Ou vai ou racha
O ano que agora se inicia tem o potencial para ser decisivo para o tipo de mundo no qual vamos viver no médio prazo.
- Esta opinião integra a 17.ª edição do ECO magazine. Pode comprar aqui.
Se o arco da História é imparável e tem um sentido bem definido, também é verdade que todo o caminho é feito de vários passos à frente e uns quantos a menos atrás, e agora também é isso que está a suceder.
O grande tema para 2026 é simples: o papel das democracias liberais no mundo. Tão só isto.
Na última década, vimos o ressurgimento de fenómenos que julgávamos ultrapassados, que se podem descrever, de forma simplista, como o regresso dos homens fortes. Os tecnocratas estão fora de moda, os humanistas são vistos como fracos, o multilateralismo é sinal de falta de decisão. Dos líderes quer-se, mais do que colaboração, empatia e educação, que seja o tipo que fala mais alto na sala. E se bater com o punho na mesa, melhor.
É a política feita bullying, numa caricatura de testosterona que, francamente, é bastante ridícula.
A questão é que a força manda muito, como sempre mandou. A diferença é que ela existia para ser educadamente insinuada e não usada, e muito menos ameaçada. Agora, de Trump a Putin, passando por Musk ou por Farage, os dias são feitos de gritaria, ameaças, flexões de músculos. Como tão bem mostrou recentemente Gianni Infantino, o inenarrável presidente da FIFA que decidiu dar um prémio da paz ao ansioso Trump, a credibilidade e a seriedade deixaram de ser ativos. Ele sabe que o mundo inteiro se está a rir da sua figura, mas a vergonha não paga contas nem favores.
Em 2026, há dois pontos fundamentais de observação que nos dirão para onde isto tudo vai. O primeiro é a guerra na Ucrânia, que António Horta Osório identifica nas páginas seguintes, e bem, como um nó górdio que é preciso desatar, mas desatar como deve ser, com uma paz que não premeie o agressor. Quanto a isto, já todos percebemos onde vai parar. Trump quer forçar o fim do conflito, e a sua estratégia é simples: desenhar planos que dão aos russos o que estes querem, e depois culpar a Ucrânia por não aceitar, como se esta gostasse de prolongar a sua luta vital. O presidente norte-americano vai fartar-se da teimosia ucraniana e vai abandoná-los à sua sorte, ou à sorte que a Europa consiga criar. A esperança é reduzida.
Lá para o final do ano, o segundo ponto, que infelizmente chegará tarde para a Ucrânia. Falo das eleições intercalares nos Estados Unidos, em novembro, nas quais os republicanos e os MAGA se vão ver confrontados, nas urnas, com o desastre das políticas seguidas no último ano. O momento decisivo será até onde Trump e os seus seguidores estão dispostos a ir para resistir, manipular e efetivamente desrespeitar a vontade popular.
Esse sim será o desafio do ano, e do seu desfecho dependerá um regresso progressivo à normalidade ou um aprofundar da distopia, na que foi a maior democracia liberal do mundo e no resto do planeta.
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