Há uma parte da Europa que olha para Ceuta com a alegria e o prazer das ideias progressistas de uma Humanidade sem a soberania das fronteiras. Outra olha com revolta e medo de uma cultura esmagada.

Ceuta é um ponto de inflamação da direita europeia. Entrar em território sob soberania europeia a nadar livremente nas águas do Mediterrâneo é tudo para além de uma ameaça. Para uma Europa diminuída no mundo, acossada nas suas fronteiras, politicamente em profunda polarização, migrantes livres em águas livres são sintoma de invasão. Podem os sociólogos afirmar que não existe “invasão migratória” e utilizar a designação pós-moderna que caracteriza a situação em Ceuta como um “episódio de mobilidade colectiva crítica”. A cidade fechada, a polícia nas ruas desertas de europeus, o exército em uniforme de combate em missão de controlo e contenção dos migrantes, tudo aponta para um flashpoint onde a fragilidade das fronteiras da Europa ainda fora do Continente exibe o retrato de uma geografia em colapso. A resposta de Bruxelas é a voz de uma Europa cercada politicamente, ameaçada culturalmente e foco de uma atracção económica que pode colocar em causa o projecto europeu – A definição do Novo Império dos Migrantes no coração da Europa.

Onde a esquerda vê a solução para o “inverno demográfico” mais a mão-de-obra imprescindível para uma economia em crescimento anémico mais a ideia de que nenhum ser humano é ilegal, a direita radical vê os sinais da “teoria da grande substituição” que acabará por transformar a Europa numa extensão da Ásia e num interposto de África. A Europa deixará de ser o centro de uma civilização para se transformar no território ocupado por todas as paisagens culturais e sociais do Mundo. A direita radical observa em Ceuta o retrato do futuro. Um futuro onde a diversidade europeia acabará por deixar de ser europeia para se transformar numa sobreposição de culturas e povos que levarão a Europa ao colapso. Uma Europa sem europeus pois todo e qualquer migrante estabelecido na Europa estabelece o seu país de origem. Poderá a Europa conter todas as nações do Mundo sem cometer uma espécie de suicídio humanitário?

Se a Europa fosse a personagem de um filme, a Europa teria de ser representada por dois actores – Um actor europeu e um actor migrante. Em algumas cenas a Europa seria um migrante em circulação crescente e solar. Em outras cenas a Europa seria um europeu em retracção iminente e lunar. O actor migrante falaria a sua língua nativa em nome da nova Europa. O actor europeu falaria a sua língua materna em nome da velha Europa. Para a visão do Mundo da direita radical, esta nova língua europeia feita dos fragmentos sobrepostos de culturas diferentes e antagónicas resulta na evidência de uma personalidade europeia em conflito consigo mesma, parte referências práticas de um bazar exótico, parte conversas ao balcão de uma loja tradicional. Para a direita radical este conflito domina a realidade quotidiana de uma Europa nem sempre consciente deste conflito surdo e latente. As lealdades divididas são sempre veículo de conflitos futuros. As relações inconstantes e ambíguas são sempre causa de revoltas profundas. A Europa vive uma tempestade interior que cria uma tempestade-espelho de respostas contraditórias.

Há uma parte da Europa que olha para Ceuta com a alegria e o prazer das ideias progressistas de uma Humanidade sem a soberania das fronteiras – É o Mundo global de uma Humanidade colectiva em movimento. Há uma outra parte da Europa que olha para Ceuta com a revolta e o medo de uma cultura europeia esmagada pela miséria do Mundo que escolhe o antigo colonizador para ser colonizado. Ceuta tem o poder de encantar e de enfurecer, dois sentimentos incompatíveis que desenham os contornos de uma odisseia – Uma odisseia que só poderá acabar em desastre.

Os migrantes falam do “preconceito racial europeu”. Os europeus falam da “ameaça da migração” para uma Europa transformada em Continente de destino único global. No espaço do debate político não há lugar para uma reflexão sobre os estados falhados que exportam cidadãos universais. Os cidadãos só são universais para a Europa. Para os estados falhados de origem, trata-se apenas de cidadãos excedentários. A direita radical não aceita legitimar cidadãos excedentários em cidadãos universais. A direita radical não está preocupada com a integração nem com a assimilação nem com o multiculturalismo. A direita radical considera-se a defensora política de uma identidade cultural que representa o carácter da Europa. Perante o Novo Império dos Migrantes no coração da Europa a direita radical está na disposição de iniciar um Novo Movimento de Libertação – Libertar a Europa da ameaça que chega do mar de Ceuta.

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Ceuta e a Direita

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