Marcelo escolheu ser o que sempre foi
Marcelo escolheu ser o que sempre foi. E assim foi. Divertiu-se. Passaram-se dez anos.
Marcelo é uma personalidade memorável: irrequieto, inteligente, atento, de quem, contudo, a história facilmente se esquecerá. Depois de um segundo mandato de Cavaco apagado, Marcelo surgia como o político capaz de restabelecer a ligação do povo às elites. Soube falar com emoção, fugir do guião, quebrar protocolos com criatividade e parecer que era um de nós. Mesmo entre gargalhadas, com momentos mais caricatos, bizarros, às vezes graves, é difícil que nunca tenhamos sentido a importância da sua espontaneidade e da sua afetividade e carinho. Para muitos, a sua proximidade foi revolucionária. Porém, para a história ficará um presidente de tempos de instabilidade, que esteve sempre no centro dela.
Se tivesse saído em 2021, ficar-nos-ia na memória um Presidente dos afetos, uma espécie de avô coletivo. Todavia, aqui chegados, Marcelo foi vítima de si próprio, da sua própria ambição, dos seus próprios vícios e das suas próprias palavras. A sua hubris impediu-o de ser apenas árbitro, quis sempre mais: poder agir, poder sentir que tinha o poder nas suas mãos. Habilmente, Costa soube jogar com este fraquinho presidencial, deixando o desgaste acontecer, enquanto Marcelo achava que influenciava.
Para além disto, Marcelo, viciado na intriga, na criação de factos noticiosos, no comentário, na efabulação política, criou sempre mais cenários do que aqueles que, alguma vez, o país seria capaz de concretizar. Foram o vício e a ambição os geradores ou, pelo menos, catalisadores da instabilidade que vivemos. As palavras e o seu uso foram também inimigas do Presidente. O seu abuso e a sua banalização, desde comentários desportivos à trivialidade do momento, contribuíram para que, em pouco tempo, a sua magistratura se esgotasse e, com isso, a sua própria presidência.
O excesso de presença tornou-se um vazio, tanto de significado como de intervenção. As palavras passaram a ser ocas e o ponto tinha de ser feito pelo silêncio, por natureza, menos claro e elucidativo. Com Marcelo, passamos de analisar discursos para discorrer sobre desaparecimentos ou incursões mais ou menos inócuas entre ruas, becos, estabelecimentos e lições de história.
No currículo de Marcelo fica a aliança nefasta para o país com Costa e ainda 3 dissoluções da Assembleia da República, às quais temos de somar as das Assembleias Regionais. Entre atropelos constitucionais, a interpretação que Marcelo fez das suas funções foi peregrina, achando sempre que era o número ‘10’ do regime. Geriu mal a política de incentivos aos partidos e quis matar o parlamentarismo, acabando apenas por diminuir a responsabilização dos atores políticos. Com os avisos de dissolução, criou atalhos. Num sistema parlamentar, os partidos têm responsabilidade de se entenderem, porque a consequência da demora será cara nas eleições seguintes. No regime de Marcelo, quando os partidos não se entenderam ou ficaram órfãos de líder, nunca houve responsabilidade. A responsabilidade demora tempo a apurar e o penso rápido das eleições acabou por cristalizar a divisão do país.
Marcelo, filho das elites de Lisboa, tornou-se líder do PSD há 30 anos e passados estes anos não é fácil dizer o que quis para o país. Para além de tentar inflacionar artificial e pouco razoavelmente o nosso ego coletivo, todos os seus desígnios presidenciais foram um fracasso. Desde a reforma da justiça até à preocupação com os sem abrigo, passando pela promessa de estabilidade, em todos, o país está pior. Não foi necessariamente culpa sua, mas a sua impressão digital ficará lá gravada.
Posso estar a ser demasiado crítico de Marcelo. Nunca saberemos qual seria o seu legado num tempo de menos instabilidade ou quais seriam as decisões de qualquer outro Presidente naqueles momentos: é história alternativa. Fica a prova que o cargo é ingrato e que nem todos os bons candidatos dão bons presidentes. No fim, fica a popularidade artificial da personalidade, não a da execução do cargo. Marcelo sabe-o, até porque os portugueses elegeram o seu antídoto.
Pinto Balsemão lembrou-nos de um Marcelo que os anos de comentário foram esquecendo. O Marcelo da Vichyssoise e do “lélé da cuca”, filho de Deus e do diabo, o escorpião que nunca deixou de o ser e que pela sua natureza acabou afundado com quem o ajudou a atravessar o rio. No dia em que Marcelo deixou Belém terminou um ciclo: as fontes secaram e o ‘deserto eterno’ começou.
Reza a história que há dez anos, no caminho, a pé, até à Assembleia, para a sua tomada de posse, Marcelo percebeu que não iria ser capaz de mudar, de ser diferente: escolheu ser o que sempre foi. E assim foi. Divertiu-se. Passaram-se dez anos.
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