Império automóvel europeu enfrenta a mais dura prova de fogo

A Fitch prevê uma queda da rentabilidade e das margens operacionais da indústria automóvel europeia, que enfrenta a pressão da concorrência chinesa e das tarifas, mas destaca a resiliência do setor.

A indústria automóvel europeia está a atravessar um dos períodos mais desafiantes da sua história recente. Um novo relatório da agência de notação financeira Fitch, divulgado esta sexta-feira, confirma aquilo que os especialistas já antecipavam: a rentabilidade dos fabricantes europeus de automóveis irá diminuir em 2025 devido a perturbações relacionadas com as tarifas comerciais, pela pressão da concorrência chinesa na Europa e também pelas condições particularmente difíceis no mercado chinês.

“A produção automóvel europeia mantém-se 15%-20% abaixo dos níveis pré-pandemia e é provável permanecer contida a médio prazo”, destacam Cigdem Cerit e Tatiana Kordyukova, analistas da agência de notação financeira. Esta situação reflete uma transição mais lenta do que o inicialmente previsto para os veículos elétricos, juntamente com o agravamento da concorrência internacional e a evolução das preferências dos consumidores.

Esta realidade tem obrigado empresas de grande dimensão, como a Volkswagen e a Stellantis, a proceder à racionalização das suas operações europeias através do encerramento de fábricas e da redução do número de trabalhadores.

A Fitch prevê que “estas medidas de reestruturação vão pesar na geração de liquidez a curto prazo, com custos de reestruturação pontuais estimados equivalentes a cerca de 1% da mediana do fluxo de caixa livre”, ao mesmo tempo que as construtoras europeias verão as suas margens operacionais encolher. Aliás, segundo as estimativas dos analistas da Fitch, a margem de EBITDA das construtoras deverá baixar este ano para os 10,3%, contabilizando assim o segundo ano consecutivo de quebra desde 2023.

A situação no mercado chinês, tradicionalmente uma fonte importante de receitas para as marcas premium europeias, tornou-se particularmente preocupante para as marcas europeias.

No mercado acionista, esse desafio tem sido notado, com as ações das maiores construtoras europeias presentes no índice Stoxx Europe 600 Automobiles and Parts a contabilizarem uma desvalorização média de 15,5% no último ano e de 9,6% desde o arranque de 2025.

A situação no mercado chinês, tradicionalmente uma fonte importante de receitas para as marcas premium europeias, tornou-se particularmente preocupante para as marcas europeias. “Os fabricantes alemães e os produtores premium continuaram a ceder quota de mercado na China aos concorrentes domésticos”, destacam os analistas, sublinhando que as marcas europeias enfrentam simultaneamente pressões crescentes sobre os preços, incluindo no segmento premium, que habitualmente demonstrava maior resistência às variações económicas.

Os fabricantes europeus estão a procurar contrariar esta tendência através da celebração de parcerias estratégicas com empresas locais que possuem conhecimentos especializados em condução autónoma e desenvolvimento de software. Contudo, a Fitch não prevê “uma mudança material no cenário competitivo na China a médio prazo”.

Reportagem na unidade de produção da Stellantis em Mangualde - 11ABR25
A Stellantis, que resultou da fusão da Fiat Chrysler Automobiles (FCA) e da Groupe PSA (Peugeot Société Anonyme), é uma das construtoras que mais está a sentir a crise do setor. Há dias revelou que as receitas registaram uma queda homóloga de 13% no primeiro semestre e fechou as contas dos primeiros seis meses com prejuízos de 2,3 mil milhões de euros, que compara com lucros de 5,6 mil milhões de euros no mesmo período do ano passado. Só este ano, as ações da empresa acumulam uma desvalorização de quase 40%.Hugo Amaral/ECO

Tarifas americanas miram segmentos de luxo

No mercado americano, as tarifas comerciais representam um risco significativo para os fabricantes que exportam veículos produzidos em instalações localizadas no Japão, Coreia do Sul e Alemanha. No caso específico da Volkswagen, as tarifas irão afetar os segmentos de luxo com margens mais elevadas, incluindo as prestigiadas marcas Porsche e Audi, “enfraquecendo ainda mais o fluxo de caixa livre e limitando a margem de manobra do rating“, vaticinam os analistas da agência de notação de risco.

A Mercedes-Benz enfrenta riscos semelhantes, uma vez que a empresa utiliza as suas instalações de produção americanas como centro de distribuição para a produção global de veículos utilitários desportivos, que poderão ser afetados por eventuais aumentos tarifários impostos pelo governo chinês.

A agência de notação prevê que “o impacto dos aumentos tarifários seja partilhado entre fornecedores e fabricantes, com os fabricantes a suportar a maior parte do fardo”. As incertezas relacionadas com as tarifas comerciais podem provocar variações na produção, afetando negativamente os fluxos financeiros dos fornecedores que dependem dos fabricantes de automóveis.

Apesar dos múltiplos desafios identificados, a Fitch observa que “a maioria dos fabricantes automóveis com rating investment-grade têm margem de manobra suficiente no rating para absorver” as pressões que se colocam sobre as suas operações.

Também a pressionar as operações das construtoras está a transição para veículos elétricos, que se espera acelere durante 2025 e 2026, e que está a contribuir para a diluição das margens de lucro. No entanto, a Fitch antecipa que os fabricantes europeus aumentem as vendas de veículos elétricos a bateria em 2025, após um ano de 2024 caracterizado pela estagnação.

Este crescimento será impulsionado pela introdução de novos modelos e pelos ganhos de quota de mercado face aos fabricantes de fora da União Europeia. Porém, “a competição a médio prazo promete ser feroz, com os fabricantes chineses a construir as suas próprias redes e a aumentar as vendas no mercado”.

Apesar dos múltiplos desafios identificados, a Fitch observa que “a maioria dos fabricantes automóveis com rating investment-grade têm margem de manobra suficiente no rating para absorver estas pressões, apoiados por estruturas de capital sólidas”.

Perante este cenário turbulento, a indústria automóvel europeia vê-se forçada a reinventar-se para não perder terreno num jogo global cada vez mais competitivo. Entre reestruturações inevitáveis, pressão concorrencial inédita e margens de lucro testadas ao limite, as construtoras enfrentam um duplo desafio: acelerar a transição elétrica e resistir ao avanço chinês, enquanto lidam com tempestades tarifárias nos seus principais mercados de exportação.

Contudo, apesar das nuvens carregadas, há sinais de resiliência estrutural. Com balanços sólidos e ratings que ainda oferecem margem de manobra, as maiores fabricantes terão de fazer da adversidade uma alavanca para a inovação e eficiência.

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