Montenegro e o ambidestro Luís Neves

Luís Neves é o ministro ambidestro do governo. Agrada aos povos da esquerda e da direita, enquanto irrita as suas elites.

Com a escolha de Luís Neves, Montenegro marcou pontos. Ao mesmo tempo, reafirmou a sua forma de governação, ambivalente, ambidestra, onde não há ponto sem nó, onde a cada passe com o pé direito, há um cruzamento com o esquerdo.

Luís Neves não era a escolha óbvia, não era sequer o perfil óbvio. Face aos fracassos de Margarida Blasco e Maria Lúcia Amaral, a margem era nula. Parecia evidente que a escolha recairia ou num político experimentado do PSD, capaz de aguentar politicamente o ministério e de se sacrificar pelo partido, ou numa personalidade tão popular, a quem um estado de graça compraria tempo. Luís Neves não é exatamente nenhum destes perfis.

Contudo, o novo MAI aparenta ser uma boa aposta em três eixos distintos.

Primeiro, animou claramente a esquerda, onde Luís Neves é amplamente reconhecido. De seguida, pisca o olho à direita mais sensível com a segurança, nomeando um diretor da Polícia Judiciária, podendo, inclusivamente, agradar às forças de autoridade. Em terceiro lugar, ganha margem com a comunicação social, que, depois de tantas odes ao ministro nos últimos anos, tem pouca margem e vontade de o queimar em lume brando à primeira oportunidade.

Certamente o leitor atento estará a pensar que o Chega não gostou da indicação. É verdade. Mas os eleitores do Chega não são o partido. Os eleitores podem ficar entusiasmados com a escolha. De resto, estou certo de que o nome também não caiu bem no Rato. Ainda que só Ventura o tenha criticado, é inevitável que Carneiro tenha ficado preocupado. Montenegro falou diretamente à esquerda e, pior: um nome querido no seu partido, que poderia ser seu ministro, confiou neste governo para aceitar o convite.

Ser MAI não é fácil. O ministério é extenuante: vai desde as forças de segurança até à Proteção Civil, passando pela floresta ou por qualquer catástrofe natural. Luís Neves tem um currículo admirável, conhece as polícias, defendeu os salários da PSP e sabe como comunicar. Tudo isto é verdade. Mas a dureza da missão e a imprevisibilidade das tragédias já fustigaram carreiras similares. A dimensão dos incêndios do ano passado pode antecipar anos mais calmos. Talvez. Espero que sim.

Toda esta escolha encerra uma proeza ou destreza política de Montenegro assinaláveis. Depois de, sem alarme público, ter retirado a Provedora da Justiça, leva diretamente do cargo o diretor da PJ. O país não se questiona, não se sobressalta e parece estar bem resolvido com portas a girar. Escolhido um ministro popular, nomear o diretor da PJ é um bombom para o governo.

Luís Neves é o ministro ambidestro do governo. Agrada aos povos da esquerda e da direita, enquanto irrita as suas elites. Apraz à comunicação social e deixa um cargo nevrálgico vacante. Luís Neves foi uma espécie de aposta tripla num jogo difícil. Resta-nos provar o melão. Daqui a seis meses saberemos de que qualidade saiu.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Montenegro e o ambidestro Luís Neves

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião