O frágil ecossistema do bom senso
A derradeira pergunta na adoção de tecnologias não é se preferimos um problema ou a sua solução (como no marketing), mas com que problemas preferimos viver (como na vida real).
Nestes dias, com a inteligência artificial a entrar em quase todos os debates, artigos e anúncios de fiambre, temos uma capacidade básica em risco. Poderemos ter outras, mas esta vale a pena classificar como espécie protegida, porque perdê-la é também prescindir dessa espécie do género “jurista” que dá o nome a esta revista.
Já percebemos que um(a) bom(a) advogado(a) é mais do que uma “máquina” do direito. Fala-se cada vez mais dos chamados soft skills, e ainda bem, porque as tais máquinas, entretanto, chegaram.
Dentre esses soft skills, o que me parece mais ameaçado pelo uso reiterado de IA no trabalho é tão difícil de definir como fácil de reconhecer. Refiro-me àquele espírito crítico agudo, àquela sensibilidade afiada ao que é razoável a que tomo a liberdade de chamar “bom senso” (não como detentor, mas como parte interessada).
Uma premissa básica do meu argumento é esta: passar o dia em frente ao computador está para a forma física como em frente ao ChatGPT (ou equivalentes) para a forma intelectual. O argumento, por sua vez, é este: (1) é de bom senso protegermo-nos desse risco; (2) se não o fizermos, de bom senso pouco nos restará.
O marketing destas ferramentas sugere que nos vão libertar das tarefas intelectuais mais básicas e aborrecidas para nos podermos finalmente concentrar nas intelectualmente mais exigentes e interessantes. Contudo, estudos recentes desafiam esta lógica: parece que os “tijolos” intelectuais de que precisamos para as tarefas mais básicas tendem a ser necessários para as mais complexas. Por outras palavras: se não nos treinarmos regularmente nas tarefas intelectualmente mais simples e repetitivas, perdemos a habilidade de realizar as mais complexas e inovadoras. Como alguém resumiu recentemente a questão: “it’s now easy to be stupid”.
No plano físico, isto é claro. Quem não se habitua a correr 100 metros, não se aguenta numa maratona. No plano intelectual, parece que o chamado “cognitive offloading” (pormos a tecnologia a pensar por nós) tem um preço semelhante.
Claro que não há aqui uma relação de causa-efeito, mas de influência-tendência. Uma pessoa que passa o dia ao computador ou a conduzir pode estar em forma física, mas tende sempre para o oposto. Por isso, tentamos compensar a sedentariedade do nosso trabalho com desporto, atividades ao ar livre, etc. A falta de forma física tem ainda a vantagem de ser visível. Mesmo assim, precisamos de disciplina, planeamento e intencionalidade.
A sedentariedade intelectual, por outro lado, é um problema mais difícil de resolver. Desde logo, como a experiência social demonstra, mascara-se de sofisticação com alguma facilidade. Por outro lado, na medida em que cria um habitat hostil ao bom senso e ao espírito crítico em geral, sufoca o seu próprio antibiótico (o espelho intelectual), subtil e lentamente.
Tipicamente, a tecnologia que resolve um velho problema tende a gerar novos como subproduto. Por isso, a derradeira pergunta na adoção de tecnologias não é se preferimos um problema ou a sua solução (como no marketing), mas com que problemas preferimos viver (como na vida real). É, por isso, urgente refletirmos abertamente sobre estes e outros riscos, e sobre as medidas que podemos usar para os mitigar, em vez de andarmos numa espécie de corrida ao ouro antes de sabermos se tocamos na mão de Midas.
Chegados aqui, talvez alguém ache a abordagem demasiado cautelosa com estas tecnologias. Com sorte, caro(a) leitor(a), talvez isso seja o seu bom senso a falar.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
O frágil ecossistema do bom senso
{{ noCommentsLabel }}