Álvaro Santos Pereira quer construir uma frente financeira lusófona
Entre apelos a uma maior cooperação e à defesa da independência monetária dos bancos centrais, o governador do Banco de Portugal quer reforçar o peso das economias lusófonas no xadrez mundial.
O novo governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, usou o XXXV Encontro de Lisboa entre os bancos centrais dos países de língua portuguesa, que decorre esta segunda-feira no Museu do Dinheiro, para lançar um apelo à união lusófona num contexto de crescente instabilidade económica mundial.
Perante os seus homólogos do mundo lusófono, Álvaro Santos Pereira defendeu que apenas uma cooperação mais estreita entre os bancos centrais dos nove países permitirá enfrentar os desafios de “um mundo que vive tempos de incerteza bastante significativo.”
“Os quase 300 milhões de pessoas que partilham a mesma língua representam um património linguístico e cultural de enorme valor económico que devemos dinamizar e valorizar”, salientou o governador do Banco de Portugal. Nesse sentido, Álvaro Santos Pereira propôs que as reuniões entre governadores passem a realizar-se várias vezes ao longo do ano, quer em Washington, durante as reuniões do FMI e do Banco Mundial, bem como rotativamente nos vários países, à semelhança do que acontece no G7 e no G20, exemplificou o governador português.
A nossa independência e credibilidade [dos bancos centrais] são pilares centrais na estabilidade das nossas economias.
No centro da intervenção do governador do Banco de Portugal esteve a defesa intransigente da autonomia das instituições monetárias, notando que “a nossa independência e credibilidade são pilares centrais na estabilidade das nossas economias”, particularmente num momento em que, segundo as suas palavras, existem crescentes questões políticas sobre as instituições independentes, incluindo alguns bancos centrais.
Esta defesa da independência ganha particular relevo num contexto internacional conturbado. Álvaro Santos Pereira alertou que “o mundo vive um tempo de incerteza bastante significativo em torno das políticas comerciais e internacionais” no contexto da configuração das relações financeiras internacionais, uma referência clara às tensões geopolíticas e comerciais que marcam a atualidade.
Um dos pontos mais periclitantes no quadro económico global prende-se com a situação da dívida pública de muitos países, nomeadamente dos países lusófonos. O governador do Banco de Portugal alertou que a economia global apresenta “níveis de dívida nunca [registados] em tempo de paz”, sublinhando ser “absolutamente essencial que se trabalhe para que as dívidas permaneçam numa dinâmica descendente.”
A situação é particularmente dramática na África Subsariana (em que se inserem Angola e Moçambique), com Álvaro Santos Pereira a alertar que os encargos da dívida de alguns países africanos de língua portuguesa estão em níveis historicamente elevados e o espaço orçamental tem vindo a reduzir-se mais rapidamente do que nas demais regiões.
O diagnóstico, que é espelhado num estudo publicado esta segunda-feira pelo Banco de Portugal e citado por Santos Pereira, aponta para que “os encargos com a dívida pública absorviam, em média, 14% das receitas orçamentais em 2024, o dobro do registado há uma década, com perspetivas de agravamento em 2025”, e que os fluxos de financiamento de muitos destes países ficarão praticamente circunscritos à cobertura do serviço da dívida dos próximos anos, o que obrigará muitos países a processos de consolidação orçamental precisamente quando enfrentam necessidades urgentes de investimento.
Cooperação técnica como resposta aos desafios
Para fazer face a muitos dos desafios com que se deparam os PALOP, Álvaro Santos Pereira lançou para discussão um programa ambicioso de cooperação técnica entre os bancos centrais lusófonos, que passa pela realização de reuniões mais regulares entre os bancos centrais no universo lusófono ao mais alto nível técnico. “Para debatermos e nos familiarizarmos com experiências em temas como a estabilidade de preços, fomentar a literacia financeira, reduzir a informalidade das nossas economias, combater a fraude e partilhar experiências a nível da supervisão bancária”, explicou.
A estratégia passa também por aumentar substancialmente o âmbito dos programas bilaterais de mobilidade entre colaboradores dos bancos centrais da lusofonia e pela realização regular de seminários virtuais conjuntos entre as nossas equipas para discutir previsões económicas e partilhar estudos.
“É essencial que todos aprendamos a reforçar a relação internacional e que trabalhemos cada vez mais coordenados de uma forma mais clara”, destacou Álvaro Santos Pereira, argumentando que a lusofonia pode e deve ter maior peso no xadrez financeiro internacional, desde que os seus bancos centrais trabalhem de forma articulada.
O XXXV Encontro de Lisboa, que reuniu representantes dos bancos centrais do Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Macau, além de Portugal, decorreu num contexto particularmente significativo. Foi o primeiro grande evento internacional liderado por Santos Pereira desde que assumiu a governação do Banco de Portugal, há uma semana, sucedendo a Mário Centeno.
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