Da Meta à Nvidia. Os maiores negócios do ano na inteligência artificial
Entre a maior compra de sempre da fabricante de chips aos "negócios da China" da dona do Instagram e Facebook, estas são as operações de M&A na tecnologia que mais marcaram 2025.
Embora Portugal e a Europa estejam prestes a terminar um ano peculiar nas fusões e aquisições, com o número de negócios a diminuir e o valor dos mesmos a crescer, o resto do mundo prepara-se para fechar 2025 com recordes. Globalmente, este vai ser o segundo melhor ano de sempre em termos de capital movimentado em operações de M&A (mergers & acquisitions) e deve-se, em grande parte, ao boom da inteligência artificial (IA).
A IA impeliu as transações mundiais de tecnologia para cerca de 478 mil milhões de dólares (407 mil milhões de euros), o que significa uma subida de 76% em relação ao ano passado, de acordo com a Bain & Company. É uma fatia significativa dos 4,5 biliões de dólares (3,8 biliões de euros) registados no conjunto dos vários setores.
Os rankings destacam o facto de a Meta ter comprado uma participação de 49% na Scale AI por 14,8 mil milhões de dólares (12,6 mil milhões de euros). O alvo da dona do Instagram e Facebook foi uma empresa que avalia modelos de linguagem (o que permite aos chatbots funcionarem de forma correta) e foi fundada pelo jovem Alex Wang, filho de imigrantes chineses. Da China veio também a Manus, concorrente do ChatGPT, que esta terça-feira foi adquirida por mais de dois mil milhões e a consolidou nas tabelas de maiores investidores de IA de 2025.
Nvidia e Salesforce investem 28 mil milhões
A Nvidia esperou até à véspera de Natal para anunciar um acordo com a startup de chips Groq. Apesar de apenas terem confirmado um acordo de licenciamento de tecnologia, a CNBC noticiou que envolve a compra de ativos no valor de 20 mil milhões de dólares (17 mil milhões de euros), portanto a maior aquisição da história da five-trillion dollar baby.
Na lista de milhares de milhões da London Stock Exchange Group (LSEG) está ainda a Salesforce, que concluiu este mês a compra da Informatica, gestora de dados empresariais com IA, por oito mil milhões de dólares (6,8 mil milhões de euros). A proprietária do Slack considera que o seu segundo maior negócio de sempre permite que os seus agentes de IA “operem de forma segura, responsável e à escala em todas as empresas modernas”. Aliás, antecipa efeitos positivos nas contas, porque elevou a projeção de receitas para o ano fiscal de 2026 para entre 41,45 a 41,55 mil milhões de dólares, mais 9%-10% em termos homólogos, incluindo uma contribuição de aproximadamente 80 pontos base da Informatica.
Intel atrai Casa Branca
A fabricante de processadores Intel, que ficou conhecida pelas placas gráficas para os computadores da Apple, foi uma das estrelas de 2025 no que toca a captar investimento. A Casa Branca ficou com 10% da empresa e o grupo japonês SoftBank investiu dois mil milhões de dólares (1,7 mil milhões de euros) para ficar com uma posição em torno dos 2%.
Da Índia vieram 2,35 mil milhões de dólares (dois mil milhões de euros) da Coforge para comprar a empresa de IA californiana Encora, que lhe permitirá não só expandir a dimensão digital como a presença nos Estados Unidos e na América Latina. A Encora vende soluções de IA para engenharia de produto, cloud e dados e, com a Coforge, deve atingir um volume de negócios anual de dois mil milhões até março de 2027.
Na vertente de capital de risco, foi a sueca Lovable, uma plataforma de IA para criar websites e aplicações, que recebeu um dos montantes mais chorudos para uma empresa criada em 2023: 281 milhões de euros. Em apenas oito meses, atingiu o estatuto de unicórnio com o apoio de private equities e também das tecnológicas Nvidia e Salesforce.
Os analistas consideram que dominou a verticalização. Ou seja, Big Tech a comprarem infraestrutura, dados, robótica e cibersegurança. Importa salientar que aqui enumerámos os maiores investimentos conhecidos com equity ou alterações de governance, mas foram dezenas os casos de múltiplos investimentos ao nível da tecnologia. Até mesmo o internacional português Cristiano Ronaldo se lançou na Perplexity para diversificar (ainda mais) o portefólio nesta era dos algoritmos.
Na OpenAI multiplicaram-se os investimentos. Além da reestruturação societária, na qual a Microsoft ficou com 27% (abaixo dos anteriores 32,5%), a Nvidia vai investir na dona do ChatGPT até 100 mil milhões de dólares (cerca de 85 mil milhões de euros) e a Amazon aproximadamente dez mil milhões de dólares (cerca de 8,5 mil milhões de euros).
O valor das fusões e aquisições em todo o mundo aumentou quase 50% em 2025 e só foi ultrapassado pelo ‘boom’ de operações durante a pandemia de 2021, segundo o London Stock Exchange Group (LSEG).
A façanha elevou também as comissões cobradas pelos assessores (bancos de investimento, consultoras, sociedades de advogados…) para patamares recordistas. Um dos principais exemplos na banca é o Goldman Sachs, que deverá conquistar a maior quota de mercado no M&A em quase um quarto de século, segundo o Financial Times.
A instituição financeira de Wall Street assessorou cerca de um terço do valor total e atingiu uma quota de 10,7% de receitas vindas de transações concluídas em 2025, que foi a mais elevada desde 2022, de acordo com a Dealogic. A título de exemplo, vai ganhar honorários de 110 milhões de dólares (93,5 milhões de euros) por ter estado por detrás da venda da Electronic Arts por 55 mil milhões de dólares (46,8 mil milhões de euros).
Já as sociedades de private equity — quiçá mais do que investir neste momento — tentam lucrar com o apetite pela IA que vem dos Estados Unidos. Firmas como Oaktree Capital Management, EQT ou Partners Group lançaram-se em vendas de centros de dados na Europa num acumulado de 17 mil milhões de euros, avançou também a publicação britânica.
Soberania europeia é a preocupação de 2026
A principal preocupação dos negócios europeus na tecnologia será manter a “resiliência doméstica”, nomeadamente perante frentes como a soberania de Silicon Valley, de acordo com os analistas da Datasite. No relatório Deal Drivers: EMEA 2026 Outlook, elencam-se os exemplos da Alemanha, França, Irlanda ou Itália, que estão a emergir como polos de semicondutores e a captar projetos da Intel, TSMC, GlobalFoundries ou STMicroelectronics.
“A estratégia europeia para os semicondutores está a passar da ambição à execução, à medida que o bloco enfrenta os riscos geopolíticos e económicos da excessiva dependência das cadeias de abastecimento asiáticas e americanas. O European Chips Act, apoiado por quase 45 mil milhões de euros de financiamento público-privado, desencadeou uma onda de compromissos de investimento com o objetivo de reconstruir a produção doméstica”, lê-se.
Enquanto as coligações regionais pressionam Bruxelas para garantir que o valor abrange a indústria local, em vez de um modelo único para todos, a estratégia para os chips vai-se desenvolvendo com foco na resiliência e não apenas na capacidade, refere a Datasite. Por exemplo, através de onshoring — fabrico interno ou compra intra-União Europeia — de materiais críticos. “Com a intensificação das pressões geopolíticas, o impulso da Europa no setor dos semicondutores está a acelerar e 2026 trará mais consolidação, joint ventures estratégicas e alianças transfronteiriças em toda a cadeia de valor dos chips”, antevê a plataforma de M&A.
As próximas horas, deste último dia do ano, ainda poderão elevar estes valores, quer no ramo dos chips quer noutra ‘subeconomia’ da IA.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Da Meta à Nvidia. Os maiores negócios do ano na inteligência artificial
{{ noCommentsLabel }}