“Terra Limpa” ameaça império do betão em Ourém
Conglomerado industrial da família Verdasca, com uma dúzia de empresas e mais de mil trabalhadores, envolvido em operação da PJ com suspeitas de vários crimes, incluindo fraude com fundos europeus.
Detido pelo casal Fernando e Maria de Fátima Verdasca, e especializado no fornecimento e produção de materiais à base de betão, o Grupo Verdasca, que emprega perto de mil trabalhadores sobretudo na região de Ourém, está no epicentro da operação “Terra Limpa”, que visa várias empresas deste grupo familiar que estão a “realizar atividades industriais em plena Reserva Ecológica Nacional (REN), sem as necessárias licenças de funcionamento e alvarás de construção”.
O grupo empresarial fundado em 1987 e sediado na pequena freguesia de Gondemaria apresentou candidaturas a subsídios ao abrigo do Fundo Social Europeu (FSE), do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) e do Mecanismo de Recuperação e Resiliência (MRR), com base em licenças de funcionamento e alvarás de construção provisórios emitidos pela autarquia de Ourém. Tal como três sociedades industriais, também o município foi alvo de buscas.
Segundo informou a Procuradoria Europeia em Lisboa, “os subsídios destinavam-se a apoiar a investigação industrial, a promover o desenvolvimento experimental, a apoiar a transformação digital e a internacionalização das empresas, e a melhorar a sua sustentabilidade ambiental”.
Os projetos em questão envolvem subsídios no valor de 19 milhões de euros, tendo sido já efetuados pagamentos de, pelo menos, 5,5 milhões de euros.
A Polícia Judiciária fala em “factos suscetíveis de enquadrar a prática dos crimes de violação das regras urbanísticas, poluição com perigo comum, corrupção, fraude na obtenção de subsídio ou subvenção e branqueamento de capitais”.
Em causa está a construção ilegal de uma unidade industrial para fabrico de estruturas de betão numa área integrada na REC e localizada em Giesteira, na freguesia de Fátima, que prosseguiu mesmo depois de ordens de embargo da autarquia, que foram comunicadas ao Ministério Público.
Após a denúncia feita há cerca de um ano pela associação ambientalista Quercus, ao jornal regional O Mirante, o empresário Fernando Verdasca admitiu que não devia ter começado as obras sem licenciamento, mas justificou que já tinha maquinaria na empresa para um “projeto único em Portugal, de casas pré-fabricadas para habitação social e residências de estudantes, e não podia pôr em causa um investimento com recurso a empréstimos”.
Contactado pelo ECO na sequência das buscas, o grupo de Ourém não reagiu até a hora de publicação do artigo.
Negócio da Verdasca & Verdasca deu ‘salto’ no pós-pandemia

O Grupo Verdasca é composto por uma dúzia de empresas e controla sete fábricas com uma área superior a 100 mil metros quadrados e 22 centrais de betão no centro e sul do país, reclamando a liderança nacional neste segmento de atividade com a transformação anual de 1,5 milhões de metros cúbicos. De acordo com a informação consultada pelo ECO, a empresa-mãe (Verdasca & Verdasca) faturou 70,8 milhões de euros com produtos pré-fabricados de betão em 2024, com lucros de 5,42 milhões, e era a que empregava mais pessoas (247).
No entanto, foi a Antobetão, participada a 100% e especializada na produção e distribuição de betão pronto, que maior volume de vendas realizou no último exercício (73,8 milhões de euros), com uma taxa de crescimento homóloga de dois dígitos. Com 165 funcionários e uma frota própria de 120 autobetoneiras e 40 autobombas, esta empresa criada em 2003 contribuiu para o conglomerado com lucros de 7,14 milhões de euros.
Já o negócio que a família criou há 28 anos para o aluguer e o transporte dos mais de 500 equipamentos do grupo, que batizou de Transgondemaria e tem 95 empregados, apresentou vendas de 16,2 milhões de euros e resultados de 1,45 milhões de euros no mesmo período.

Mais lucrativa (2,7 milhões de euros) foi a performance da produtora de painéis de betão Painelage, que tem como sócios-gerentes os filhos Tiago e Alexandra Verdasca (dividem uma quota conjunta de 80%). Criada em 2022 e com 20 trabalhadores, esta é a sociedade diretamente envolvida na construção ilegal destes pavilhões industriais que está na mira da justiça.
No império industrial dos Verdasca destacam-se ainda a Minerblanc, que produz minerais industriais como inertes, carbonato de cálcio ou dolomites destinados a indústrias como betão, argamassas, asfaltos, cerâmicas, vidros e impermeabilizações; ou a Lightblock, que se apresenta como uma empresa especializada na produção de materiais reciclados para obras.
Fornecedora das maiores construtoras portuguesas
Líder nacional no abastecimento de materiais à base de betão, o grupo Verdasca tem como clientes algumas das maiores construtoras nacionais. É o caso da Teixeira Duarte, para quem recentemente forneceu e montou duas vigas caixão para a variante de Évora do IP2; ou da Casais, que lhe contratou painéis e lajes que combinam madeira e betão para uma residência universitária em Braga, e para quem trabalhou num projeto de habitação sénior a custos controlados, composto por 48 apartamentos na Amadora.
Também este ano, através da Painelage, o grupo de Ourém assegurou o fornecimento de painéis em betão pré-fabricado para um projeto da DST na Figueira da Foz. À leiriense Coberfer vendeu e transportou os muros de contenção para uma obra no aeroporto de Lisboa. E lá fora, mais precisamente em Cabo Verde, comercializou cerca de 12.000 metros quadrados de pavê, lancis e peças especiais à Mota-Engil para a construção do novo terminal de cruzeiros no Mindelo, na ilha de São Vicente.

Entre as dezenas de obras que fazem parte do portefólio do grupo há também alguns contratos que ao longo do último ano foram adjudicados diretamente pelo Estado – e que podem ficar ameaçados com estas suspeitas que recaem sobre a empresa de uma série de crimes ambientais relacionados com a produção de betão.
No caso da Verdasca & Verdasca, o mais recente foi assinado no final de agosto pelo Metro de Lisboa, por 20.300 euros. O mais valioso envolveu um hospital de campanha do INEM e foi adjudicado há um ano por quase 150 mil euros pelos Bombeiros de Fátima.
Igualmente em regime de consulta prévia, em setembro do ano passado, o município de Ourém pagou 41.250 euros à Antobetão pelo “fornecimento contínuo de betão pronto” até ao final de 2024. Segundo os dados publicados no Portal Base, em julho voltou a entregar à mesma participada do grupo Verdasca, desta feita por 54.630 euros, o abastecimento deste produto até 31 de dezembro deste ano,
Liderada por Luís Albuquerque, que nas últimas eleições foi reeleito para um terceiro mandato numa coligação entre PSD e CDS-PP, a autarquia de Ourém disse esta tarde, em comunicado, ter prestado “toda a colaboração” e disponibilizado “todos os elementos solicitados pelas autoridades competentes” durante as buscas nas instalações da Câmara.
Segundo o DIAP Regional de Évora, para o qual este processo transitou em abril deste ano, depois de ter sido iniciado no DIAP de Santarém em setembro de 2023, as diligências aconteceram igualmente num complexo industrial em Ourém e “em sedes de várias sociedades comerciais e em residências particulares”.
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