Empresas estão a deixar ‘offshoring’ tecnológico para ter soberania, diz Accenture
Accenture revela ao ECO há empresas a voltar ao ‘nearshoring’ para projetos de inteligência artificial, no âmbito da “desglobalização digital”, e pede reestruturação “urgente” dos serviços públicos.
O protecionismo chegou às empresas que desenvolvem e investem em tecnologia. A consultora Accenture afirma que vê cada vez mais organizações a deixarem de parte a terceirização (offshoring) de serviços e talento tecnológico e a voltarem a mover parte das suas operações para dentro das fronteiras. Há também clientes a optarem por países europeus (nearshoring) de forma a tentar proteger os dados que são utilizados pelas aplicações de inteligência artificial (IA).
Em entrevista ao ECO, o managing director da Accenture Portugal responsável pela área de Dados e IA, Rui Teles, explica que este fenómeno está relacionado com a “desglobalização digital” em curso e a necessidade de soberania de IA, em que os países optam por recorrer a centros de dados e infraestruturas locais.
“Temos vindo a assistir, pelo contexto geopolítico e económico que vivemos, a uma tendência de os países cada vez mais criarem fronteiras físicas na utilização da IA e da cloud para garantirem resiliência, estarem independentes do ponto de vista infraestrutural e fomentarem o aumento de competitividade”, refere Rui Teles, acrescentando que “os países procuram um modelo de interoperabilidade de maior confiança”.
Rui Teles diz que existem duas dimensões neste novo panorama: primeiro, a necessidade “urgente de reestruturarmos os nossos serviços públicos” e, segundo a existência de “cada vez mais restrições à mão-de-obra fornecida fora da Europa em regime de offshore” que leva as empresas a voltarem ao sourcing da sua mão-de-obra tecnológica dentro do país ou em regime nearshoring em países europeus”.
Isto significa que os fornecedores de TI e as empresas de consultoria devem procurar acompanhar esse “equilíbrio” de mercado e que o país tem de evitar ser apenas um centro de disponibilização de recursos humanos, mas criar ativos para o próprio mercado português.

Segundo o managing director da Accenture Portugal, “quer queiramos ou não, a IA vai ser muito o motor de uma nova economia nos próximos dois a três anos”, o que torna inevitável que a cloud e infraestruturas evoluam para a tal soberania da IA.
Rui Teles alerta que as soluções para soberania digital ainda não estão claras nem foram estrategicamente definidas pelos países, apesar das orientações da União Europeia para desenvolvimento de infraestruturas, modelos e gigafábricas nacionais. “Esse plano não declinou em planos concretos nos vários países e, especificamente, no nosso. Espero que seja uma missão da nova agência que está a ser criada pelo Governo para a reformulação da tecnologia do Estado”, apela.
Na lógica de captar esse mercado, a Accenture começou este ano a desenvolver uma estratégia alinhada a este novo contexto internacional. “No sentido de reforçar e ajustar investimentos para que as nossas plataformas e serviços tenham cada vez mais especificidade local. Reforçámos o nosso go to market para esta área a que chamamos de soberania da IA”, admitiu o executivo da Accenture.
Por exemplo, em julho de 2024, a Accenture lançou o software de agentes AI Refinery e agora, cerca de um ano depois, chega a versão europeia (AI Refinery for Europe) desenvolvida com a Nvidia. A particularidade é permitir que países ou organizações de grande dimensão possam executar (treinar ou utilizar) os seus modelos de IA com alojamento local através de GPUs da Nvidia sem depender da cloud pública. Entre os clientes deste software estão a Nestlé ou a startup Noli, que é participada do grupo L’Oréal.
A consultora, cujo papel é assessorar e fazer a integração da tecnologia, encontra-se também a trabalhar com operadoras de telecomunicações que compraram a GPU (placa gráfica) para avaliar como é que a plataforma pode apoiá-las no desenvolvimento de aplicações que levem o país de onde são a tirar proveito das infraestruturas locais. O mesmo trabalho, com o intuito de robotizar a indústria, está a ser desenvolvido com um cluster industrial alemão, mas os nomes das empresas não podem ser divulgados.
“Para termos capacidade de IA num país, os dados que estão nesse país têm que ser processados, inclusive de agências governamentais. Logo, pode haver a necessidade e o requisito de essas aplicações serem alojadas dentro do país e de os dados de treino da IA serem controlados para garantir que se são fidedignos, credenciados e certificados os inputs dados aos modelos”, detalha o especialista.
De acordo com um inquérito da multinacional, mais de 80% das organizações governamentais mundiais têm na sua agenda, nos próximos 12 meses, a aceleração da implementação de infraestruturas digitais soberanas. No entanto, a Europa está atrás de outras regiões, como a Ásia-Pacífico, onde 40% das agências governamentais, até final de 2026, preveem ter cloud soberanas.
“Na Europa, houve alguns movimentos concretos em França e na Suíça (com implementações concretas e parcerias público-privadas para clouds soberanas). Curiosamente, são ambos operadores de telecomunicações que estão a liderar estas iniciativas nestes dois países”, exemplifica Rui Teles. Portugal está a entrar no campeonato e prepara o lançamento da sua, mas só daqui a dois anos.
A Europa vai representar até 30% do mercado global de IA soberana até 2030, segundo as estimativas da Accenture. De outubro de 2024 a julho de 2025, a consultora registou 55 pedidos de patente relacionados com a plataforma AI Refinery em dez países. Até ao final deste ano, a consultora antecipa alcançar a meta de 100 agentes de IA.
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