O que o setor segurador antecipa para 2026?
Avanços tecnológicos da Inteligência Artificial, catástrofes naturais cada vez mais severas e tensões geopolíticas constantes vão obrigar o setor segurador a reinventar produtos e modelos operacionais

A instabilidade geopolítica e económica atual, bem como o aumento e severidade de catástrofes naturais, vão ditar os próximos passos do setor segurador. Se juntarmos a isso a evolução tecnológica e a necessidade constante de implementar estes instrumentos nas operações do setor, obtemos uma imagem de uma indústria em transformação profunda. As expectativas dos consumidores e a regulação dos organismos de supervisão vão igualmente condicionar a forma como os seguros serão pensados e executados.
A aposta na Inteligência artificial
Atualmente, a Inteligência Artificial (IA) já está a ser utilizada no setor segurador. António Castro, CEO e cofundador da Frank – insurtech portuguesa especializada em IA e robótica -, explica que já existem três dimensões da IA que estão a ser aplicadas, são elas a “IA generativa, preditiva e agentes inteligentes”.
A verdade é que o setor segurador exige uma grande quantidade de dados, fazendo uso de vários algoritmos, e são esses dados que ajudam as companhias a decidir que seguro oferecer, o valor dos prémios a cobrar, e o processamento de dados pessoais e não pessoais no processo de subscrição. Nesse sentido, a IA consegue expedir esses processos, “automatizando tarefas e libertando os mediadores para funções de maior valor”, sublinha António Castro.
Um dos maiores benefícios apontados da IA é o “aumento de eficiência” e da “satisfação dos clientes”, afirma Hugo Veloso, manager da NTT Data Portugal, empresa de IA, negócios digitais e serviços de tecnologia.
Mas o sucesso ou a queda da IA no setor segurador vai ser ditado pela qualidade dos dados, da modernização dos sistemas e da segurança robusta. Neste sentido, a deteção de fraudes pode ser uma das áreas que irá beneficiar da IA em 2026, com uma previsão da Deloitte – baseada em estimativas da Coalition Against Insurance Fraud e do National Insurance Crime Bureau -, de que, ao implementar análises de fraude em tempo real impulsionadas por IA, as seguradoras de Propriedade e Danos poderiam poupar até 160 mil milhões de dólares até 2032. A Zurich, por exemplo, já começou a implementar tecnologias de IA para identificar fraudes em pedidos de indemnização, incluindo a utilização de machine learning para detetar anomalias nos pedidos apresentados.
Novos (e velhos) riscos que assolam o setor
O propósito dos seguros é cobrir riscos, desejavelmente de baixa frequência, mas com elevado impacto económico para as vítimas. Não é então de estranhar que o setor esteja sempre atento aos riscos, sejam eles emergentes, ou os que já existem, mas que continuam a evoluir, devido às implicações significativas que podem ter para a subscrição, investimentos e operações no setor de seguros.
O CRO (chief risk officers) Forum, constituído por um vários gestores de risco profissionais oriundos de várias empresas de seguros multinacionais, no estudo “Emerging Risks Initiative – Major Trends and Emerging Risk Radar 2025” identifica os riscos emergentes e os que já estão a impactar o setor: a IA, as alterações climáticas, o risco de transição para uma economia verde, falhas em infraestruturas críticas, riscos de cibersegurança, conflitos comerciais económicos e sanções, e conflitos geopolíticos e o reforço militar.
Como fazer face a esses riscos?
Para tentar contornar alguns destes problemas, as seguradoras já estão a trabalhar em várias soluções que serão implantadas nos próximos anos. Um desses casos são as soluções para a IA e cibersegurança. O relatório da Geneva Association, “Gen AI Risks for Businesses: Exploring the Role for Insurance” (out. 2025), baseado em entrevistas e inquéritos a líderes de seguros corporativos nos maiores mercados mundiais – a China, Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França e Japão -, revela que as seguradoras têm vindo a integrar em coberturas já existentes o ciberseguro, a responsabilidade profissional ou o seguro de erros e omissões. Assim, em vez de criarem produtos completamente novos, várias seguradoras têm optado por extensões contratuais que reconhecem, por exemplo, danos provocados por modelos de IA, falhas de automação ou utilização indevida de conteúdos gerados por sistemas de inteligência artificial.
O Diretor-Geral da Innovarisk, Gonçalo Baptista, afirma que os seguros Cyber, responsabilidade civil profissional e D&O estão em crescimento, mas “as taxas de penetração em Portugal ainda são muito baixas”.
Também o fundo contra catástrofes naturais, ou fundo sísmico, se apresenta como uma forma de fazer face às alterações climáticas. Apesar da sua criação ter entrado para a agenda de vários governos portugueses, a implementação ainda não aconteceu. Para José Galamba de Oliveira, presidente da Associação Portuguesa de Seguradores (APS), isso deve-se à “dificuldade de os governos interiorizarem” que este tipo de fundo teria de ter um caráter de “obrigatoriedade”. A sua implementação precisa de ser um “esforço conjunto”, entre seguradoras e o Estado, para assegurar os riscos financeiros implícitos às catástrofes, sendo também necessário que “as pessoas percebam que estão a proteger os seus bens”, considera. “Há países que estão melhor preparados que nós para responder a situações catastróficas”, lembra Galamba de Oliveira.
Já para o CEO do Grupo Ageas Portugal, Luís Menezes, só ainda não foi ainda implementado devido “à falta de vontade” do Estado.
O papel da regulação nos próximos anos
As exigências legais e regulamentares estão cada vez mais apertadas, representando um dos principais desafios para as empresas de seguros – falamos, por exemplo, de regulações como a Solvência II, normas de prevenção de branqueamento de capitais, concorrência e proteção do consumidor. Tem-se registado uma crescente preocupação com a transparência, a governação e o risco ESG (Ambiental, Social e Governança), e também a digitalização e a cibersegurança têm sido prioridades para os órgãos reguladores.
Gabriel Bernardino, presidente da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), durante a tomada de posse em setembro, assumiu “a simplificação regulatória como um objetivo estratégico” e prometeu “analisar o quadro regulamentar nacional para averiguar se os requisitos que excedem a base europeia se justificam pelo benefício que trazem, sem criar encargos desproporcionais que inibam a competitividade e a inovação”.
A influenciar também o setor está a revisão da Solvência II. Para o Presidente da APS, essa revisão “vai poder libertar algum capital para ser distribuído para criar mais oferta e inovação”, tendo criado “a expectativa de que haja um reporting mais simplificado, até mesmo a nível interno”. Também Teresa Brantuas, CEO da Allianz Portugal, vê a revisão da Solvência II como “um balão de oxigénio, facilitando outro investimento de capital”, numa altura em que as seguradoras enfrentam um aumento de custos e o setor está em constante transformação.
Entre a pressão regulatória, a transição climática e a revolução digital, o setor segurador entra em 2026 num ponto de viragem. A capacidade de inovar e adaptar-se determinará quem sairá mais forte desta época de disrupção.
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