A segunda volta da conivência

A segunda volta das presidenciais ficará, assim, marcada não apenas pelo resultado eleitoral, mas pelo silêncio e conivência da carneirada que tinha a obrigação de se comprometer.

O aftermath do resultado da primeira volta das eleições presidenciais trouxe à superfície fragilidades políticas profundas, ambiguidades estratégicas e, sobretudo, uma preocupante recusa de responsabilidade por parte de protagonistas centrais do espaço democrático.

A decisão de Luís Montenegro, João Cotrim de Figueiredo e Marques Mendes — os tais liberais — de não apoiarem António José Seguro na segunda volta exige uma análise crítica séria. To say the least. Num contexto em que está em causa não apenas uma eleição presidencial, mas a defesa de princípios estruturantes da democracia constitucional, a neutralidade não representa elevação institucional. Representou, antes, uma forma clara de demissão política e de cobardia.

No caso de João Cotrim de Figueiredo, essa demissão assumiu contornos particularmente insultuosos. O antigo líder da Iniciativa Liberal chegou a admitir publicamente a possibilidade de apoiar André Ventura na segunda volta, vindo depois a desdizer-se. Essa oscilação não foi um mero lapso comunicacional: revelou uma inquietante ambiguidade face a um candidato cujo posicionamento político é manifestamente incompatível com os valores do liberalismo democrático. Precisamente por se afirmar como liberal, europeísta e defensor das instituições, Cotrim de Figueiredo deveria ter sido dos primeiros – no final da noite eleitoral de ontem – a apoiar António José Seguro, traçando uma linha inequívoca entre democracia liberal e extremismo político.

A recusa de apoio, neste e noutros casos, não pode ser lida como um gesto de coerência ideológica ou independência partidária. Em cenários de segunda volta, a escolha deixa de ser estritamente programática e passa a ser, inevitavelmente, civilizacional. Ao optarem pelo silêncio — ou pela ambiguidade — estes dirigentes contribuíram para a perigosa normalização da ideia de que todas as opções são equivalentes, mesmo quando uma delas se constrói sobre a erosão sistemática das instituições democráticas, do pluralismo e do Estado de direito.

Essa normalização foi agravada pelo discurso de André Ventura, cujo percurso político tem sido marcado por posições xenófobas, pela estigmatização sistemática de minorias e por uma retórica que colide frontalmente com os princípios básicos da democracia constitucional. A tentativa de enquadrar a segunda volta como um confronto entre “direita” e “esquerda” não é apenas uma simplificação abusiva: é uma estratégia deliberada para ocultar a natureza antidemocrática do seu projeto político. Acredite quem quiser.

Mais grave ainda, esta narrativa encontrou espaço precisamente devido à ausência de um posicionamento claro por parte de líderes que, pela sua influência pública, tinham o dever de esclarecer o eleitorado. Ao recusarem assumir uma escolha clara, contribuíram — ainda que por omissão — para a banalização de um discurso que ameaça o próprio regime democrático e que é rei no reino do Tik Tok.

A democracia defende-se com escolhas políticas claras, sobretudo em momentos decisivos. A neutralidade, nestes contextos, nunca é neutra: favorece sempre quem procura corroer o sistema por dentro. A segunda volta das presidenciais ficará, assim, marcada não apenas pelo resultado eleitoral, mas pelo silêncio e conivência da carneirada que tinha a obrigação de se comprometer. Pensem em Francisco Sá Carneiro e Mário Soares. Pronto, I rest my case.

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