Candidato que o PS se mostrou reticente em apoiar superou o recorde do fundador do partido. Ambiente foi de festa nas Caldas da Rainha, enquanto o silêncio marcou a noite de Ventura em Lisboa.
Quando, em 2024, Pedro Nuno Santos aventou o nome de António José Seguro como uma das figuras que reunia as condições para uma candidatura presidencial na área socialista, o PS encolheu-se e o então secretário-geral depressa se retraiu enquanto no partido se cotavam outros notáveis. Dois anos depois, contra as expectativas do próprio partido, após um longo caminho solitário, Seguro subiu no domingo à noite ao púlpito instalado no seu ‘quartel-general’ para proferir a frase que, até há poucos meses, poucos acreditavam possível: “serei um Presidente de todos os portugueses”.
Ainda as primeiras projeções não tinham saído e o ambiente já era de festa no Centro Cultural das Caldas da Rainha, escolha do candidato para a noite eleitoral da primeira e da segunda volta. A pouco e pouco, anónimos e menos anónimos — como o caso de Ana Mendes Godinho, Ana Jorge, João Soares, Miguel Costa Matos, José Abrãao — começavam a compor o espaço e o burburinho era de confiança nos resultados do candidato que na reta final da campanha já discursava como Presidente.
Os resultados da primeira volta e as sondagens da última semana deram o ânimo necessário e os números da abstenção — que contrariaram os prognósticos mais negativos — fizeram o resto. Às 20 horas, quando as televisões transmitiram as primeiras projeções a sala explodiu em alegria, cânticos e festejos.
Em 2014, António José Seguro entrava na história do PS como o secretário-geral que perdeu para António Costa a liderança do partido por cerca de 68% contra 32%. Agora, 12 anos depois, fica numa história maior, a da democracia, ao ser eleito Presidente da República com o maior número de votos de sempre, superando os 3.459.521 de Mário Soares, fundador do PS, no sufrágio de 1991.
Quando as televisões mostraram os números que apontavam para uma vitória de Seguro contra Ventura de 66,8%-73% para 27%-33,2%, houve quem não deixasse de reparar na coincidência face aos resultados com Costa, com a diferença que a sorte agora sorria ao homem que, desde 2014 esteve, praticamente afastado dos holofotes.
Pouco depois, o vencedor da noite entrava sorridente no Centro Cultural, dirigindo-se a uma pequena sala onde, acompanhado da família, aguardou que o adversário reconhecesse a derrota. Foi aí que também recebeu o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, que sublinhou que a vitória do antigo líder socialista é pessoal: “É de António José Seguro, da sua coragem, avançou sozinho, com estimativas eleitorais muito baixas”.
“António José Seguro foi secretário-geral do PS e é uma grande alegria que um antigo secretário-geral chegue à Presidência da República. O PS espera que o Governo compreenda este momento importante, esta mensagem de estabilidade, em que dois terços dos portugueses mostraram-se a favor dos valores constitucionais”, afirmou Carneiro.
Mas, apesar do manifesto, não ficou para ouvir o discurso do Presidente eleito após, dos mais de 11 milhões de inscritos para estas eleições presidenciais, mais de quase 3,5 milhões terem votado em Seguro, com André Ventura a obter mais de 1,7 milhões de votos.
Depois de José Luís Carneiro abandonar o ‘quartel-general’ e de André Ventura fazer o discurso de derrota, ao som de “Seguro Presidente” e aplausos, com os apoiantes munidos de cachecóis e bandeiras, o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa entrou finalmente no auditório distribuindo cumprimentos, numa euforia contida. A partir daí, vestiu o fato de Presidente e deu as pistas para o que se segue, nomeadamente que a promessa de “cooperação institucional” é para cumprir — e que, por si, a legislatura chega ao fim –, ao mesmo tempo que avisava que será fiel ao seu próprio estilo.
Os apoiantes festejavam, Seguro sorria e a noite terminava. À saída, porém, apesar da vitória, um casal comentava com o ECO o quão serenos se encontravam mais do que pela vitória do novo Presidente, pela derrota de Ventura. É que, argumentavam, “o mais importante era a democracia” (e concediam: “foi uma boa vitória, mas seria igual contra qualquer candidato que estivesse contra o Ventura”).

Grito por São Bento abafa silêncio da derrota em Belém
Mais a sul, em plena capital, André Ventura teve uma noite diferente daquelas a que estava acostumado e às quais habituou os seus apoiantes: silenciosa, de (muitas) cadeiras vazias, bandeiras pousadas ou caídas pelo chão e uma entrada pela porta traseira. Diante dos primeiros resultados, o candidato apoiado pelo Chega optou por escapulir-se dos holofotes, entrando no quartel-general pela garagem, enquanto esperava para perceber se teria conquistado mais votos ou maior percentagem do que Luís Montenegro nas legislativas.
Já tinha assumido publicamente a derrota, à saída da missa – essa sim, habitual – portanto só lhe faltava perceber qual seria a vitória que tinha conquistado neste domingo. Só perante a confirmação de que havia conseguido mais, aproximadamente, dois pontos percentuais do que a Aliança Democrática é que pisou o palco do hotel Marriott.
Até lá, os apoiantes esperaram-no durante várias horas em silêncio, numa tranquilidade pouco característica do seu eleitorado. Depois de uma primeira volta onde a campanha estava animada, unida, a cantar em uníssono a aclamar pelo candidato, este domingo chegou a ‘depressão’… Seguro.

A sala de conferências estava preparada para receber mais de uma centena de pessoas, mas o espaço de trás permaneceu vazio durante toda a noite. Mesmo quando as televisões transmitiram as projeções, os apoiantes de André Ventura, de indumentárias e faixas etárias bastante diversas, mantiveram-se imóveis e em silêncio absoluto.
Alguns minutos depois, comentavam entre si que “as eleições deviam ter sido adiadas”. Numa audiência maioritariamente masculina, comentou-se que os resultados não causaram surpresa. “Não altera nada o meu estado de espírito e disposição, mas é difícil combater isto assim”, ouvia-se. Mais à frente, outro apoiante visivelmente frustrado: “Anda uma pessoa a pagar impostos para as pessoas tomarem estas decisões”. Por entre o salão, encontrámos um ucraniano que não percebia nem falava português fluentemente, mas pedia “mudança em Portugal”. Outros mantiveram-se a maior parte do tempo junto ao bar, onde um grande ecrã transmitia o jogo entre o Benfica e o Alverca, para o Campeonato.
Só por volta das 22h30, quando o megafone anunciou que André Ventura estava prestes a discursar, é que se sentiu a energia costumeira da sua claque. “Ventura segue em frente tens aqui a tua gente”, gritaram quando o líder do Chega aludiu ao caminho até São Bento.
“Mesmo não vencendo, este partido, esta força, teve o seu melhor resultado de sempre. Tivemos o melhor resultado de sempre da nossa história”, começou por dizer André Ventura, o que motivou uma maré de aplausos. “Olhando para o resultado desta noite, em que superámos a percentagem da AD nas últimas eleições legislativas, é justo dizer que, não tendo vencido estas eleições presidenciais, os portugueses nos colocaram no caminho para governar este país”, garantiu o adversário de António José Seguro na segunda volta destas presidenciais.
Numa mescla de papéis entre candidato apoiado pelo Chega e líder do Chega, André Ventura destacou a subida “de 30%” dos votos em relação à primeira volta, os mais 300 mil votos do que nas últimas legislativas e o facto de ter ultrapassado os 31% de votos que a AD teve quando Luís Montenegro foi eleito primeiro-ministro em 2025. Para trás ficou qualquer menção ao facto de não ter arrecadado mais votos (em número) do que o atual primeiro-ministro, até porque “os compatriotas ainda escolheram ainda o caminho da continuidade”, referindo-se ao “bipartidarismo” com a escolha do socialista para Chefe de Estado.
André Ventura falou ainda para a emigração, que lhe deu vantagem. Além dos cumprimentos institucionais, o candidato apoiado pelo Chega enalteceu a mobilização da diáspora: “Hoje, apesar de todas as circunstâncias, apesar de os fazerem andar milhares de quilómetros, voltaram a ser o nosso farol”. Lá fora não sabemos como foi a festa, mas em Lisboa o salão foi ficando vazio ainda não tinham batido as 12 badaladas.

Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
A noite (de festa) em que Seguro se tornou o Presidente mais votado de sempre
{{ noCommentsLabel }}