Sustentabilidade: Resiliência e previsibilidade
A sustentabilidade extravasa claramente a dimensão de obrigação ética, impondo-se como fator crítico de sobrevivência das empresas e de desenvolvimento da economia.
Se tivéssemos de identificar uma palavra para sintetizar a forma como perspetivamos a construção de uma realidade que consiga responder aos múltiplos e complexos desafios com que nos deparamos, “sustentabilidade” seria, seguramente, uma escolha acertada.
Ao longo dos últimos 25 anos, Portugal testemunhou uma transformação profunda na abordagem à sustentabilidade. De um conceito emergente, frequentemente visto como questão periférica e algo limitada à dimensão filantrópica e à conformidade ambiental operacional, evoluímos para uma prioridade estratégica, impulsionada por uma consciência coletiva ambiental e social crescente. A sustentabilidade, que continua assente em ideias nucleares como “Ética”, “Responsabilidade” e “Compliance”, é hoje (como sempre foi), cada vez mais indissociável de “Criação de valor”, “Gestão de Risco” e “Resiliência”.
No imprevisível mundo em que vivemos, em que a resiliência, a cooperação e a adaptação são bens maiores e indispensáveis ao sucesso das organizações, a sustentabilidade tem a singularidade de contribuir para o encontro destes diversos domínios. Estando presente no nosso quotidiano e, consequentemente, no negócio das empresas, extravasa claramente a dimensão de obrigação ética, impondo-se como fator crítico de sobrevivência das empresas e de desenvolvimento da economia.
A salutar pressão da sociedade civil, a evidente perceção dos riscos climáticos e sociais e do seu impacto e o ambicioso plano da União Europeia para as Finanças Sustentáveis, com o quadro legal e regulamentar por ele originado, vieram impulsionar a relevância da sustentabilidade. Assistimos à integração gradual de critérios ESG (Environmental, Social and Governance) nas estratégias das empresas e nas suas propostas de valor, com o setor financeiro, percebendo que as empresas com posturas complacentes tendem a desaparecer, a reconhecer a sua centralidade no financiamento de projetos ambiental e socialmente sustentáveis e na gestão dos riscos associados à transição e adaptação climática.
A sustentabilidade constitui um pilar nuclear da nossa estratégia, um imperativo de negócio, uma oportunidade de crescimento e um fator de previsibilidade. A procura por produtos financeiros sustentáveis tem aumentado, sendo a digitalização e os progressos tecnológicos importantes aliados na inovação da oferta e dos canais de distribuição, ao mesmo tempo que promovem a transparência, a eficiência na medição do impacto e a obtenção de dados essenciais à avaliação de projetos com uma lente ESG.
Apoiados nas competências de sustentabilidade, estamos a contribuir para o crescimento económico, apoiando famílias e empresas na transformação e promoção de modelos de desenvolvimento mais robustos que, fomentando a criação de riqueza e a sua equilibrada e justa distribuição, respeitem o planeta e a biodiversidade, garantindo a dignidade humana e sistemas sociais justos, plurais e inclusivos.
Olhando o futuro temos consciência que os desafios são grandes, mas é com entusiasmo que o vemos também com múltiplas oportunidades. Se a mitigação e adaptação às alterações climáticas, a adequada inclusão da inteligência artificial nos modelos de produção e a redução das iniquidades num contexto de desequilíbrio demográfico são prioridades, a resiliência das infraestruturas, a gestão eficiente da água, a continuidade do processo de transição energética são também eixos de atuação cruciais para Portugal. O financiamento desta transição exigirá um esforço conjugado entre os setores público e privado, acompanhado de uma profunda mudança cultural. Num ecossistema legal e regulatório que tarda em estabilizar, o rigor dos dados e das métricas que permitam tomar decisões informadas é fundamental para evitar o ‘greenwashing’ e garantir a fiabilidade de todo o processo de financiamento.
A nossa ambição para 2050 é clara: queremos ser um catalisador para um Portugal mais sustentável, mais justo e mais próspero. Isso significa continuar a inovar em produtos e serviços financeiros que apoiem a economia circular, a energia renovável e a gestão sustentável de recursos. Significa também continuar a investir na literacia financeira e apoiar a capacitação das empresas para que possam integrar a sustentabilidade nos seus modelos de negócio e assegurar a robustez dos planos de transição. Estamos comprometidos em ser um parceiro ativo no desenvolvimento de empresas mais resilientes, no suporte a comunidades mais inclusivas, unidos na construção de uma economia que valorize o capital natural e social.
A jornada que temos pela frente é desafiante, mas, tal como a personagem principal do romance “O Homem que Plantava Árvores” nos desafia a transformar o mundo através do que está ao nosso alcance fazer, estou convicto de que se cada um de nós não se resignar perante as modas e as contrariedades do momento, seremos capazes de construir as fundações de uma cultura de desenvolvimento sustentável para Portugal. Assumimos responsabilidade de protagonista e de parceiro nesta transformação, visando um crescimento económico indissociável do bem-estar das Pessoas e da proteção do Planeta.
Nota: esta é uma coluna sobre os últimos e os próximos 25 anos da sustentabilidade, no âmbito do 25.º aniversário do BCSD Portugal e que pretende trazer conteúdos ligados a esta temática por personalidades de reconhecida influência empresarial ou académica.
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