Quando os factos já não chegam

  • Diogo Carvalheda
  • 7 Julho 2026

Numa era em que todos comunicam, opinam e produzem conteúdo em permanência, os factos científicos deixaram de ser suficientes para mobilizar a opinião pública e os decisores políticos.

A transição energética enfrenta hoje um desafio que vai muito além da tecnologia, do licenciamento ou do investimento: o desafio da informação.

Numa era em que todos comunicam, opinam e produzem conteúdo em permanência, os factos científicos deixaram de ser suficientes para mobilizar a opinião pública e os decisores políticos. A polarização crescente e a disseminação de desinformação fazem com que a evidência técnica muitas vezes se perca no ruído ou não consiga competir com mensagens mais emocionais, simplificadas ou alarmistas.

Grande parte desta mudança resulta da transformação digital dos últimos anos. O acesso à tecnologia, à informação e às ferramentas de criação de conteúdo alterou radicalmente a forma como consumimos e partilhamos conhecimento: qualquer pessoa pode assumir-se como especialista sobre qualquer tema, independentemente da sua preparação técnica ou científica. Ao mesmo tempo, num ambiente rápido e fragmentado, diminuiu a disponibilidade e a responsabilidade de verificar factos e fontes.

A resposta não passa apenas por repetir mais dados, estudos ou relatórios. A desinformação raramente se combate apenas com informação técnica. Combate-se criando confiança, proximidade e compreensão.

No caso da transição energética, isso implica simplificar a linguagem utilizada e aproximar o debate das pessoas e das suas preocupações reais. É essencial evoluir de uma narrativa exclusivamente técnica, que acaba por ser elitista, para uma abordagem mais clara, transparente e orientada para resultados.

Mais do que responder à desinformação, é necessário construir uma narrativa positiva, baseada na criação de oportunidades, competitividade, inovação e prosperidade, até porque a realidade mostra que, mesmo num contexto de crescente ruído mediático e disseminação de informação falsa ou simplificada, a opinião pública continua disponível para apoiar a transição energética quando esta é comunicada de forma evidente e próxima das pessoas.

De acordo com uma sondagem realizada pela Marktest para a APREN, o apoio da população portuguesa aos projetos de energias renováveis continua a ser muito expressivo: 95% dos cidadãos afirmam apoiar projetos renováveis nas suas comunidades locais.

Entre os principais benefícios identificados destacam-se a redução dos custos da eletricidade e o contributo para a ação climática. Além disso, 91% dos inquiridos defendem um reforço do investimento em energias renováveis. O estudo mostra também que este apoio depende, e bem, de fatores como a confiança e o envolvimento das comunidades locais, e que o apoio varia de município para município e também de acordo com os impactos em questão.

Isto demonstra que comunicar melhor já não é apenas uma questão reputacional. É uma condição essencial para garantir a concretização da transição energética. Esse esforço não pode ser individual nem isolado, antes comum, coordenado e contínuo, envolvendo empresas, associações, reguladores, academia, entidades públicas, decisores políticos e sociedade civil. No final, a transição energética não se faz apenas com megawatts ou inovação tecnológica. Faz-se também com colaboração e diálogo.

  • Diogo Carvalheda
  • Coordenador de Comunicação da Associação Portuguesa de Energias Renováveis

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