Nova dona da têxtil Coelima ainda não pagou dívidas à Segurança Social

Segurança Social não exonerou massa insolvente da dívida da histórica têxtil de Guimarães, apesar do novo dono se ter comprometido pagar dívida, impedindo distribuir pelos credores receita gerada.

Reportagem na empresa têxtil Coelima, by Mabera - 19DEZ23A nova dona da falida Coelima, a Mabera, ainda não concluiu os pagamentos em dívida à Segurança Social, uma situação que está a bloquear o desfecho do processo e a impedir o pagamento aos credores de 3,5 milhões de euros por parte da massa insolvente. Para desbloquear a situação, o administrador judicial Pedro Pidwell entregou no tribunal uma proposta para distribuir já pelos credores, sobretudo preferenciais ou com dívida garantida, a receita disponível para rateio, enquanto avança com um pedido de cobrança coerciva à Mabera.

A Mabera, que em 2021 comprou por 3,7 milhões de euros a centenária de têxteis-lar de Pevidém, no concelho de Guimarães, que se apresentou à insolvência após uma quebra de mais de 60% das suas receitas, comprometeu-se ainda a pagar as dívidas da empresa centenária à Segurança Social (427,4 mil euros) e ao Fisco (aproximadamente 300 mil euros), num plano de prestações. Segundo apurou o ECO, empresa de Dâmaso Lobo cumpriu parte deste plano, mas tem pagamentos em atraso.

O ECO tentou contactar o industrial, mas até ao fecho deste artigo não foi possível chegar à fala com o novo patrão da empresa vimaranense.

“Apesar de notificada para o efeito, a Mabera não depositou à ordem dos autos a quantia ainda em dívida ao ISS [Instituto de Segurança Social], pelo que não resta à massa insolvente alternativa que não seja a cobrança coerciva de tal valor“, refere o despacho do administrador Pedro Pidwell que deu entrada no Tribunal Judicial de Oliveira de Azeméis, com a data de 28 de novembro.

Enquanto as dívidas não são pagas na totalidade, a Segurança Social não exonerou a massa insolvente desse valor, pelo que, se a empresa de Dâmaso Lobo não pagar, terá de ser a massa insolvente a ressarcir a Segurança Social. Uma situação que está a impedir o administrador judicial de, mais de quatro anos depois, fechar o processo e fazer os pagamentos possíveis aos credores.

Perante este impasse, o documento refere que o pedido de cobrança “implicará a propositura de ação judicial com vista a obter a condenação da Mabera em tal pagamento e, eventualmente, o recurso a providência de natureza executiva”.

De modo a que os credores não tenham de esperar mais para recuperar uma pequena parte dos cerca de 50 milhões que emprestaram à Coelima, o administrador argumenta que “a necessidade de realização de tais diligências não deve obstar ao pagamento, ainda que parcial dos credores, sobretudos dos credores que detêm privilégio e/ou garantia”.

Perante esta proposta, o administrador atualizou a sua proposta de rateio parcial a distribuir pelos credores, notando que desde a apresentação do rateio em junho de 2024 a massa insolvente recebeu juros das aplicações financeiras.

BCP, CGD e Novobanco recuperam menos de 15%

A “fatia de leão”, cerca de 2,2 milhões de euros, será destinada aos créditos garantidos do BCP, da Caixa Geral de Depósitos e do Novobanco sobre a histórica empresa vimaranense, o que representa menos de 15% dos 14,67 milhões financiados. Ficam por receber perto de 12,5 milhões.

Desta fatia, a CGD vai receber o maior montante, 1,1 milhões, de um crédito de 7,6 milhões, enquanto o BCP tem a haver 715 mil euros, de 4,8 milhões e o Novo Banco 339 mil euros, de 2,3 milhões.

Relativamente aos créditos garantidos por penhor a cinco sociedades estatais, num total de quase 2,5 milhões de euros, a distribuição proposta pelo administrador judicial propõe perto de 198 mil euros. As mais expostas são a Portugal Ventures, que fica a “arder” com mais de um milhão de euros neste processo, o Banco de Fomento (741 mil euros) e a Direção-Geral do Tesouro e Finanças (272 mil euros).

Em relação aos trabalhadores, a massa insolvente prevê o pagamento de 58,8 mil euros para o Fundo de Garantia Salarial, o pagamento da totalidade dos créditos dos trabalhadores

Aos mais de 500 credores comuns (e credores garantidos/privilegiados pela parte não satisfeita pelas garantias) são atribuídos 811 mil euros. Contudo, considerando os custos inerentes às diligências a realizar para cobrar a quantia devida pela Mabera, o administrador propõe que sejam rateados apenas 800 mil euros, de um total de 27 milhões de créditos reconhecidos.

Reportagem na empresa têxtil Coelima, by Mabera - 19DEZ23

No âmbito do processo de insolvência, a centenária Coelima, que chegou a ser um colosso industrial com 3.500 trabalhadores e que à data da falência tinha apenas cerca de 250, acabou em junho de 2021 por ser vendida à Mabera, grupo têxtil do concelho vizinho de Vila Nova de Famalicão, por pouco mais de 3,7 milhões de euros.

Esta não foi a primeira vez que este antigo colosso dos têxteis esteve à beira da falência. O primeiro resgate deu-se em 1991, durante o Governo de Cavaco Silva, com o executivo social-democrata a salvar uma empresa que era demasiado grande para cair. Uma espécie de Lehman Brothers do têxtil. Em 2011 foi a vez de a banca impedir o colapso, com a empresa a ser integrada num grupo (MoreTextile) que resultou da fusão com a JMA Felpos e a António Almeida & Filhos e cujo acionista principal era um fundo bancário (Fundo de Recuperação) gerido pela ECS Capital.

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