Maioria das empresas não divulga impacto financeiro de riscos climáticos

Num universo de 20 empresas portuguesas, 7 divulgaram efeitos financeiros associados a riscos climáticos no seu negócio, 10 não o fizeram e as restantes três consideram-nos imateriais ou inexistentes.

Um estudo da KPMG conclui que a maioria das organizações ainda não quantifica e divulga os efeitos financeiros associados aos riscos climáticos. Olhando à primeira metade deste ano, e focando em Portugal, a consultora assinala relatórios pesados, com mais de uma centena de páginas, preocupações também com as vertentes social e de governança e metas de descarbonização de curto prazo validadas, mas poucas ambições de neutralidade carbónica.

O estudo “ESRS: lições aprendidas para o futuro”, desenvolvido pela KPMG Portugal, olha para os relatórios de sustentabilidade de 20 empresas portuguesas, que reportaram de acordo com as Normas Europeias de Relato de Sustentabilidade (ESRS), no primeiro semestre de 2025. Estes relatórios foram analisados no âmbito de um esforço global que escrutinou os relatos de sustentabilidade de 270 empresas. “Apesar do progresso alcançado em diversas áreas, ficam evidentes desafios a endereçar no futuro”, lê-se no comunicado que acompanha o lançamento do estudo.

No panorama geral, apenas 63 do total de 270 empresas divulgam os efeitos financeiros dos riscos climáticos, mas dessas só cinco o fazem na plenitude, ou seja, quantificadamente. Entre as 20 empresas portuguesas analisadas, sete divulgaram os efeitos financeiros associados aos riscos climáticos no seu negócio, mas 10 não o fizeram e as restantes três consideraram estes efeitos “imateriais”, isto é, pouco relevantes, ou inexistentes.

Na ótica da KPMG, “este resultado reflete o facto de se tratar de uma temática relativamente nova para grande parte das organizações, que exige primeiro a realização de uma análise de riscos climáticos e, apenas posteriormente, a modelação dos efeitos financeiros”.

Neste sentido, e de forma a melhorar a clareza e a utilidade das divulgações, a mesma entidade recomenda uma divulgação mais explícita destes efeitos, para permitir uma melhor comparabilidade. De acordo com a KPMG, observa-se “uma grande diversidade” nas abordagens adotadas, tanto no nível de detalhe como na forma de apresentação, “o que pode dificultar a compreensão por parte do leitor e a comparação entre empresas”.

A KPMG recomenda ainda que as organizações adotem uma terminologia “consistente”, referenciem “claramente” os efeitos financeiros atuais e indiquem a metodologia utilizada para quantificação, incluindo os horizontes temporais considerados.

A falta de quantificação destes efeitos não é um detalhe, já que esta lacuna “compromete a aplicação plena do exercício de avaliação de dupla materialidade [impacto da envolvente na empresa e vice-versa], um dos pilares centrais da diretiva europeia, fragilizando a utilidade da informação para investidores, reguladores e mercados”, observa a consultora. Os dados relativos a Portugal não têm relevância estatística, mas servem para uma “reflexão fundamentada”, conclui.

Preocupações sociais em destaque

A análise demonstra que as empresas identificaram um maior número de Impactos, Riscos e Oportunidades (IRO) materiais em temas Sociais (46%) do que em temas Ambientais (33%). Dentro destas categorias, as normas relativas às “alterações climáticas” e “mão de obra própria” são as mais destacadas como relevantes.

Todas as vinte empresas portuguesas analisadas consideraram a norma relativa à “mão de obra própria” como material, quer do ponto de vista da materialidade de impacto quer da materialidade financeira, “refletindo a importância crescente da gestão de recursos humanos no contexto da sustentabilidade”, assinala a KPMG.

O verdadeiro desafio residirá em transformar estes dados em ações concretas relevantes para os stakeholders, em resiliência e em criação de valor.

Pedro Cruz

ESG Coordinator Partner da KPMG

Os temas de governança não ficaram esquecidos, apesar de não terem o mesmo peso. 13% dos IRO materiais foram associados a uma norma relativa à governação, a da cultura empresarial, e a aspetos específicos de cada entidade. A norma de “conduta empresarial” foi considerada material por 16 das 20 empresas portuguesas incluídas no estudo. “Contudo, apenas metade das empresas estabeleceu metas concretas e poucas apresentaram mecanismos claros de monitorização da eficácia das políticas implementadas”, repara a consultora.

Metas definidas, mas pouco “net zero”

No cômputo geral, “as empresas analisadas demonstram uma ambição climática significativa nos seus relatórios”, escreve a KPMG. Entre as 20 empresas portuguesas analisadas, nove têm metas de curto prazo já aprovadas pela SBTi (incluindo três com metas de neutralidade carbónica, ou “net zero”).

As metas de curto prazo são consideradas pela consultora “fundamentais para assegurar um progresso mensurável e promoção da descarbonização dos três âmbitos”. Quanto às metas de neutralidade carbónica, o facto de mais de metade das empresas ainda não as ter definido reflete uma tendência observada a nível internacional, “dada a complexidade e o desafio inerentes à sua definição e implementação”, considera a consultora.

Relatórios ESG são pesos pesados

Os relatórios de sustentabilidade analisados são, literalmente, pesados. Em Portugal, o número médio de páginas, excluindo informações incorporadas por referência, foi de 166 páginas, enquanto a mediana atingiu 179 páginas. Estes valores são significativamente superiores à média (127 páginas) e à mediana (106 páginas) observadas no estudo global. Foram 16 as empresas portuguesas a superarem as 100 páginas.

O sócio associado de ESG na KPMG, João Torres, sublinha ainda que o estudo evidencia a elevada dependência que as empresas têm das informações de fornecedores e parceiros na cadeia de valor. Contudo, “poucas descrevem, de forma detalhada, os procedimentos de recolha e validação desta informação”, algo que é requerido pela legislação.

O verdadeiro desafio residirá em transformar estes dados em ações concretas relevantes para os stakeholders, em resiliência e em criação de valor”, conclui o sócio com a pasta de ESG na KPMG, Pedro Cruz, citado no comunicado de imprensa.

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