Sabotagem deriva de sabot
O balde dos portugueses não precisa de ser tapado, porque os que não subirem tratarão de puxar o que tentar fugir. Tudo isto serve como metáfora para Portugal.
Sou aluno da Nova SBE e respeito o trabalho que lá se desenvolve. Isso não significa que perca o meu sentido crítico, sendo perfeitamente capaz de lhe apontar também defeitos ou vícios. Porém, a verdade é que se afirmou como um polo educativo capaz de atrair professores e alunos de todo o mundo, mostrando que com visão e ambição é possível criar projetos relevantes à nossa escala europeia.
A decisão do reitor Paulo Pereira é evidentemente direcionada, e as palavras “inveja” e “capricho” de Pedro Santa Clara não são deslocadas. O cerne da questão é evidentemente irrelevante: a SBE não deixou de ser Faculdade de Economia e não se vê o sentido prático de obrigar a que andem de mãos dadas.
Parfois, Navigator, Lion of Porches são marcas portuguesas de sucesso. Certamente não foram unicamente os seus nomes ou sonoridade estrangeira que fizeram delas prósperas, mas a criação de uma marca internacional é também por isso ajudada. São empresas menos portuguesas por isso? Talvez Bacelar Gouveia ache que sim.
Na Nova SBE as aulas são lecionadas em inglês desde a licenciatura. Por ter estudado na FEP, não me sinto conceptualmente menos preparado, talvez pelo contrário. Contudo, também é claro que os meus colegas da SBE têm uma estaleca que nós não adquirimos na prática do inglês, língua de que precisamos para qualquer emprego. É um trade-off, uma escolha, e no caso da SBE tem colhido frutos.
Não consigo dissociar esta discussão da de há uns meses, em que o mesmo Bacelar Gouveia se revoltava com a contratação de professores pela SBE, que apenas estabelecia o inglês como requisito linguístico. Mas alguém acha sensato que se recuse um doutorado de Princeton ou de Harvard porque não fala português? Esta escola de pensamento, uma espécie de “orgulhosamente sós” moderno, sim.
É evidente que há questões relevantes que se podem colocar ao projeto da Nova SBE. Se é sabido que são os estrangeiros que pagam as contas, os nacionais não podem ser marginalizados. Seria também importante perceber se há portugueses com mérito a ficar de fora dos mestrados pelo seu custo, porque é certo que as bolsas não chegam. Agora, pegar no inglês?
Tudo isto não deixa de ser simbólico. Aliás, o mesmo se aplica à própria ameaça de saída da universidade. A marca não deixará de ser SBE, o reitor conseguiu animar as suas bases eleitorais e a faculdade aproveitou tudo isto para promoção. Como diria Lampedusa, “é preciso que tudo mude para que tudo se mantenha”. Mas ninguém disse que o simbolismo não importava.
A nossa pequenez é irritante. Certamente todos conhecerão a anedota dos caranguejos: O balde dos portugueses não precisa de ser tapado, porque os que não subirem tratarão de puxar o que tentar fugir. Tudo isto serve como metáfora para Portugal. Funcionamos assim, mas não deixa de ser pacóvio. Se este saloísmo linguístico soubesse que sabotagem deriva do francês sabot, talvez percebesse a fina ironia da sua mesquinhez.
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