Indústria reduz investimento ambiental, mas sobe gastos na mesma medida
Dados de 2024 apontam redução do investimento no ambiente pela indústria, embora os custos tenham aumentado. Empresas esperam que tendência se mantenha, pelo menos nos gastos.
Há mais empresas a incluírem a gestão e proteção do ambiente na sua atividade, mas o investimento nestas áreas decresceu, na mesma medida em que os respetivos custos aumentaram, deteta o Instituto Nacional de Estatística, com base em dados de 2024. A Confederação Empresarial de Portugal (CIP) assume que a tendência apontada deverá manter-se, olhando para o peso crescente dos custos regulatórios. O Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (BCSD) acompanha esta posição, mas acredita que o investimento voltará a crescer em breve, com o impulso de fundos europeus.
“Aumentaram as empresas industriais com atividades de gestão e proteção do ambiente (+1,2 p.p.), mas reduziram o investimento ambiental em 11%, com os custos operacionais a aumentar na mesma ordem de grandeza“, afirma o Instituto Nacional de Estatística, no âmbito do último boletim “Estado do Ambiente”, relativo ao ano de 2024.
A gestão e proteção do ambiente pelas empresas industriais engloba todas as ações e atividades destinadas à prevenção, redução e eliminação da poluição ou de qualquer outro processo que conduza à degradação do ambiente, promovendo simultaneamente a sustentabilidade ambiental dos respetivos ciclos produtivos.
Aumentaram as empresas industriais com atividades de gestão e proteção do ambiente, mas reduziram o investimento ambiental em 11%, com os custos operacionais a aumentar na mesma ordem de grandeza.
Em 2024, o esforço das empresas para promover padrões de desempenho ambiental nos respetivos processos produtivos traduziu-se num investimento aproximado de 182 milhões de euros, abaixo dos 204 milhões de euros em 2023, uma quebra de cerca de 11%.
“A redução do investimento ambiental sugere que grande parte das empresas industriais já terá realizado em 2023 os principais investimentos estruturais — como equipamentos de controlo ambiental, sistemas de eficiência energética, tratamento de resíduos”, entende a Confederação Empresas de Portugal (CIP), em resposta ao ECO/Capital Verde.
“Há mais empresas a implementar ações em matéria ambiental, mas focam-se mais em ajustamentos incrementais e já não em mudanças profundas do modelo produtivo“, considera a mesma fonte. O Conselho empresarial para o Desenvolvimento Sustentável, na voz da secretária-geral Filipa Pantaleão, acredita que importa considerar o papel dos fundos europeus no esforço de transição. “Em 2024, a execução de instrumentos como o PRR [Plano de Recuperação e Resiliência] foi ainda limitada no domínio ambiental, o que pode ajudar a explicar a contenção do investimento nesse ano específico”, assinala.
A redução do investimento ambiental sugere que grande parte das empresas industriais já terá realizado em 2023 os principais investimentos estruturais.
Neste sentido, a CIP deteta uma “abordagem mais defensiva do que inovadora”, a qual atribui a constrangimentos estruturais, como aumentos dos custos de produção, em particular relacionados com energia, “assim como da insegurança e falta de previsibilidade em termos de obrigações, metas e restrições“. Recorde-se que a União Europeia anunciou 2025 como um ano de simplificação da legislação verde, e fez várias alterações em diplomas ambientais. “Isto faz com que projetos ambientais de maior escala sejam frequentemente adiados”, conclui a CIP.
A diminuição do investimento é notória na área de “Proteção dos Solos, Águas Subterrâneas e Superficiais” (-70,2%) e na “Gestão de Resíduos” (-22%). Em sentido contrário, a “Proteção da Qualidade do Ar e Clima” reforçou a sua posição como principal domínio de investimento, passando a representar 38,7% do total aplicado (33,8% em 2023).
Quanto aos setores que investiram, as indústrias do couro e respetivos produtos, as da madeira, cortiça e suas obras e as de equipamento informático e elétrico concentraram a maior parte do seu investimento no domínio da “Proteção da Qualidade do Ar e Clima”, com 91%, 81,5% e 78,5%, respetivamente.

Por sua vez, as indústrias de material de transporte e alimentação, bebidas e tabaco orientaram a maior parte do seu investimento para o domínio da “Gestão de Águas Residuais”, representando 68,7%, no primeiro setor e 50,6%, no segundo.
Acreditamos que o investimento deverá retomar crescimento, principalmente em setores diretamente pressionados por metas regulatórias ou por exigências das cadeias de valor internacionais.
No que diz respeito ao Estado, a tendência foi negativa: a despesa pública com proteção ambiental diminuiu para 1.610 milhões de euros, abaixo dos 1.774 milhões de euros em 2023.
Gastos aumentam, sobretudo com resíduos. Mas também dão rendimento
Enquanto o investimento caiu, os custos operacionais aumentaram na mesma ordem de grandeza, contrapõem os dados do INE. Os gastos associados às atividades ambientais totalizaram 437 milhões de euros (mais 44 milhões de euros face ao ano transato), um aumento de 11,2%. Os rendimentos também subiram, tendo atingido 261 milhões de euros (mais 5,4% que em 2023).
No fundo, afirma a confederação empresarial, “os dados parecem indicar a incorporação da sustentabilidade na rotina produtiva, deixando de ser apenas um projeto pontual de investimento”. Do ponto de vista da secretária-geral do BCSD, o aumento dos custos operacionais reflete, sobretudo, a operação e manutenção de sistemas ambientais já instalados, a exposição crescente à fiscalidade ambiental e aos custos energéticos e o cumprimento de exigências regulatórias e de reporte “cada vez mais exigentes”.
O gabinete de estatística destaca os acréscimos de gastos registados na “Proteção da Qualidade do Ar e Clima” (14,9%) e “Gestão de Resíduos” (12,6%). Esta última rubrica mantém-se como a principal responsável pela despesa ambiental, concentrando 48,1% do total (mais que os 47,6% de 2023), “refletindo a forte incidência deste domínio nos processos industriais”, explica o INE.
Cremos que em 2025 a tendência identificada [de decréscimo no investimento e subida nos custos ambientais] possa continuar a manifestar-se, em função da introdução de mais obrigações e de novos custos.
“Cremos que em 2025 a tendência identificada [de decréscimo no investimento e subida nos custos ambientais] possa continuar a manifestar-se, em função da introdução de mais obrigações e de novos custos“, antevê a CIP. A confederação dá como exemplo a gestão de embalagens, a qual, “com o aumento acentuado” nas contribuições financeiras e a extensão da Responsabilidade Alargada do Produtor, assim como a adaptação às exigências definidas em termos de eco design, “implica custos elevados para as empresas”.
Já na ótica do BCSD, olhando além do panorama anual, “os custos operacionais ambientais deverão continuar a crescer, impulsionados pela necessidade de assegurar desempenho e reporte contínuos”, mas espera que o investimento assuma a trajetória ascendente. “Acreditamos que o investimento deverá retomar crescimento, principalmente em setores diretamente pressionados por metas regulatórias ou por exigências das cadeias de valor internacionais“, indica Filipa Pantaleão.
As entidades produtoras de bens e serviços de ambiente faturaram 13,9 mil milhões de euros em 2024, mais do que no ano anterior.
Em contrapartida, de acordo com o INE, a quase totalidade dos “rendimentos” das empresas associados à gestão e proteção do ambiente – 261 milhões de euros – teve também origem no domínio “Gestão de Resíduos”, que representou 99,7% do total e registou um aumento de 5,4% face a 2023.
Já as entidades produtoras de bens e serviços de ambiente faturaram 13,9 mil milhões de euros, acima dos 13,8 mil milhões de euros em 2023. Dentro desta quantia, 8,1 mil milhões de euros resultaram de atividades ambientais no âmbito de gestão dos recursos.
Há mais empresas a atuar sobre o ambiente
A fatia de empresas industriais com atividades de gestão e proteção do ambiente aumentou 1,2 pontos percentuais entre 2023 e 2024, alcançando os 19,3%. A tendência de crescimento tem vindo a verificar-se desde 2022, quando a fatia era de apenas 15,8%, indica o INE.
Existe, contudo, uma grande variedade na adoção de práticas ambientais, consoante a dimensão das empresas. Sem surpresa, entre aquelas com mais trabalhadores (acima dos 250), a adoção é maior, superando os 95%. Apesar da elevada adesão, o gabinete de estatística nota “ligeiros decréscimos” nestes escalões. 84,7% das empresas com 100 a 249 trabalhadores também assinalam práticas amigas do ambiente.
É entre as empresas mais pequenas que a proporção cai a pique: em 2024, só 53,8% das empresas com 50 a 99 trabalhadores exerciam atividades de gestão e proteção do ambiente, e a percentagem baixa para 15,7% no caso das empresas com até 49 trabalhadores. Ainda assim, a tendência é positiva neste último escalão, notando-se melhorias face ao ano anterior (a fatia situava-se nos 14,1%), ao contrário do verificado nos restantes segmentos.
Já olhando às regiões, é nos Açores que mais se adotam práticas ambientais (27,4%), seguidos do Alentejo (21,4%) e da região centro (21,7%). Em oposição, Madeira, Lisboa e Setúbal são as regiões que pior se apresentam (10,1%, 14,3% e 15,1%), respetivamente.
“O setor das ‘Indústrias petrolíferas’ manteve-se como o único em que todas as unidades produtivas adotaram medidas de proteção ambiental“, refere o INE. Houve melhorias na percentagem de “Indústrias de metalúrgicas de base”, “Indústrias químicas” e “Indústrias do material de transporte” que adotaram este tipo de medidas, atingindo 46,1%, 36,8% e 36,4%, respetivamente. O salto mais expressivo foi nas metalúrgicas, que partiram de 31,3% em 2023.
A gestão e proteção do ambiente esteve menos presente nas “Indústrias da madeira, cortiça e suas obras” e “Indústrias da alimentação, bebidas e tabaco”, nos quais as medidas adotadas abrangeram apenas 12,8% e 13,9%, das empresas, respetivamente. Neste último grupo houve mesmo um recuo, de 7 pontos percentuais. A mesma tendência de regressão verificou-se nas empresas de “Eletricidade, gás e água”, cuja fatia a aplicar medidas ambientais caiu 11 pontos percentuais, para os 17,8%.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Indústria reduz investimento ambiental, mas sobe gastos na mesma medida
{{ noCommentsLabel }}