Crónica da América

Perante a vertiginosa velocidade da Presidência Trump, a questão do ‘impeachment’ parece estar escrita algures no enredo desta ‘pulp fiction’.

Em 1937, na comédia ‘A Day at the Races’, os Irmãos Marx contam a história de um veterinário da Flórida que é contratado para tratar em exclusivo das impertinências médicas de uma milionária. A senhora sofre de uma doença rara, ainda sem nome atribuído no ‘simposium’ médico, mas que se caracteriza por um sintoma absolutamente determinante – o paciente apresenta tensão alta de um lado do corpo e tensão baixa no outro lado do corpo. Na realidade mais absurda do que a ficção, Trump é o veterinário e a América é o paciente.

No dia em que o seu director de campanha é declarado culpado por 8 crimes financeiros, no mesmo dia em que o seu antigo advogado confessa perante as autoridades a prática de outros oito crimes, o Presidente Trump apresenta-se num comício na Virgínia e é recebido por uma multidão que grita “Lock her up” em referência a Hillary Clinton. No discurso, Trump fala do “pântano de Washington”, do muro na fronteira com o México, dos imigrantes ilegais, da “beleza do carvão”, nas clássicas “fake news” e da “conspiração democrata” para responsabilizar a Rússia de conluio e de corrupção do processo eleitoral americano. Um dia normal na agenda política do Presidente. Com um índice de aprovação de 87% entre os apoiantes republicanos, o segundo mais alto desde 1945 após 500 dias de mandato e só superado pelos 96% de George W. Bush nos dias seguintes ao atentado às Torres Gémeas, não admira que muitos apoiantes do Presidente ameacem com uma “revolta popular” perante a mais ténue tentativa de ‘impeachment’. Diga-se a benefício da verdade que a Constituição só prevê o mecanismo da destituição perante crimes cometidos no exercício do cargo. Mas registe-se igualmente que no espírito do ‘impeachment’ não reside uma ideia de punição, mas a intenção de expurgar a indignidade quando esta se apropria do cargo, restabelecendo a honra e a integridade da instituição da Presidência.

Neste particular, Trump tem um registo inexcedível. O convívio civil com uma ‘porn star’, as discussões económicas com uma ‘playboy bunny’, rapidamente recompensadas em numerário para manterem o silêncio e o segredo de Estado sobre o futuro político da América são marcos na carreira de um Presidente. Interessante é que em tempos normais na política americana, estas cumplicidades indiscretas seriam a certidão de óbito para qualquer ambição política. Na visão da América profunda e puritana, na perspectiva do mundo observado através dos valores da ‘Bible Belt’, o Presidente representa o ‘apex’ do carácter, o símbolo da virtude do sonho americano, o guardião da Cidade na Colina. E é nas questões do ‘carácter’ que a América parece estar a mudar. Para os apoiantes de Trump pouco importa que o Presidente seja um mentiroso, um alcoólico, um fanfarrão, um escroque arrogante e ofensivo, que se faça rodear de personagens sem percurso, estatuto ou qualidade, desde que não haja alterações na sua linha política – corte nos impostos, desregulação da economia interna, imposição de tarifas, sanções económicas e as acções na bolsa a subirem a níveis estratosféricos. O mito do milagre económico toma de assalto a paisagem política da América. O americano médio parece que elegeu um CEO e não um Presidente ao estilo da democracia na América, uma personagem versada nas artes negras da negociação e na multiplicação dos lucros. Trump não criou este novo espírito americano; Trump é o produto desta outra visão da América.

Perante a vertiginosa velocidade da Presidência Trump, a questão do ‘impeachment’ parece estar escrita algures no enredo desta ‘pulp fiction’. Talvez tudo seja ainda demasiado cedo, mas no momento em que o poder judicial entrar em sintonia com o poder político, no momento em que a fragmentação dos detalhes der lugar a uma narrativa global e consistente, o ‘impeachment’ poderá então eclodir em pleno Capitólio. Mas na política, nada está garantido até tudo estar concretizado. Trump poderá ser um Presidente para a História ou o nome de uma rua num país onde as ruas não têm nome.

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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