Portugal é o ‘paraíso’ para carros baratos e China agradece

A popularidade das marcas chinesas no mercado nacional mostra que os portugueses compram com a carteira e já não com o logótipo das marcas europeias, segundo um estudo da consultora Simon-Kucher.

Portugal é o mercado onde o preço mais pesa na decisão de comprar automóvel, segundo um estudo realizado pela consultora Simon-Kucher. A conclusão não é mera casualidade. É confirmada pelas escolhas dos consumidores portugueses, que cada vez mais se viram para marcas chinesas como BYD e MG, cuja ascensão em Portugal é meteórica.

Um estudo global sobre o setor automóvel da consultora Simon-Kucher, elaborado no segundo trimestre de 2025 com mais de 6.700 respostas em 20 mercados (210 respostas em Portugal), revela que “o preço e o valor são fatores decisivos nas compras dos portugueses” e que o mercado nacional lidera a sensibilidade ao preço entre todos os países analisados, ficando à frente de países como Itália, França, Espanha, Brasil e até a China. ​

A prova dessa realidade é dada também pela preferência dos automóveis adquiridos, com os portugueses a escolherem predominantemente carros dos segmentos baixo e médio-baixo: 49% das vendas em Portugal concentram-se nestes dois segmentos, face aos 38% registados na União Europeia. No polo oposto, os segmentos médio-alto e premium representam apenas 29% das vendas nacionais, contra 40% na Europa, segundo dados da Simon-Kucher.

O preço e o valor são fatores decisivos nas compras dos portugueses, utilizando como medida de avaliação os descontos face ao valor do equipamento.

Estudo Automóvel Global Simon-Kucher 2025

E quando se olha para as marcas que mais crescem, a tendência é clara: a chinesa BYD mais do que duplicou a sua quota de mercado entre 2024 e 2025 no período entre janeiro e setembro, passando de 0,97% para 2,17%, com as vendas a dispararem 124% nos primeiros nove meses de 2025 face ao período homólogo. ​No mesmo período, o setor expandiu apenas 8,75%, de acordo com dados da Associação Automóvel de Portugal (ACAP).

“Portugal lidera o estudo deste ano como o mercado mais sensível ao preço”, destaca o relatório, que calculou a importância dos critérios relacionados com preço entre todos os fatores de compra. Numa escala onde o preço e o valor juntos representam praticamente metade da decisão de compra — 50,2% para o preço e 49,8% para o valor — os portugueses priorizam aspetos como o preço do veículo, o consumo de combustível ou energia, os custos de manutenção e reparação e o valor de revenda.

Esta obsessão pelo preço abre portas às marcas chinesas, que chegam ao mercado nacional com produtos competitivos e bem equipados a valores que as marcas tradicionais europeias e americanas não conseguem igualar. “O preço e o valor são fatores decisivos nas compras dos portugueses, utilizando como medida de avaliação os descontos face ao valor do equipamento”, lê-se no relatório.

Marcas chinesas bem recebidas em Portugal

Globalmente, a taxa média de consideração de marcas chinesas é de 43%, mas Portugal apresenta uma taxa acima dos 50%, ficando acima de mercados como Espanha, Itália, Alemanha, França ou Dinamarca.

Os portugueses veem nas marcas chinesas, acima de tudo, uma vantagem de preço, destaca o relatório da Simon-Kucher. Quando questionados sobre os principais benefícios associados a um automóvel de fabricante chinês, 61% dos inquiridos portugueses apontam o “preço mais baixo”, seguido de 41% que referem a “tecnologia avançada” e 32% que destacam o “design moderno e inovador”.

Mas o estudo também revela as áreas onde os fabricantes chineses precisam de melhorar para conquistar ainda mais consumidores. “A acessibilidade é fundamental para todos, mas os compradores portugueses são ainda mais focados no preço e exigem maior confiança na marca e melhor apoio ao cliente”, conclui o relatório. ​

A lealdade às marcas estabelecidas no mercado está a diminuir, com 57% dos consumidores nacionais a vaticinarem que muitas destas marcas podem mesmo desaparecer num futuro próximo devido à concorrência.

Entre os aspetos que as marcas chinesas devem melhorar, os portugueses destacam: melhores padrões de segurança (43%), melhor serviço pós-venda e apoio (40%), maior reconhecimento e reputação de marca (37%), construir qualidade e durabilidade (35%) e preços ainda mais competitivos (33%). “Qualidade e segurança são áreas em que falta melhor reputação às marcas chinesas”, sublinha o estudo.

A reputação continua a ser uma barreira significativa das marcas de Pequim, mas está a ser ultrapassada pela equação preço/valor. O caso da Tesla é paradigmático: apesar de continuar a ser uma marca reconhecida, está a perder quota de mercado em Portugal. Entre janeiro e agosto de 2024 e o mesmo período de 2025, a Tesla viu a sua quota cair 30% em Portugal e 43% na União Europeia, enquanto a BYD mais do que duplicou a sua presença no mercado português e triplicou na União Europeia, aponta o relatório da consultora.

Num movimento contrário à crescente popularidade das marcas chinesas, o estudo aponta para que a lealdade às marcas estabelecidas no mercado está a diminuir, com os consumidores portugueses a considerarem que muitas destas marcas podem mesmo desaparecer num futuro próximo devido à concorrência crescente dos fabricantes de veículos elétricos e às restrições regulatórias.

De acordo com o inquérito, cerca de 57% dos inquiridos portugueses concordam que “marcas de automóveis estabelecidas irão desaparecer devido à concorrência”, um valor praticamente alinhado com a média europeia de 59%. “As marcas estabelecidas enfrentam uma disrupção crescente à medida que novos fabricantes de veículos elétricos e as restrições regulatórias redefinem o cenário competitivo”, aponta o relatório. ​

Os fatores que contribuem para esta perceção são variados: 48% dos portugueses acreditam que “novas marcas de veículos elétricos oferecem melhores veículos”, 39% consideram que “já existem demasiadas marcas no mercado”, 38% apontam que a “proibição de motores de combustão ameaça marcas tradicionais” e 36% referem que “os automóveis estão a tornar-se menos acessíveis”.

Os portugueses não estão apenas a comprar carros mais baratos, mas a reescrever as regras do jogo automóvel europeu com a carteira na mão. Ao liderarem a sensibilidade ao preço entre duas dezenas de mercados globais e ao abrirem as portas a marcas chinesas com taxas de consideração acima dos 50%, os consumidores nacionais transformaram-se nos juízes implacáveis que decidem quais fabricantes merecem sobreviver.

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