Portugal e o desafio de acumular capital
Como podemos estimular a poupança e, sobretudo, transformar essa poupança em investimento, em benefício de uma economia mais dinâmica?

- A rubrica Geração de Ideias dá voz aos distinguidos com o Prémio Professor Jacinto Nunes, atribuído pelo Banco de Portugal, e que distingue os melhores alunos da licenciatura em Economia. José Costa foi distinguido enquanto aluno da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, relativamente à edição de 2024/2025.
Portugal não tem apenas um problema de baixos salários. Tem um problema mais profundo, não consegue acumular capital de forma consistente e produtiva. E sem capital não há investimento, sem investimento não há crescimento económico sustentado e sem crescimento sustentado não há ganhos de produtividade nem aumentos reais dos salários.
Segundo o INE, a taxa de poupança das famílias situou-se em 12,5% no terceiro trimestre de 2025, um valor elevado considerando os valores históricos.
Poupar é essencial, pois constitui a nossa almofada para imprevistos e dá estabilidade às famílias, num país onde os rendimentos são baixos e a estabilidade financeira nem sempre foi garantida. Mas a poupança não pode ser um fim em si mesma, deve ser o primeiro passo para a criação e acumulação de riqueza ao longo do tempo.
Em Portugal, a maioria da poupança continua a ser canalizada para produtos tradicionais e de capital garantido, como depósitos a prazo, certificados de aforro ou, simplesmente, a sua acumulação na conta à ordem. No total, são cerca de 200 mil milhões de euros aplicados em depósitos bancários e mais de 40 mil milhões em certificados de aforro, uma fatia muito significativa do património das famílias. São instrumentos simples, familiares e seguros, e essa preferência pela segurança é compreensível. O problema é que, na maior parte do tempo, a sua remuneração não compensa sequer a inflação. O efeito é silencioso, mas persistente: cada euro poupado perde poder de compra ao longo do tempo. O que aparenta prudência transforma-se, assim, numa erosão lenta da riqueza.
Quando uma parte tão significativa da poupança permanece concentrada em instrumentos de baixo risco e baixa rentabilidade, deixa de cumprir a sua função essencial numa economia moderna, que é a de financiar investimento produtivo. Empresas que pretendem crescer e inovar precisam de capital. Num país onde a poupança das famílias raramente chega ao mercado de capitais, esse financiamento depende sobretudo do crédito bancário ou de investidores estrangeiros, tornando a economia mais dependente e limitando a sua capacidade de crescimento.
O desafio não está na prudência dos aforradores, mas na forma como o sistema financeiro, a educação e os incentivos económicos canalizam essa poupança.
A fraca cultura de investimento em Portugal é um problema complexo com raízes culturais profundas, o que o torna particularmente difícil de resolver. Começa, muitas vezes, nos baixos salários que dificultam a criação de poupança suficiente para investir, sobretudo num contexto de elevado custo de vida e da habitação. Alarga-se depois a uma literacia financeira historicamente limitada. A educação financeira só começou a ganhar espaço nos últimos anos e muitas pessoas nunca tiveram contacto com conceitos básicos de poupança e investimento. Num estudo publicado em 2024 pelo grupo de reflexão Bruegel, Portugal surge na penúltima posição entre os 27 países da União Europeia em matéria de literacia financeira, revelando as fragilidades e os desafios que o país ainda enfrenta neste domínio.
Outro fator importante é a memória das crises financeiras e empresariais pelas quais passou o nosso país. Casos mediáticos envolvendo bancos ou empresas cotadas, como o colapso do Banco Espírito Santo, tiveram um impacto profundo na confiança dos pequenos investidores no mercado de capitais. Para muitas famílias, estes acontecimentos reforçaram a ideia de que investir é perigoso, levando-as a preferir a segurança dos depósitos ou a concentrar a poupança no investimento imobiliário.
Ainda temos, por isso, um longo caminho a percorrer. A mudança terá inevitavelmente de começar pela educação, criando um ensino que dê aos jovens as bases necessárias para tomarem decisões financeiras mais informadas. Mas o desafio não se limita às gerações mais novas. Para muitos portugueses em idade ativa, será igualmente importante promover campanhas de esclarecimento e literacia financeira que permitam transformar a poupança em investimento de longo prazo.
Neste esforço de promoção de melhores hábitos de poupança e investimento, as instituições financeiras têm também um papel importante a desempenhar.
Desmistificar o investimento exige mais do que disponibilizar produtos financeiros. Exige torná-los compreensíveis, acessíveis e ajustados ao perfil de risco de cada investidor.
Isso passa, desde logo, por melhorar a qualidade dos produtos oferecidos, quer em termos de estrutura de comissões, quer de retorno para o investidor. Num mercado pequeno como o português, onde a escala é limitada, esse desafio é particularmente exigente, mas continua a ser essencial para reforçar a confiança. A par disso, é importante uma maior transparência na comunicação dos riscos e das características dos produtos, bem como campanhas de literacia financeira eficazes. Só assim será possível transformar a poupança em capital produtivo e criar hábitos de investimento mais sólidos ao longo do tempo.
Algumas iniciativas a nível europeu apontam já nesse sentido. A estratégia da União de Poupanças e Investimentos, promovida pela Comissão Europeia, tem discutido mecanismos para incentivar a poupança de longo prazo, incluindo modelos de inscrição automática dos trabalhadores em planos complementares de pensões. Em Portugal, seria interessante ver mais empresas a disponibilizar este tipo de instrumentos aos seus trabalhadores.
Para finalizar, há dois aspetos que não podem ser ignorados neste debate: a fiscalidade e o desenvolvimento do mercado de capitais português.
No plano fiscal, a recente iniciativa do Governo de reduzir a taxa aplicada às mais-valias de investimentos de longo prazo, prevendo uma isenção de 30% para ativos detidos por mais de oito anos, o que corresponde a uma taxa efetiva de 19,6%, é um passo positivo no sentido de incentivar o investimento prolongado. Ainda assim, a taxa de 28% aplicada a juros e dividendos continua elevada.
Também o mercado bolsista português enfrenta desafios estruturais. O índice PSI tem vivido um período particularmente favorável, atingindo máximos que não eram observados desde antes da crise financeira. Apesar deste momento positivo, o mercado ainda continua pouco profundo, com poucas empresas a comporem o principal índice bolsista português. Num país com uma economia de pequena dimensão, a liquidez é um fator crítico e a reduzida base de investidores limita o recurso das empresas ao financiamento através da bolsa.
O verdadeiro desafio para o futuro de Portugal será transformar a poupança em investimento produtivo, capaz de gerar riqueza duradoura e sustentar o crescimento da economia.
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