ESG já é uma condição de crescimento

  • Diogo Moreira-Rato
  • 25 Setembro 2026

Portugal parte com uma vantagem que não é evidente. Somos uma economia de médias empresas competentes, muitas delas familiares, onde quem decide responde perante a geração seguinte.

Perdemos um concurso hospitalar e tínhamos o melhor preço. Foi assim que aprendi a diferença entre tratar a sustentabilidade como um custo do negócio e tratá-la como uma condição para crescer. A distinção parece uma questão de semântica até ao dia em que nos vemos do lado errado dela.

Em quatro décadas de vida executiva passadas em quatro continentes, nunca vi uma empresa crescer de forma duradoura sendo indiferente ao terreno que pisava. Vi muitas apresentarem trimestres impecáveis e descobrirem, anos depois, que os tinham financiado com o seu próprio futuro. É isto que ESG significa para mim: não um exercício de reporte, não um gesto para ser bem visto, não um travão à ambição. É a disciplina que garante que o crescimento deste ano perdura daqui a dez.

Há uma conversa a decorrer nos conselhos de administração portugueses: Bruxelas recuou, a pressão passou, podemos desmobilizar. Compreendo a leitura, mas discordo dela. O pacote Omnibus reduziu o perímetro do relatório e cortou boa parte dos indicadores, e concordo com quase tudo isso: um referencial que pede mil indicadores não produz mil conclusões, produz exaustão. Retirou peso administrativo. Não retirou substância. Tornou-a mais fácil de adoptar. É a oportunidade de fazer o que sempre devia ter sido feito: escolher poucos indicadores relevantes e ligá-los a decisões.

A substância chega ao resultado por cinco canais visíveis na demonstração financeira. O custo de capital, onde o spread não é um arredondamento. O acesso ao mercado, quando um sistema de saúde adjudica pela proposta economicamente mais vantajosa e o carbono vale pontos. A margem, porque cada euro de energia que não se consome é um euro

As empresas estão hoje confrontadas não apenas com exigências regulatórias, mas com riscos que sentem na pele, das tempestades às ondas de calor. Mesmo sem regulação, o risco ficaria, e com ele a obrigação de o gerir.de margem limpa. As pessoas, para quem o propósito é hoje um critério de desempate na hora de escolher um empregador. E o valor nas transações: em aquisições, sejam elas de duzentos milhões ou de vinte e um mil milhões de euros, poucas coisas destruíram valor com tanta regularidade como passivos ambientais e sociais não escrutinados a tempo.

Nada disto funciona com informação deficiente. Somos exigentes com a informação financeira e complacentes com a de sustentabilidade. Interrogamos longamente uma provisão, mas quando chega à sustentabilidade a sala aceita sem questionar. Com menos indicadores, cada um pesa mais: a simplificação eleva a fasquia da qualidade.

Portugal parte com uma vantagem que não é evidente. Somos uma economia de médias empresas competentes, muitas delas familiares, onde quem decide responde perante a geração seguinte, não perante o trimestre. Falta-lhes a infraestrutura que torna o fator ESG demonstrável perante um banco ou um comprador. É um problema de execução e esse resolve-se.

A qualidade dos dados começa antes da recolha: escolher o que medir, como medir e construir séries históricas. Um número isolado é uma fotografia. Só a série conta a história.

Num contexto de divergência entre os EUA e a Europa, importa não esquecer, além do E, o S e o G. O clima é o risco mais visível, mas são as pessoas e o governo que decidem se é bem gerido. E aí a última palavra é dos conselhos.

  • Diogo Moreira-Rato
  • Diretor do Instituto Português de Corporate Governance (IPCG)

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