Passos de Montenegro
Passos Coelho surge com uma liberdade e uma autoridade políticas que anos de silêncio e dias de intervenção chegam para desafiar a estagnação do Regime.
A política portuguesa dava um filme indiano. No tempo entre dois Presidentes, o país escorre devagar por entre o intervalo das notícias da guerra. Aliás, a Ucrânia e o Médio Oriente sentam-se na esplanada de um café marcado pela experiência da calamidade.
O sentimentalismo invade a tournée de despedida do Presidente que sai na perfeição. O silêncio respeitoso domina os preparativos para a tomada de posse do Presidente que entra na perfeição. No entanto, o país vive politicamente a terrível coerência onde nada acontece. O Primeiro-Ministro insiste no perfil do “executor” que nada executa e menos fala. Talvez o Primeiro-Ministro se considere o executor de um testamento político em vez do protagonista do um programa político. Certo é que não se percebe o sentido do Governo nem se entende a quantidade de cargos da República que permanecem por preencher por incapacidade política de tudo e de todos.
O ciclo político está a mudar, mas a República insiste em não mudar. Parada no pântano, a República espera pelo melhor que já não vem. Há um mistério em Montenegro que se desdobra na conveniência entre dois desprezos – O desprezo pelos que o apoiam e o desprezo pelos que o criticam.
Mas a paralisia não dura tanto como parece. No intervalo entre Presidentes, o Primeiro-Ministro parece aguardar pela posse do novo Presidente da República para recomeçar o mandato com a força e a determinação reformista que toda gente subitamente exige. É a cortesia política transformada em programa político. Só que há um pormenor que o Primeiro-Ministro não antecipou no seu cálculo político mais imediato.
O silêncio de Passos Coelho em toda a campanha presidencial não foi um acto político inocente. O silêncio de Passos Coelho tão criticado por não declarar apoio entre um socialista e um populista não foi distracção diletante, mas o silêncio estudado de um sofisticado operacional político. Eleito o novo Presidente da República e perante o bloqueio das instituições do Regime, Passos Coelho surge com uma liberdade e uma autoridade políticas que anos de silêncio e dias de intervenção chegam para desafiar a estagnação do Regime. E o Regime para Passos Coelho é o Governo e é sobretudo o país.
Resolvido o drama presidencial, abre-se no espectro político a três blocos um novo espaço que ninguém ocupa porque não está identificado e porque não existe uma liderança política capaz de se apropriar desse espaço para fazer política. Os três blocos do PS, do PSD, do Chega, não têm a capacidade para construir um conjunto de alianças capaz de levar o país a outro patamar de desenvolvimento.
O país tem três blocos estanques e separados por fronteiras que funcionam no vazio político. Cada bloco pensa no seu interesse político. Cada político pensa no seu interesse partidário. E deste modo, existindo uma maioria esmagadora de direita, serve a maioria de direita para garantir a paralisia política e para estabilizar a inércia nacional. O Primeiro-Ministro acredita na negociação permanente em ziguezague político porque não tem nem a autoridade nem a coragem das convicções. O resultado é o país dominado pelo espírito de facção mais fraco e mais radical.
Nesta curva da vida do país, surge subitamente a figura e a palavra de Passos Coelho. O Primeiro-Ministro que ganhou o país, mas que perdeu o Parlamento, tem obviamente um crédito político ainda por cobrar. Longe do poder, soube construir uma influência que incomoda a convergência estática do país. Passos Coelho observa o Governo minoritário e vê no Executivo uma espécie de denegação do dever e da coragem políticas. Fazer política é mudar o estado das coisas e transformar a vida do país ao longo de um segmento de progresso que Portugal não conhece há décadas.
Na solidão longe do poder, na travessia do deserto político, Passos Coelho construiu uma autoridade e uma influência que pertencem exclusivamente à sua personalidade política. E convém sublinhar que o homem não é um oportunista nem um hipócrita porque se apresenta aos portugueses como o protagonista de um imperativo estratégico. Não existe em Passos Coelho um projecto de poder, mas um projecto de país.
No silêncio político da esquerda está o ódio político da esquerda por Passos Coelho. Convém sublinhar que durante anos Passos Coelho forneceu todo o programa político da esquerda. PS incluído. Este novo perfil de Passos Coelho não é um eco nem uma intriga nem uma sentença. Face à vacuidade geral, a palavra política de Passos Coelho representa uma contida variedade exterior e uma essencial coerência política interior. Passos pode convencer saudosistas, revanchistas e outros aventureiros, mas a sua distinção política arrisca-se a arrastar alguns milhões de portugueses.
Sonhos vulgares à parte, não quero acreditar que Portugal está condenado a um “catálogo de monstros” nem a um “manicómio de caricaturas”.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Passos de Montenegro
{{ noCommentsLabel }}