma barragem que se dá pelo nome feliz de Bravura.
A barragem da Bravura, também conhecida como barragem de Odiáxere, localiza‑se no concelho de Lagos, no Algarve. Como todas as barragens, a Bravura apresenta-se numa paisagem maravilhosa; é uma construção já antiga, projetada em 1955 e concluída em 1958, que integra a bacia hidrográfica das ribeiras do barlavento algarvio.
A água da Bravura serve essencialmente dois fins: do abastecimento público para consumo humano a alguns municípios vizinhos e de rega agrícola, apoiando o perímetro hidroagrícola de Alvor.
Durante o período de seca, entre 2022 e 2024, a Bravura enfrentou uma das situações mais críticas do país.
Ontem, fui ver a Bravura.
E vendo a imensidão do volume de água que hoje a Bravura nos apresenta, é difícil de acreditar que, em 2022 e 2023, os volumes armazenados desceram para valores próximos de 10% da capacidade total da barragem.
A Bravura que vi ontem, não é a mesma que vi em 2023/2024.
Nesses anos, contemplou-se o volume morto da barragem, planeou-se a remoção dos peixes e foram adotadas medidas de contingência na gestão de água que incluíram limitações severas ao uso agrícola, sendo dada prioridade ao consumo humano.
Foi também nesse período que se tornou prioritária a modernização do perímetro de rega do Alvor para eliminação de fugas e de perdas de água, construção de um reservatório com capacidade para dois dias de armazenamento, entre outros.
As decisões foram sendo tomadas, é certo. E a prioridade dada ao consumo humano foi garantida. Mas vi, por testemunho direto, tratar-se de decisões ad hoc onde era pouco claro o enquadramento institucional vigente. Foram decisões muito marcadas pela boa vontade da Associação de Regantes e Beneficiários do Alvor (ARBA) que trabalhava, naturalmente, com os agricultores para criar soluções com o objetivo de proteger culturas permanentes e de garantir a sustentabilidade do perímetro de rega. Foram decisões adotadas e implementadas em formato de coordenação e de articulação com outras entidades públicas (pre)ocupadas na gestão da escassez vigente na região.
Felizmente, choveu no barlavento Algarvio.
O início de 2026 marcou realmente uma viragem: as chuvas significativas no Algarve permitiram que a Bravura atingisse mais de 85% de armazenamento, número absolutamente impensável nos anos imediatamente anteriores.
O exemplo da Bravura traduz uma realidade institucional vigente e que a chuva não levou consigo.
Em períodos de escassez, não existe entre nós um mecanismo operativo e previsível para redefinir prioridades entre usos de água. A gestão da água recai sobretudo em decisões ad hoc, que se impõem pela urgência visível da situação de facto, e a administração pública (integrada no Estado ou nas autarquias) carece de instrumentos normativos e sancionatórios eficazes para gerir eficaz e rapidamente conflitos de usos.
Em momentos de escassez verificámos recentemente que a agricultura, o ambiente, o ordenamento do território, a energia e municípios gerem a água disponível (esteja ela integrada em domínio público ou privado) e operam com estratégias e normas não coincidentes ou alinhadas, sem mecanismos eficazes de concertação.
É importante termos mecanismos previsíveis de prioridade de usos em cenário de escassez, uma estrutura de concertação intersetorial e planos de contingência pré-definidos com critérios e gatilhos bem demarcados (percentagens de armazenamento, etc.).
Em suma, temos de aproveitar este momento, em que a Bravura se apresenta plena e maravilhosa, para sermos bravos na vontade e organizarmo-nos de forma eficaz e integrada. Garantindo que, em tempo de cheia, preparamos, eficazmente, a seca.
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