“Um canalizador vai ganhar mais do que um programador na próxima década”
Dois empreendedores portugueses e um neerlandês juntaram-se na Web Summit para falar do futuro da IA. O impacto no mercado de trabalho foi o tema dominante. Todos têm perspetivas diferentes.

- Três fundadores de empresas de IA — Vasco Pedro (Spinnable.ai), Daniela Braga (Defined.ai) e Douwe Kiela (Contextual AI) — falaram na Web Summit sobre o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho, apresentando visões divergentes sobre o reskilling e a redistribuição de valor entre profissões.
- Vasco Pedro considera que a IA está a tornar-se tão acessível que dispensará requalificação, enquanto Daniela Braga prevê o inverso: uma desvalorização do trabalho intelectual e uma valorização crescente das atividades manuais, ao ponto de “um canalizador ganhar mais do que um programador”.
- Já Douwe Kiela defende que os programadores do futuro usarão linguagem natural e que o essencial será desenvolver competências humanas, como a comunicação precisa, num contexto em que muitos empregos mudarão de natureza e exigirão novas aptidões.
Idosos a interagirem com agentes de IA, canalizadores a ganharem mais do que engenheiros e coders a programarem em linguagem natural. Três CEO juntaram-se esta quarta-feira na Web Summit para falar do futuro da IA. Mas o tema principal foi, irremediavelmente, o impacto desta tecnologia no mercado de trabalho — e, sobre isso, cada cabeça sua sentença.
Questionado pelo ECO sobre a necessidade de os trabalhadores desenvolverem novas competências adaptadas a esta nova realidade (reskilling), Vasco Pedro — antigo fundador da Unbabel, que acaba de lançar uma nova startup de agentes de IA intitulada Spinnable.ai — apontou que a fasquia para a adoção de IA é baixa.
“‘Contratei’ um agente para a minha mãe, que tem 80 anos e vive num lar, e ela tem-no usado diariamente, está super feliz e entusiasmada com ele. E acho que o processo de democratização da IA é exatamente baixar a barreira para que toda a gente a use. E tenho visto isso a acontecer. Se a minha mãe, de 80 anos, que não é uma pessoa particularmente tecnológica, consegue usar IA com sucesso, então qualquer pessoa pode. E só irá melhorar”, afirmou o empreendedor português.
Para Vasco Pedro, “cada geração sabe mais sobre tecnologia do que a anterior”, uma tendência que se está a reverter. “Estamos a chegar a um ponto em que a tecnologia é tão fluida e natural que basta interagir com ela como se interagiria com outro humano. Por isso, não existe necessidade de reskilling para conseguir fazer outros trabalhos”, defendeu o cofundador e CEO da Spinnable.ai.
Estamos a chegar a um ponto em que a tecnologia é tão fluida e natural que basta interagir com ela como se interagiria com outro humano. Por isso, não existe necessidade de reskilling para conseguir fazer outros trabalhos.
De imediato, Daniela Braga, fundadora e CEO da Defined.ai, que vende dados para treino de modelos de IA, traçou um cenário mais pessimista, em que a IA levará a uma inversão completa na remuneração do trabalho: “Sim, a IA terá uma barreira muito baixa de adoção para os consumidores. Eu não acho que toda a gente vá subir a bordo do reskilling e ser recapacitada muito rapidamente, e ganhar a vida com isto.”
“Na verdade eu acredito que já estamos a ver isso nos EUA: o trabalho intelectual está a ficar cada vez mais barato e muita gente em computer science está a conduzir ‘ubers’, porque conseguem encontrar o mesmo nível de remuneração que tinham antes. Não estou assim tão otimista”, respondeu a empreendedora, comparando-se com a visão de Vasco Pedro.
Questionada sobre o que devem os governos fazer para endereçar o problema, Daniela Braga afirmou não ter uma solução “para reduzir este fosso nos próximos cinco anos”. Mas sublinhou que, “definitivamente, tudo o que envolva trabalho manual, será, acredite-se ou não, muito mais valioso em remuneração na próxima década do que o trabalho intelectual”. Daniela Braga foi ainda mais além, atirando que, em dez anos, “um canalizador irá ganhar mais do que um programador, de certeza”. “É sobre isso que deveríamos estar a pensar”, frisou.
Definitivamente, tudo o que envolva trabalho manual, será, acredite-se ou não, muito mais valioso em remuneração na próxima década do que o trabalho intelectual.
“Nem toda a gente” irá beneficiar da IA
Seguiu-se Douwe Kiela, cofundador e CEO da Contextual AI, uma empresa que trabalha na adaptação de modelos de IA ao contexto das empresas (engenharia de contexto), e que apresentou uma terceira perspetiva: “O programador será programador em linguagem natural, não em linguagem de programação.”
Dito isso, o neerlandês acrescentou que “os empregos das pessoas irão mudar”. “Nem toda a gente irá conseguir beneficiar disso. Eu penso que, como sociedade, temos de pensar no que isso significa e como podemos potenciar esse reskilling“.
"Nem toda a gente irá conseguir beneficiar disso. Eu penso que, como sociedade, temos de pensar no que isso significa e como podemos potenciar esse reskilling.”
Num tom mais otimista, o CEO da Contextual AI indicou que “existem muitas coisas distintivamente humanas que fazemos muito bem”, e deu como exemplo a área de vendas. “As pessoas compram coisas a outras pessoas. Comprar coisas à IA será difícil”, defendeu.
“Assim, penso que em muitos empregos as capacidades que serão necessárias [no futuro] serão apenas diferentes. Talvez não seja necessário aprender código, mas ser-se muito bom em coisas como comunicar de forma precisa e concisa. Se conseguirmos isso, conseguimos dizer à IA exatamente o que queremos e o que não queremos. Essa será uma capacidade muito valiosa”, notou.
O debate sobre o impacto da IA no mercado de trabalho continuará, à medida que mais empresas vão adotando tecnologia, adjudicando a agentes e outros sistemas tarefas, e até decisões, que antes eram exercidas por humanos.
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