O tempo, o maior aliado do investidor
No mundo dos investimentos, o papel do tempo é decisivo. Ele tende a suavizar os extremos, a valorizar a consistência e a potenciar os retornos ao longo dos anos.
Se existe um elemento silencioso, quase invisível, mas extraordinariamente poderoso no mundo dos investimentos, esse elemento é o tempo. Frequentemente mal compreendido, subestimado ou mesmo ignorado, o tempo é, na realidade, o principal aliado do investidor paciente e disciplinado.
Ele tem o condão não só de suavizar os erros, mas também de ampliar os acertos. Embora a passagem do tempo, por sí só, não ofereça garantias, ele aumenta substancialmente a probabilidade de sucesso, assumindo-se como o verdadeiro alicerce de uma estratégia de investimento consistente e sustentável.
Num contexto em que tudo parece ocorrer a um ritmo vertiginoso, com fluxos incessantes de informação, reações quase instantâneas dos mercados e uma multiplicidade de opiniões frequentemente contraditórias, o tempo convida à reflexão serena, ao distanciamento emocional e à confiança no processo.
A arte de bem investir raramente está associada à busca do lucro rápido, mas está assente na construção de uma base sólida que, ao longo do tempo, se transforma em valor significativo.
Jeremy Siegel, um dos autores mais respeitados na área financeira, demonstra no seu livro “Stocks for the Long Run” que, entre 1800 e 1992, não existiu nenhum período de 20 anos em que o mercado de ações norte-americano tivesse registado rentabilidades negativas. Atualizando este estudo aos dias de hoje, verifica-se que o que era verdade em 1992, altura em que saiu a primeira edição do livro, continua válido em 2025. Este facto torna evidente um ponto essencial: o tempo não elimina o risco, mas reduz substancialmente a sua imprevisibilidade.
Os dados mais recentes ilustram bem esta realidade. Nos últimos 50 anos, o índice S&P 500, que reflete o comportamento das 500 maiores empresas americanas cotadas em bolsa, apresentou rentabilidades anuais que variaram entre uns impressionantes +34% e uns alarmantes -39%, num verdadeiro exercício de volatilidade.
No entanto, quando o horizonte temporal é alargado para períodos de cinco anos, essa dispersão reduz-se significativamente, situando-se entre os +26% e os -4% ao ano. Se estendermos esta análise para períodos de 20 anos, o intervalo estreita ainda mais, variando entre +14% e +4% ao ano.
Ou seja, nos últimos 50 anos e num qualquer período de 20 anos desde então, os investidores que aplicaram as suas poupanças neste mercado, obtiveram sempre uma rentabilidade média anual igual ou superior a 4%, tendo mesmo em alguns períodos de 20 anos, conseguido rentabilidades superiores a 10% por ano.
Naturalmente, rentabilidades passadas não podem ser garantia de rentabilidades futuras, mas ainda assim, estes dados reforçam uma conclusão amplamente sustentada por muitos outros estudos realizados ao longo dos anos: apesar das flutuações de curto prazo, frequentemente provocadas por pânico, euforia ou eventos imprevisíveis, o tempo é ainda o maior aliado do investidor, precisamente porque suaviza os extremos e contribui para retornos mais previsíveis e, em muitos casos, mais atrativos.
Um erro pontual pode ser compensado por uma boa decisão futura, desde que o portefólio não seja constantemente alterado ao sabor de impulsos momentâneos.
Por isso se diz, repetidas vezes, que a arte de bem investir raramente está associada à busca do lucro rápido, mas está assente na construção de uma base sólida que, ao longo do tempo, se transforma em valor significativo.
O investimento deve ser, por natureza, uma maratona e não um sprint. Apesar disso, o curto prazo continua a dominar as preocupações da maioria dos investidores. A tentação especulativa, sempre latente, alimenta a ideia de que assumir riscos acrescidos poderá colocar o investidor a apenas um ou dois negócios de distância de uma recompensa extraordinária.
Porém, a realidade demonstra que esse desfecho acontece muito raramente, pelo que resistir a essa tentação é um dos maiores desafios que o investidor enfrenta na gestão do seu património, mesmo sabendo que as boas decisões não garantem, isoladamente, bons resultados.
Isto, porque nenhum percurso de investimento está isento de erros. Mesmo os maiores investidores do mundo, como Warren Buffett ou Peter Lynch, cometeram falhas ao longo das suas carreiras. A diferença entre eles e o investidor comum passa pelo tempo dado às decisões acertadas para que estas se desenvolvessem e capitalizassem.
Um erro pontual pode ser compensado por uma boa decisão futura, desde que o portefólio não seja constantemente alterado ao sabor de impulsos momentâneos. Com o passar do tempo, o mercado tende a premiar a qualidade, a paciência e a resiliência, permitindo que investimentos bem fundamentados tenham tempo para amadurecer, para ultrapassar as crises e finalmente florescerem.
Investir com sucesso não exige genialidade. Exige disciplina, paciência e acima de tudo, tempo. O tempo corrige erros, recompensa a consistência e amplia os resultados.
Importa ainda reconhecer o papel que a sorte ou o azar pode desempenhar nos resultados, sobretudo no curto prazo. Um investidor que tenha constituído a sua carteira pouco antes das grandes crises, como, por exemplo, 2008, poderá enfrentar perdas significativas nos primeiros meses ou mesmo anos. No entanto, a manutenção de uma estratégia coerente aumenta substancialmente a probabilidade de recuperação e crescimento ao longo do tempo, como demonstram os estudos de Jeremy Siegel.
À medida que o tempo passa, o impacto de fatores aleatórios como a sorte e o azar vão-se diluindo, sobressaindo com maior clareza os efeitos das boas decisões que foram sendo tomadas.
Em síntese, investir com sucesso não exige genialidade. Exige disciplina, paciência e acima de tudo, tempo. O tempo corrige erros, recompensa a consistência e amplia os resultados. Tal como acontece com um bom vinho, os melhores investimentos revelam-se plenamente com os anos.
Num mundo que valoriza a urgência, o investidor sábio distingue-se pela serenidade. Enquanto muitos se perdem na pressa, quem compreende o valor do tempo avança com passo firme, consciente de que a consistência conjugada com o tempo continua a ser, na maioria dos casos, a verdadeira chave do sucesso.
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