Patrick Drahi ‘tira’ Altice Portugal do alcance dos credores
Altice International designou a antiga Portugal Telecom e ainda o negócio dominicano como subsidiárias “sem restrições”. Ativos deixaram de servir de garantia para os credores.
- Patrick Drahi retirou os principais negócios da Altice International, incluindo a Altice Portugal, das garantias de dívida, numa manobra considerada agressiva para estabilizar as finanças do grupo.
- A Altice Portugal e a Altice Caribbean, que representam 80% dos resultados da Altice International, agora operam como subsidiárias sem restrições, permitindo maior liberdade financeira.
- A medida provocou uma queda significativa nos títulos de dívida da Altice International, colocando os credores numa posição vulnerável e aumentando a incerteza sobre o futuro do grupo.
Patrick Drahi acabou de puxar o tapete aos credores da Altice International, depois de ter retirado os seus principais negócios – incluindo a Altice Portugal, a antiga PT — do conjunto de ativos que serviam de garantia para as suas dívidas, numa medida considerada “superagressiva” que visa estabilizar as finanças do endividado grupo de telecomunicações.
Segundo anunciou na sexta-feira à noite, não só a Altice Portugal como também Altice Caribbean, que representam 80% dos resultados da Altice International, passaram a ser designadas como subsidiárias “sem restrições”, o que significa que deixaram de estar sujeitas aos termos dos contratos de crédito existentes.
Até então, estes dois negócios estavam dados como garantia aos credores que detêm mais de oito mil milhões de euros em títulos do grupo. Mas agora, sem estas amarras, têm liberdade para contrair dívidas, vender ativos ou pagar dividendos sem precisarem de autorização dos credores. O que já está a acontecer.
Uma das unidades da Altice Portugal concluiu um financiamento de 750 milhões de euros, dinheiro que servirá para pagar dívidas da casa-mãe, bem como para fundo de maneio.
A Altice International sinalizou ainda a possibilidade de captar mais dois mil milhões de euros em dívida adicional através da Altice Portugal, de acordo com o mesmo comunicado da passada sexta-feira.
Títulos da dívida afundam
A medida levou a um afundanço no valor dos títulos de dívida da Altice International. Na segunda-feira, dois dos seus títulos subordinados caíram de 35 cêntimos para cerca de 16 e 19 cêntimos, respetivamente, a maior queda intradiária da sua história.
“É superagressivo… Drahi acabou de tirar cinco mil milhões de euros em valor aos credores”, referiu um investidor ao jornal britânico Financial Times (acesso pago, conteúdo em inglês).
“Depois do fecho de mercado na sexta-feira, a Altice deu aos credores um duro golpe pós-Ação de Graças ao anunciar a transferência de ativos que representam 80% do EBITDA dos últimos doze meses para fora do grupo restrito”, escreveram analistas da CreditSights numa nota citada pela Bloomberg (acesso pago, conteúdo em inglês).
“Neste momento, Drahi controla a maioria das cartas, com pouca margem para os credores reagirem com força. Consideramos que os credores estão numa posição fraca — tanto pela perda de ativos como pelas avaliações altamente incertas de todos os ativos do grupo”, acrescentaram.
Drahi construiu um império no setor das telecomunicações através de uma série de aquisições financiadas por dívida. Porém, os últimos anos têm sido marcados por vários conflitos com os credores à medida que a subida das taxas de juro dificultou a capacidade do magnata franco-israelita de honrar os seus compromissos. As disputas intensificaram-se este ano.
Na semana passada, a Altice USA avançou em tribunal contra os credores que detêm a maior parte da sua dívida de 26 mil milhões de dólares, acusando-os de conluio ilegal para forçar a empresa a declarar a falência.
Antes, a administração da Altice France chegou a ameaçar os investidores com a possibilidade de transferir ativos para fora do alcance deles, numa manobra semelhante à que o grupo levou agora a cabo na Altice International. Porém, Drahi acabou por fechar no início deste ano um acordo amigável de reestruturação de 24 mil milhões de euros, numa operação em que os credores ficaram com 45% da empresa em troca de uma redução significativa da dívida na ordem dos 8,6 mil milhões.
Altice Portugal novamente à venda?
Entre as medidas anunciadas no final da semana passada, a Altice International revelou ainda que deu início a uma “revisão estratégica do seu portefólio de ativos”, num processo em que “irá avaliar as potenciais opções de alienação nos próximos anos, com o objetivo de aumentar a flexibilidade financeira e apoiar as iniciativas mais amplas de estrutura de capital”
Drahi está atualmente a trabalhar na venda da operadora francesa SFR — em cima da mesa poderá estar a venda separada dos ativos da telecom. Em Portugal, acabou de vender o centro de dados na Covilhã por 120 milhões de euros, mas o Financial Times avança que o magnata franco-israelita poderá relançar o processo de procura de um comprador para a Altice Portugal.
Em julho do ano passado, o ECO noticiou que os sauditas da STC chegaram à fase final para comprar a Altice Portugal, mas não houve acordo com Drahi por causa do preço.
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