Agente humanitário

O Mundo das ONGs é o território da superioridade moral. Mas a realidade é infinitamente mais complexa e implacável perante as soluções simplistas e moralistas.

As ondas migratórias no Mediterrâneo fazem a primeira vítima em Portugal. Um activista nacional, voluntário na ONG Jugend Rettet e tripulante da nave “Iuventa” está acusado pela Justiça de Itália de “auxílio à imigração ilegal”. Face à tragédia económica e ao desespero político que governa a África, existe nestas “missões humanitárias” o reflexo de uma espécie de turismo humanitário, gosto pela aventura e fascínio pelo exótico.

O Mundo das ONGs é o território da superioridade moral, o exclusivo da sociedade civil transnacional, o território da opinião pública global, a visão política concentrada no slogan “Another World is Possible”. É como se a canção “Imagine” de John Lennon fosse o Hino da Humanidade – “Imagine there’s no countries/ It isn’t hard to do/ Nothing to kill or die for/ And no religion, too”. Mas a realidade é infinitamente mais complexa e implacável perante as soluções simplistas e moralistas.

O Mediterrâneo não é um muro de mar nem pode ser um mar de mãos que pretendem transportar a população de África para a segurança da Europa. A ideia de uma Europa repleta de imigrantes e de uma África abandonada ao arbítrio de governos venais e corruptos é um cenário de catástrofe, uma distopia digna de um romance político.

A Europa falha na política para a imigração e afunda-se nas águas claras do Mediterrâneo. A Itália proíbe a entrada de navios das ONGs com “refugiados”, Matteo Salvini indica como destino mais próximo Hamburgo. Vista do mar, como se apresenta a Europa? É certamente um Continente fora do Mundo, com as suas fronteiras controladas por traficantes no lado de África e por burocratas na margem da Europa. As ONGs fazem o vaivém entre o Céu e o Inferno, prometem ilusões e oferecem sobras do Ocidente e Campos para Refugiados. A Europa inunda o mar com sonhos de segurança e prosperidade e não deixa espaço para os sonhos privados de todos os que fogem de África ou do Médio-Oriente. A travessia do Mediterrâneo representa o conflito entre a escassez de tudo e a grande fantasia da riqueza material, do poder e do respeito. Os deslocados deixam de pertencer ao lugar de origem para passarem a pertencer a lugar nenhum. As ONGs observam esta estranha alienação geográfica e cultural como uma espécie de libertação, uma sensibilidade da condição migratória cujo desenvolvimento poderá ser um grande progresso para a Europa do século XXI.

Ser deslocado, migrante, refugiado, imigrante, é para esta visão política e ideológica um estatuto moralmente maior no meio da maior miséria e degradação – a transformação política de uma ideia religiosa de redenção. Ser refugiado é neste estranho Cosmos uma projecção do ser humano universal e livre – livre de jurisdições políticas, livre de vínculos nacionais ou nacionalistas, verdadeiramente cidadão do Mundo. Nesta peculiar perspectiva, o efeito de uma grande deslocação de massas tem como consequência política e social a criação de uma nova espécie de seres humanos, indivíduos que fundamentam a sua identidade, não em um lugar, mas numa ideia.

Esta deslocação entre Mundos obriga o indivíduo a encontrar a configuração de uma nova identidade – primeiro, recusando a definição de terceiros; depois, assumindo uma nova postura baseada na fusão e na união sem precedentes entre o que foram e o lugar onde se encontram. O refugiado, por natureza, suspeita da realidade, tendo no seu percurso experimentado vários modos de ser e de viver, o imigrante percebe como é frágil o seu estatuto permanente ou provisório. A experiência decisiva é o facto de um dia ter atravessado a fronteira. E as fronteiras são dispositivos políticos que se abrem e se fecham sempre em duas direcções. Nesta visão política radical e absoluta, “Nenhum Ser Humano é Ilegal” e “Salvar Vidas não é Crime”.

A teoria até pode parecer a solução para o Inverno demográfico na Europa. A ideia de importar a próxima geração de europeus, mais do que uma fantasia perigosa, pode mesmo representar uma fractura política, económica e cultural no tecido social do Continente. Quando os sinais na Europa apontam para o falhanço das políticas de integração, quer na modalidade britânica, quer na versão francesa; quando na Europa se observa o discurso radical e populista em franca ascensão; quando a Europa perde paulatinamente o seu predomínio económico face às grandes potências emergentes é suicidário o modo como se restringe a discussão sobre os efeitos da imigração ao mesmo tempo que se abrem as portas da Europa a todas as denominações étnicas, culturais e religiosas. A Europa não pode ser o refúgio do Mundo.

O activista nacional acredita nas boas intenções e na boa vontade, um recurso excelente da ingenuidade política. O activista nacional tem também a convicção de que no futuro imediato os refugiados da Síria, da Somália e do Afeganistão vão ser assimilados pacificamente no interior da Europa, tal como os milaneses, genoveses e florentinos se agregam numa entidade nacional designada por Itália. A abertura, a receptividade e a capacidade de integrar as histórias e as descobertas do Mundo na cultura da Europa são prodigiosas. Resta por saber e resta a dúvida existencial se serão ilimitadas.

Nota: O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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