A Startup Leiria aproveitou o regresso da energia e das comunicações para abrir as portas a todas as empresas que precisavam de uma base. Conheça as histórias de cinco dessas empresas.
Chegamos a um dos polos da Startup Leiria menos de uma semana depois da passagem da depressão Kristin pela região, mas a chuva continua a cair, inclemente. No edifício do Mercado de Leiria, quem nos abre a porta é Vítor Ferreira, de 47 anos, o diretor-geral da Startup Leiria, que juntamente com os colegas teve a ideia de disponibilizar espaço e recursos numa altura em que muitas empresas viviam em confusão total.
“É o mínimo que podemos fazer, não é?”, justifica Vítor Ferreira. “Há muita gente que, do ponto de vista pessoal, tem a sua participação cívica. Por exemplo, o Bruno [Ramalho], meu responsável financeiro e de projetos, anda a arranjar telhados todos os dias, porque ele tem algum jeito nessa área. Cada um de nós, do ponto de vista pessoal, faz o que pode, mas nós como organização, não podíamos ir arranjar telhados, não podíamos dar dinheiro diretamente às pessoas, pensámos que a única forma de contribuir e mais rápida era esta: abrir as portas para que toda a gente que perdeu as instalações, não tem internet, não tem energia, pudesse trabalhar.”
Nós como organização, não podíamos ir arranjar telhados, não podíamos dar dinheiro diretamente às pessoas, pensámos que a única forma de contribuir e mais rápida era esta: abrir as portas para toda a gente que perdeu as instalações.
O abalo foi na noite de 27 para 28 de janeiro, terça para quarta, e os estragos também se fizeram sentir no edifício, ao nível de parte da cobertura. Porém, sem impedir a utilização pelo que, quando a energia voltou, já na sexta-feira, foi tomada a decisão de acolher quem precisasse de uma ligação para trabalhar.
Face ao volume habitual dos utilizadores do espaço, a Startup Leiria recebeu mais 180 pessoas, de empresas associadas mas também de outras que souberam da possibilidade e pediram “abrigo”. Sítios para sentar, energia, telecomunicações, tudo sem custo. “Estamos a ajudar, a receber as pessoas. Como é óbvio não cobramos nada”, diz Vítor Ferreira. E não só empresas, até trabalhadores da Segurança Social estão a tirar partido do espaço, devido a danos no seu habitual local de trabalho. E isso cria um mix curioso de pessoas, misturando jovens empreendedores com gente com outra experiência e outra forma de trabalhar. “Obviamente que há de haver aqui pessoas que nem sequer sabem o que é que nós fazemos. Temos cá pessoas da Segurança Social que não sabem o que é que a gente faz. E até a propósito disso, vamos lançar um flyer para dar às pessoas que aqui estão a dizer o que é a Startup Leiria.”
Para já, a grande preocupação — extensível a todos com quem falámos — é as áreas industrial e agrícola porque, apesar de tudo, os serviços tendem a conseguir recuperar mais facilmente. Vítor Ferreira admite as dificuldades mas não tem dúvida que a região voltará a ser forte. E porquê? Pelas pessoas.
“Leiria já era uma terra de empreendedores antes de o empreendedorismo ter esse nome. Aqui havia gajos que criaram uma empresa na garagem, compravam uma máquina de CNC, um torno mecânico, iam para os Estados Unidos vender moldes sem saber falar inglês e faziam negócios”, diz. E ilustra com a sua experiência: “Eu sou de Coimbra, uma terra onde ser empreendedor não é cool. Advogado, professor, médico, isso é que são as profissões como deve ser em Coimbra. Um empresário é um pato bravo, como se dizia em Coimbra. Aqui, não, aqui o espírito empreendedor sempre foi bem visto.”
E lá seguiu ele, a ver se as empresas ali instaladas precisavam de alguma coisa. Conheça a seguir algumas das suas histórias.

Cortar árvores para chegar à porta e levar os servidores para casa do administrador
A Arentia é uma empresa de consultoria em software de gestão e tecnologia em geral, com ligação estreita à área industrial. Rui Vitorino, o administrador que falou ao ECO na Startup Leiria, lembra os primeiros momentos após o ataque da Kristin. De início, nem conseguiam chegar à empresa. “Não se conseguia lá chegar. Só ao final do dia que conseguimos abrir o caminho para lá, a cortar árvores que caíram”. Depois do agrado em ver que as suas instalações não tinham sido muito afetadas, a má notícia: não havia energia.
De imediato, foi criado um plano para continuar a funcionar. As pessoas que não conseguiam trabalhar remotamente das suas casas vieram para a Startup Leiria, onde a Arentia já tinha uma sala. Foi preciso, ainda assim, pedir mais espaço, porque ali não cabiam todos os que precisavam de uma base para trabalhar. Quanto aos servidores, a solução também foi criativa: “deslocámos para casa, neste caso para a minha casa, a infraestrutura mínima de servidores”, porque aí havia energia.
Há pessoas que têm os seus próprios dramas para resolver e a empresa também tem dado esse espaço. Neste momento, se calhar, estamos a falar de umas dez casas, no máximo, com urgência de reparo.
A empresa distribuiu à volta de 30 pessoas por dois espaços da Startup Leiria, mas houve trabalhadores que tiveram de atender primeiro a emergências pessoais. “Há pessoas que têm os seus próprios dramas para resolver e a empresa também tem dado esse espaço. Neste momento, se calhar, estamos a falar de umas dez casas, no máximo, com urgência de reparo.”
Aquando da conversa com o ECO, a atividade estava minimamente normalizada, com tendência para melhorar nos dias seguintes. E as pessoas têm ajudado. “Acho que toda a gente percebe a importância e o momento que estamos a viver e, portanto toda a gente quer contribuir da forma que possa. E toda a gente percebe que é importante que a empresa também se mantenha, até porque temos muitos clientes que também não estão nesta zona afetada, que têm de ser servidos. Apesar de todos tolerarem e compreenderem, mas há coisas que têm que ser resolvidas. Podendo, tem que se continuar.”
“Acho que as pessoas estão a encarar isto com um espírito de missão e que temos que levar isto para a frente e com um espírito positivo, obviamente”, afirmou, com um discurso sempre tranquilo.

Traumas de crianças e sacrifícios difíceis de pedir
“Foi com muito sacrifício pessoal das pessoas que a empresa se manteve ligada, eu tenho consciência disso. Eu pedi algumas coisas a pessoas que se calhar nem é justo o que eu lhes pedi.” As palavras amarguradas são de Fernando Amaral, presidente da Alidata, empresa de software do grupo Sendys que, das 150 pessoas, tem quase metade na região de Leiria.
“Nós temos ao volta de 10 mil implementações a nível nacional, somos a maior empresa produtora de software. O nosso stock são pessoas sentadas nestas cadeiras a debitar. Claro que neste momento não podem debitar nada. Ou não podem creditar nada pelo que devem debitar os clientes. E isto paralisa-me completamente o negócio”, explica, acrescentando que “nós temos uma linha de helpdesk que dá suporte a centenas de clientes, a milhares de utilizadores”, a quem é preciso continuar a responder.
Mas, primeiro, foi preciso estabilizar a equipa. “Isto não são só 70 pessoas. Isto é um universo que se calhar tem 500 pessoas afetadas. Eu não tenho uma única pessoa na equipa que não tenha tido danos próprios. Há uns mais graves, outros menos graves, infiltrações, ou até paredes rachadas, há casas que racharam. É um nível de problemas alto. E depois coisas que nem sequer me ocorreram. Há traumas nas crianças, com os miúdos a chorarem para os pais, a dizer “oh pai, pára com isto”, referindo-se ao barulho e ao susto daquela noite.
A Alidata tem dois centros na região, em Leiria e Cernache de Bom Jardim, ambas zonas muito afetadas pela tempestade. Alguns trabalhadores, mesmo com problemas nas suas casas, levaram servidores e material sensível para as instalações em Lisboa. Outros, especializados em hardware, andam a ajudar nas reparações e não têm parado. A operação foi estabilizada e está a recuperar, mas há desafios grandes.
Pedir às pessoas para vir trabalhar…ou nós somos insensíveis, uns animais completos, ou é uma coisa que custa. Mexe com as pessoas e mexe com a vida das pessoas.
“As pessoas vêm trabalhar ainda com problemas em casa. E esse choque, às vezes custa-me estar a falar com as pessoas e saber que alguém ainda tem metade do telhado a meter água”, relata. “Isto atacou a coisa mais básica que nós temos na nossa vida, que é o nosso ninho. Qualquer passarinho quer proteger o ninho, não há nada mais básico que a nossa família. Pedir às pessoas para vir trabalhar… Ou nós somos insensíveis, uns animais completos, ou é uma coisa que custa. Mexe com as pessoas e mexe com a vida das pessoas”, conclui.
E pede que se aprenda com o sucedido, “porque as câmaras municipais são o primeiro governo. E às vezes parecem a história da cigarra e da formiga, não têm meios para estas coisas, em termos de infraestruturas, não estão muito bem preparadas para este tipo de eventos. As câmaras municipais, isto é uma crítica positiva, mas é uma crítica, estão muito preparadas para fazer festas e festivais e coisas assim, porque dá votos, comprar um gerador não dá votos“.

A La Redoute e uma forma diferente de misturar equipas
O centro da famosa cadeia de retalho à distância em Portugal é em Leiria, e os edifícios que albergam a atividade foram atingidos por projeções, partindo alguns vidros dianteiros. Uma vez entradas as rajadas de vento ciclónico, destruiu tudo o que apanhou pelo caminho, rebentando com os tetos falsos e danificando postos de trabalho e uma pequena parte do telhado. “Foi, francamente, uma grande devastação”, explica ao ECO Ana Raquel Batalha, CFO da empresa em Portugal.
Em Leiria, o grupo francês opera o negócio em Portugal mas, mais do que isso, alberga dois centros de excelência — o de contabilidade e de tecnologia — que servem toda a Europa. Em cima do fecho do mês, com a contabilidade das operações por fechar, a urgência foi encontrar forma de “sentar as pessoas num sítio onde pudessem trabalhar”.
“A primeira coisa que fizemos foi tentar procurar as pessoas, saber se estavam bem, saber como é que elas estavam do ponto de vista familiar e mesmo as casas delas. E depois pensámos no que é que nós poderíamos fazer, sendo que o edifício não poderia ser utilizado de imediato. Tive a oportunidade de falar com o Francisco [Aguiar], aqui da Startup, porque somos amigos há cerca de 30 anos e disse-lhe, ‘”o que é que eu faço, porque eu preciso sentar as pessoas e ter comunicações estáveis’. Felizmente houve esta solução de virmos para aqui”, relata.
“Disponibilizaram-nos uma sala de 60 metros quadrados onde consegui sentar 40 pessoas. Quando iniciámos trabalhos na Startup, no Polo de Santa Clara, não me apareceram 40 pessoas, apareceram cerca de 60 e tivemos um franco apoio por parte de todas as empresas startups já no edifício, que nos cederam os espaços e as salas para nos sentarmos”, agradece. E diz que há pessoas que estão a conseguir trabalhar de casa mas que até tinham vontade de se juntar aos colegas nesta nova realidade.
Nesta adaptação, houve situações curiosas, como o facto de, devido ao espaço, se sentarem juntas equipas que habitualmente até trabalham separadas. “Conseguimos juntar os vários departamentos numa sala, o que acaba por ser surrealmente positivo e divertido”, conta.
Existe muita partilha entre pessoas da mesma equipa e mesmo amigos de trabalho que estão a partilhar as suas casas uns com os outros, ou seja, conseguimos ter mini-equipas em casa uns dos outros, o que é ótimo.
Ainda há problemas, claro, sobretudo pessoais. “Tenho as equipas perfeitamente bem, as suas famílias também, mas ainda com algumas dificuldades no que diz respeito à manutenção das suas casas. Existe muita partilha entre pessoas da mesma equipa e mesmo amigos de trabalho que estão a partilhar as suas casas uns com os outros, ou seja, conseguimos ter mini-equipas em casa uns dos outros, o que é ótimo.” Não sendo a situação ideal, longe disso, “as pessoas estão francamente agradecidas e trabalhamos bem todos juntos porque tem ajudado a levar com alguma leveza estas dificuldades que nós estamos a passar”.
No dia seguinte, com parte dos edifícios certificados para uma utilização segura, já havia algumas pessoas da La Redoute a trabalharem nas suas instalações, na casa coletiva da empresa em Portugal.

Objetos a voar e conversas de café bem diferentes
Miguel Silva é sócio da HES, uma tecnológica que nasceu há 37 anos, e que tem entre as suas atividades serviços “dedicados às infraestruturas, às comunicações e todo o negócio de sistemas informáticos, e temos uma dedicada ao I&D, à investigação e desenvolvimento, também na área web, na área tecnológica”.
Tem sede na zona industrial de Vale da Colmeia, “uma zona que foi extremamente afetada”. “As naves em frente à nossa empresa, umas levantaram voo, telhados desapareceram, outra chegou a implodir, ficando pouco mais do que a alvenaria no ar. Foi destruição total. As nossas instalações foram afetadas na medida em que sofreram tanto danos exteriores visíveis, como também tem algumas partes envidraçadas, os vidros foram partidos com objetos voadores que entraram por ali dentro.”
Além dos danos físicos, o problema generalizado: não havia energia nem previsão de quando voltaria. Quando soube da hipótese aberta pela Startup Leiria, Miguel não hesitou em colocar o plano em marcha. “Quando soube dessa via e que as instalações deles estavam em boas condições de utilização e com todos os recursos, falei com as pessoas de cá e e pedi alguns lugares para a HES, logo de antemão, porque vi logo que nos ia acontecer isto, de não ter energia em tempo reduzido.”
Uns estão ali (12 dos 40), os que têm meios em casa trabalham do lar. “Outros, pela natureza dos trabalhos que estão a fazer, estão nos clientes”, explica. A operação está em marcha e normalizada, dentro das limitações.
Nós estamos todos a ajudar-nos uns aos outros. Ainda hoje mandei um carro a Lisboa para ir buscar material, e estou a trazer material para mais dois concorrentes.
E, em tempo de crise, até a concorrência se esquece. “Nós estamos todos a ajudar-nos uns aos outros. Ainda hoje mandei um carro a Lisboa para ir buscar material, e estou a trazer material para mais dois concorrentes. Só têm de ir buscar à HES quando o carro chegar. Pelo contrário, também era viável, se fosse lá um deles, eu garanto que ele trazia material para mim também.”
As pessoas adaptaram-se e algumas até preferem estar naquele ambiente e a trabalhar, para não pensar tanto nos problemas. “Enquanto estou distraído, a resolver os problemas dos nossos clientes e a solucionar coisas, estou distraído, tenho ali uma máquina de videojogos, vejo aqui pessoas, o ambiente aqui da Startup. Se vocês estivessem aqui na outra altura do ano, que não tivesse acontecido isto, o ambiente está aparentemente normal. Tem mais pessoas do que costumam estar neste universo, nesta comunidade, mas está um ambiente aparentemente normal. As histórias de café, as histórias da máquina de café é que não são as aparentemente normais“, diz.
Mas partilha alguns receios. “Algumas pessoas começam a parecer desgastadas emocionalmente. Estamos a falar de pessoas que, tal como eu, ficaram sem telhado em casa, têm filhos pequeninos, ou mesmo que não os tenham, veem as suas coisas, o seu trabalho, afetado”. E critica os especuladores sem escrúpulos, que em poucos dias triplicaram os preços de bens como os geradores ou as antenas Starlink.

Carros destruídos e salários pagos num hotel de Coimbra
António Poças foi presidente da Nerlei – Associação Empresarial da Região de Leiria de 2018 a 2024, mas é na qualidade de CEO da Incentea que nos fala. A tecnológica tem 350 pessoas, das quais cerca de 130 trabalham na região de Leiria, mas tem presença também em Lisboa, Porto, Braga e, a nível internacional, em Cabo Verde, Angola, Moçambique, Brasil, Espanha e França.
Quando a depressão Kristin bateu, o edifício na Zona industrial da Zicofa, em Leiria, foi afetado pela quebra de uma claraboia, que permitiu ao vento e sobretudo à chuva entrar nos escritórios. Ainda assim, seria possível rapidamente voltar a utilizar o espaço, não fosse a total quebra de energia. Em termos de danos mais sérios, a Incentea teve 12 carros afetados, dos quais três ficaram destruídos, pela queda de objetos. “Nada que se compare com a desgraça que temos visto noutros sítios, temos que ter noção disso”, diz António Poças.
“A primeira prioridade foi saber das nossas pessoas. A segunda prioridade foi tentar que as pessoas que temos fora de Leiria continuassem a trabalhar. E a terceira prioridade foi começar a arranjar alternativas”, mas sendo fim do mês havia tarefas indispensáveis a cumprir, no curto prazo. “No primeiro dia tivemos felicidade de conseguir fazer uma coisa que muitas empresas que não conseguiram, nós fomos para Coimbra, para um hotel, para fazer o pagamento dos salários e aos fornecedores. E conseguimos pagar tudo”, conta.
No day after, foi preciso encontrar colocação para as pessoas poderem trabalhar. Foram 15 para a Startup Leiria e 20 para as instalações da Nerlei, que também abriu as portas a empresas necessitadas. “E temos uns 80 em casa, a trabalhar de casa. E depois temos mais umas quantas que ainda estão a tratar das casas deles e dos pais”, explica o responsável.
O que eu acho é que há uma reação muito positiva no momento certo. Tivemos pessoas que claramente disseram que não podiam trabalhar e a nossa mensagem às pessoas foi, se tivessem problemas em casa, que tratassem de os resolver que não as queríamos cá.
“O que eu acho é que há uma reação muito positiva no momento certo. Tivemos pessoas que claramente disseram que não podiam trabalhar e a nossa mensagem às pessoas foi, ‘se tivessem problemas em casa que tratassem de os resolver que não as queríamos cá’. Primeiro temos que resolver o problema das pessoas e depois o resto. Depois as pessoas começaram a ter os seus problemas resolvidos e quiseram vir, porque sentem que os colegas estão a ter de trabalhar mais para cobrir pelos que não podem”, diz António Poças.
A empresa está a funcionar, mas há o receio sobre o estado emocional dos trabalhadores. “Já estamos a assistir hoje, e acho que vamos assistir nos próximos dias, a uma quebra emocional muito grande. Há pessoas muito fragilizadas com isto.”
Manifesta preocupação com empresas e clientes — sobretudo das indústrias e agricultura — que poderão ter muita dificuldade em reabrir negócio, e pede que não se perca atenção ao que é preciso ser feito. “Aquilo que o nosso Presidente da Câmara chamou o circo mediático, vai acabar. Vai acabar, daqui a uma semana não vem cá governante nenhum, como foi nos incêndios, só voltam daqui a um ano, quando fizer um ano sobre a catástrofe. Acho que daqui a uma semana estamos entregues a nós.”
E lamenta alguma falta de desconhecimento da realidade no terreno. “Ouvimos o Ministro da Economia dizer no Telejornal, a dizer que o dinheiro, aqueles 500 euros para as pessoas, será disponibilizado até o fim deste ano. E que as pessoas podem esperar porque receberam agora o ordenado deste mês. Mas há centenas de pessoas que não receberam o ordenado, não é? Isto é estar a leste do paraíso.”
E pede que, mais do que atacar as medidas anunciadas pelo governo — “que podem e se calhar devem ser melhores” —, se insista para que estejam no terreno o mais rapidamente possível e de forma clara, algo que não aconteceu, por exemplo, na questão dos lay-off.

E o futuro?
De todos estes empresários, não há um que não admita que há muita empresa que poderá não conseguir reabrir, sobretudo aqueles que dependem mais de espaços físicos, maquinaria ou matérias-primas, como a indústria em geral e as explorações primárias, como as de estufas, que perderam tudo no vento.
Mas todos são unânimes noutro ponto: de que a região vai voltar a ser o que já foi, um dos grandes motores económicos e de exportação do país. E que é preciso aproveitar esta paragem forçada para reconstruir melhor, em termos físicos mas também de negócio.
“Estas pessoas são pessoas resilientes. Acho que algumas empresas que fechem vão dar espaço para abrir outras. A miséria de uns é sempre a alegria de outros, é sempre assim“, diz Fernando Amaral, da Alidata.
Miguel Silva, da HES, pede estratégia: “Precisamos de pensar em medidas para que, a longo prazo, se veja uma linha crescente. Não é só pensar no agora, chegar aqui, mandar uns baldes de água para apagar a fogueira, mas deixar lá o carvão ainda vivo.”
Mas o ADN das pessoas é este. Isto vai continuar e nós vamos sobreviver. Se agora já não dá para fazermos chuchas fazemos biberões.
“Não tenho dúvidas de que esta região vai voltar a ser o que era. Nenhuma dúvida. Pelas pessoas, pela sua forma de ser e porque nós temos um decisivo empresarial muito diversificado, pequenas empresas, tradicionalmente muito resiliente, que se autorregenera. Morrem umas e nascem outras”, diz António Poças. Que acrescenta: “Pode demorar é um ano, se tivermos apoio, ou cinco, se não tivermos apoio. Mas o ADN das pessoas é este. Isto vai continuar, nós vamos sobreviver e renascer das cinzas e ser tão bons ou melhores do que aquilo que éramos.” E se for preciso criatividade e diversificar, a história também mostra que as gentes sabem fazê-lo: “Se agora já não dá para fazer chuchas fazemos biberões.”
Voltamos a Vítor Ferreira, o homem que juntamente com a sua equipa abriu as portas para esta verdadeira “Casa do Povo” das empresas da região. “Eu vou afirmar uma coisa polémica. Eu acho que nós vamos sair mais fortes. Eu estou convicto que, se tivermos estratégia e cooperação entre as diversas entidades, incluindo a estrutura de missão que o Governo criou, a região pode ser mais forte. Tu tens que mudar e as pessoas mudam às vezes tarde demais. E de repente há aqui uma catástrofe muito grande. Muitas empresas que não estavam a fazer vão ter que se modernizar, vão ter que procurar novos mercados, vão ter que procurar novas formas de atuação, novas cadeias de valor. Porque havia coisas que estávamos a fazer devagarinho e agora temos de ir com força”.
Ainda em fase de reparação de danos, todos sabem que há custos emocionais ainda por chegar. Mas já olham para a frente.

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Depressão Kristin. A casa das startups que se tornou na “Casa do Povo”
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