Editorial

Qual é o maior risco da Kristin? A destruição da capacidade instalada das empresas

Os efeitos da Depressão Kristin têm vários riscos, o maior de todos é mesmo a destruição da capacidade produtiva das empresas da região Centro.

A economia está preparada para aguentar as consequências da Depressão Kristin? A pergunta é incómoda e a resposta é difícil, pelo menos no curto prazo, enquanto se fazem as avaliações dos estragos e os seus efeitos na atividade económica das empresas. E há efeitos contraditórios, que até podem fazer crescer o PIB nos próximos trimestres, mas escondem uma estrutura empresarial mais frágil.

Ao fim de quase uma semana, já são mais claras as dimensões da catástrofe. Ao contrário dos incêndios em Pedrógão, felizmente a perda de vidas humanas foi incomparável, e talvez isso explique como se demorou tanto tempo a perceber o que estava em causa. Isso e ter ocorrido fora da Grande Lisboa ou do Grande Porto. Foi na região centro, mas os estragos na estrutura produtiva de uma região exportadora, e que vale cerca de 20% do PIB, foram igualmente significativos

Há fábricas destruídas, maquinaria incapaz de funcionar, produção danificada e, sem água ou eletricidade, empresas que resistiram aos estragos mas estão paralisadas por falta de condições mínimas. Perante este cenário, os empresários contabilizam os prejuízos diretos, mas também os indiretos, ou seja, aqueles que ocorrem por não conseguirem exportar ou perderem lugar nas cadeias de abastecimento.

Há um plano de apoios públicos, avaliado em 2.5 mil milhões de euros, e uma primeira estimativa do ministro da Economia, a apontar para um custo de dois mil milhões, embora sem discriminar o que está em causa nestes valores. E os efeitos na economia?

A Grande Repórter Ânia Ataíde fez a pergunta, num especial que pode ler aqui: A Depressão Kristin vai fazer abrandar o crescimento e afetar as contas públicas? As primeiras respostas não são desanimadoras, é o que se pode dizer neste momento. Os economistas consultados pelo ECO acreditam, para já, na resistência da economia na globalidade do ano e descartam que os apoios sacrifiquem o ligeiro excedente.

Os efeitos, no curto prazo, até podem puxar pelo PIB. A reconstrução, a avançar, vai puxar pela atividade, e compensar a perda de negócio decorrente dos estragos. Mas há uma questão mais funda, e perigosa: A reconstrução e recuperação das empresas, o risco de destruição de uma capacidade instalada naquela região tão relevante do ponto de vista industrial.

As seguradoras estão a acelerar as indemnizações, os bancos comerciais estão a acelerar as linhas de crédito abertas pelo Banco de Fomento, a solidariedade funcionou e está a funcionar para ajudar famílias em desespero, há apoios públicos como os lay-off e as moratórias. Mas é crítico garantir que as empresas recuperam a atividade, desde logo nas suas infraestruturas físicas.

Quando uma fábrica fica sem teto, quando uma linha de montagem para, quando uma subestação cai, não estamos apenas a falar de prejuízos, estamos a falar de capacidade produtiva que se evapora. Isso não entra diretamente no PIB, mas entra na vida real da economia, porque reduz oferta, atrasa exportações, rompe contratos, empurra empresas para fora das cadeias de valor internacionais e pode transformar um choque temporário numa cicatriz permanente.

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