Web Summit tem muitos voluntários? No país há quase 700 mil

Os 2.700 voluntários do Web Summit fazem correr muita tinta todos os anos, mas são apenas uma pequena fatia do total nacional. Este ano, até António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa comentaram o tema.

Nem só de investidores e empreendedores vive a maior feira de tecnologia do mundo. Por detrás das cortinas do Web Summit, 2.700 voluntários ajudam no funcionamento desta máquina e, ano após ano, o trabalho gratuito é sempre um assunto polémico em torno do evento de Paddy Cosgrave. Este ano até o primeiro-ministro e o Presidente da República comentaram o tema. As atividades voluntárias não são, contudo, um exclusivo do Web Summit, nem de Portugal que, na comparação europeia, fica nos últimos lugares.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o trabalho voluntário é o
“trabalho não pago e não compulsivo, que consiste no tempo que os indivíduos dedicam a atividades não remuneradas, realizadas através de uma organização [voluntariado formal] ou diretamente em prol de outros que não pertençam ao seu agregado familiar [voluntariado informal]“. Estão excluídas deste grupo todas as atividades de voluntariado originadas por decisões judiciais, obrigatórias como parte de uma sentença de prisão, bem como estágios não remunerados que integram o currículo académico.

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), no ano passado, 695 mil portugueses com 15 anos ou mais participaram em atividades deste tipo, sendo a taxa de voluntariado total de 7,8%. O escalão etário predominante foi o dos 15 aos 24 anos (11,3%) e o nível de escolaridade mais frequente foi o ensino superior: 15,1% destes indivíduos tinham prosseguido estudos. “A participação no trabalho voluntário aumenta progressivamente com o nível de escolaridade”, acrescenta o INE.

O típico voluntário português em organizações, como o Web Summit, é portanto uma jovem (11,3% dos voluntários têm entre 15 e 24 anos; e 55% dos voluntários são mulheres), desempregada (10,5% dos voluntários não têm emprego) e com níveis de escolaridade mais elevados (15,1% têm o ensino superior), descreve o Inquérito ao Trabalho Voluntário.

Taxa de voluntariado é decrescente consoante a idade

Os serviços sociais (36,2%), as organizações de cultura, comunicação e atividade de recreio (15,7%) e da religião (15,7%) são os principais destinos do voluntário em Portugal. E as principais tarefas desempenhadas neste contexto são as equivalentes às de técnicos e profissões de nível intermédio (34,5%). Se somarmos todas as horas investidas em voluntariado, temos em mãos uma fatia de 2,9% do total de horas trabalhadas no país.

De notar, ainda, que cerca de 82% do total de voluntários realizaram este trabalho não remunerado através de uma organização ou instituição, o chamado voluntariado formal. E apesar de mais mulheres fazer voluntariado do que homens, estes últimos asseguraram um total de horas de trabalho superior (50,7% contra 49,3%).

Quando ao nível de escolaridade, a taxa mais baixa é encontrada entre voluntários sem escolaridade e a mais elevada entre os voluntários com o ensino superior, traçando-se entre estes extremos uma tendência crescente.

Taxa de voluntariado é mais elevada entre indivíduos com ensino superior

Numa análise por região, destaca-se o Norte, onde se concentra quase um terço do total de voluntários (32,4%), seguindo-se a área metropolitana de Lisboa (28,3%), o centro (25,1%), o Alentejo (6,8%), o Algarve (3,7%) e a Região Autónoma da Madeira (2%). Na base da tabela, aparece a Região Autónoma dos Açores, com a menor concentração de voluntários: apenas 1,6%.

E ainda que escasseiem dados harmonizados a nível internacional sobre esta matéria, é possível indicar que é no norte da Europa que se verificam as taxas de voluntariado mais elevadas do Velho Continente, com ênfase na Holanda (40,2%) e na Dinamarca (38,1%).

No sentido inverso, Roménia (3,2%) e Bulgária (5,2%) ocupam os últimos lugares do ranking. Portugal, com os seus 6,4% de voluntariado formal, surge mais acima na tabela, mas não brilha, ficando mesmo abaixo da média comunitária (19,3%) e no terceiro pior lugar do ranking.

Portugal está entre os países europeus onde voluntariado é menos frequente

Esta posição relativa do país poderá ser explicada, em parte, pela cultura de participação em atividades de trabalho voluntário organizadas coletivamente e pelas suas condições socioeconómicas”, explica o INE.

Costa e Marcelo a favor do voluntariado

Talvez seja essa questão cultural que leve, todos os anos, a questão dos voluntários no Web Summit a afirmar-se, sem falhar, como um dos tópicos mais quentes em torno desta feira. Certo é que, apesar da polémica, este trabalho não remunerado não colhe críticas junto do Governo de António Costa.

“Muitos [dos jovens] são voluntários porque acham que é uma oportunidade para conhecer o evento por dentro e isso também contribuiu para a sua própria formação“, afirmou o primeiro-ministro, em resposta aos jornalistas, durante uma visita ao Web Summit, esta semana.

O chefe do Executivo acrescentou: “Há 21 anos, lembramo-nos todos do que foi a Expo 98. O senhor ministro da Educação foi voluntário na Expo 98 e não foi porque a Expo estivesse aqui a explorar, mas porque quis viver por dentro esta experiência que a Expo lhe proporcionou”. Tiago Brandão Rodrigues logo respondeu: “Não teria feito de outra forma”. Costa rematou: “E fez-lhe bem essa experiência de voluntário”.

Esta quinta-feira, após o encerramento do Web Summit, o Presidente da República também abordou o tema: “Em relação, por exemplo, aos voluntários, foi uma crítica que foi feita, mas eu se tivesse a idade dos voluntários eu era voluntário só para vir ao Web Summit. Quer dizer, para um jovem é uma oportunidade única estar a ouvir oradores que são os melhores do mundo e estar a colaborar numa grande organização mundial”.

No final do Web Summit, esta quinta-feira, os voluntários do evento foram todos chamados a subir ao palco do Altice Arena para uma fotografia de família.

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